Editorial – Tão LGBT quanto você

“Nós estamos cansados de sermos analisados, definidos e representados por outras pessoas que não somos nós mesmos, ou ainda pior, não considerados de todo. Nós estamos frustrados com a imposição do isolamento e a invisibilidade vindas da expectativa de anunciar ou escolher uma identidade homossexual ou heterossexual.”

O presente editorial poderia simplesmente ser o Manifesto Bissexual de 1990 copiado e colado. Ele diz tudo o que ainda hoje, trinta anos depois, nós bissexuais continuamos a sentir e experimentar em nossas relações com indivíduos e grupos sociais das comunidades não-bi; gays e lésbicas, nós também estamos falando com vocês – e, talvez, principalmente com vocês.

Nós estamos cansadas. E estamos irritadas.

E também estamos bem certas do que queremos, de quem desejamos, de quem amamos. A maioria de nós não está “passando por uma fase”, e, nesse momento, é completamente irrelevante saber quais de nós estão; porque todas nós somos bissexuais agora, e precisamos ser vistas agora. Precisamos ser reconhecidas agora.

Estamos bem certas de nossas práticas românticas e sexuais, com a individualidade de cada bissexual resguardada. Pois nem todas nós somos poligâmicas. Nem todas nós somos “pegadoras” ou promíscuas. Nem todas nós somos infiéis aos compromissos que assumimos – e, não, nós não temos “o dobro de chances” de trair um compromisso.

Estamos bem certas de que não há qualquer privilégio, frente às vivências das outras letras, em ser bissexual. Nós sofremos a mesma LGBTfobia que você, gay, que você, lésbica; ninguém para pra nos perguntar se somos bissexuais antes de nos agredir. E a passabilidade hétero, sobre a qual tanto se fala, também não é um privilégio; sermos validados apenas de acordo com a pessoa que nos acompanha é uma violência, independente de sua origem.

Bissexualidade é um todo, identidade fluída. Não assuma que a bissexualidade é naturalmente binária ou poligâmica: que nós temos “dois” lados ou que nós precisamos estar envolvidos simultaneamente com dois gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não assuma que existem apenas dois gêneros. Não interprete nossa fluidez como confusão, irresponsabilidade, ou inabilidade de assumir compromisso. Não equipare promiscuidade, infidelidade, ou comportamento sexual inseguro com bissexualidade. Esses são comportamentos humanos que atravessam todas as orientações sexuais. Nada deve ser presumido sobre a sexualidade de ninguém, incluindo a sua.

Nós estamos cansadas de ter de dizer o óbvio, que só não é óbvio para todo mundo pelo não lugar nos quais vocês nos colocam. Nós estamos cansadas de sermos vistas como a eterna negativa: o não-gay; a não-lésbica; o não-hétero. O meio-a-meio. E estamos cansadas porque isso não é o que nos constitui.

Em nós, nós somos completas. Somos bissexuais, independente de quem amamos, ou de se não amamos ninguém; independente de se já beijamos garotas, garotos, ou pessoas de quaisquer outros gêneros. Somos bissexuais independente de termos desejos sexuais. Somos bissexuais independente de sermos mulheres, homens ou não-binaries, independente de sermos trans ou cis. O que nos torna bissexuais é, e apenas é, a atração que sentimos por outras pessoas de quaisquer gêneros, seja essa atração romântica, sexual, ou ambos. Nada mais.

Nós estamos irritadas por ver que bissexuais que estão descobrindo sua sexualidade ainda se sentem aberrações ao se depararem apenas com a representação de pessoas heterossexuais ou homossexuais. Já é um processo doloroso se perceber enquanto desviante em uma sociedade; e se torna mais difícil quando nem o desviante te contempla. Para mim, foram dois anos sentindo isso na pele; pra muita gente, é bem mais tempo e saúde mental que se esvai.

Também estamos irritadas por não sermos ouvidas com equidade, tanto quanto todas as outras letras do LGBT+. Ora, nós existimos há muito tempo. A bissexualidade foi a primeira expressão sexual reconhecida pela psicologia; não é por nada que o nosso dia coincide com a data de morte de Freud. Nosso manifesto completa trinta anos em 2020. Após décadas e décadas sendo mais um no S do GLS de vocês, são doze anos de B ali, na sigla. E ainda assim, nossas vozes se perdem nos espaços que deveriam ser de todas nós.

Nós estamos cansadas de lutarmos pelas nossas pautas e, ao fim e ao cabo, nos tornarmos o “e bissexuais” das pautas de vocês, lésbicas e gays. Ainda que tenhamos nossas lutas em comum, nós não somos as mesmas. Estamos cansadas de sermos coadjuvantes das nossas próprias lutas. E precisamos de vocês para mudarmos isso.

Ouçam o que nós temos a dizer. Não permitam que nos leiam como outra coisa que não o que somos. Não nos afastem por sermos diferentes. Não tenham medo de se relacionar conosco. Corrijam os seus amigos que perpetuam noções estereotipadas. Corrijam aqueles que apontam um de nós como lésbica, gay, hétero. Deem força às nossas manifestações, em vez de absorvê-las dentro das suas. Lembrem-se do nosso dia.

Eu tatuei a bandeira bissexual no lado esquerdo do peito. Literalmente.

Às bissexuais que me leem, recomendo que façam o mesmo – ainda que não de forma literal. Estejam no mundo como bissexuais, na medida do que a sua realidade permitir. Abracem a sua bissexualidade como se ela fosse o unicórnio que todas as comunidades não-bi acham que somos.

Nós somos, nós estamos e nós permaneceremos.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz, atua e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.



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