[Arredores] Visi-BI-lidade: com Maria Freitas

“Visibilidade” e “Representatividade” são palavras de suma importância no dicionário de qualquer pessoa da sigla LGBT+; porém, para as Bissexuais, elas significam o combate à invisibilização e apagamento que sofremos todos os dias mesmo diante dos nossos pares da sigla – e, assim, se tornam cerne de trabalhos de bissexuais em diversas áreas artísticas: a música, o teatro, o audiovisual e, claro, a literatura. Exemplo disso é Maria Freitas, escritora que, apesar de ser “da roça” (como ela mesma diz), já chegou a todos os cantos do Brasil através de seus contos e romances.

A literatura de Maria Freitas está, sem sombra de dúvidas, entre as mais amplamente reconhecidas na comunidade bi brasileira contemporânea, e não é sem motivo; a escritora trabalha personagens bissexuais nos mais diversos contextos, com uma infinidade de representações, trazendo a representatividade diversa que nos falta aos bissexuais para seus romances e contos. E a visibilidade de Maria não fica só em seus escritos; com o podcast Bi Sem Carteirinha e os projetos Encontre Bi e Cadê LGBT, seu trabalho de fortalecimento de todas as Bissexuais e LGBT se mostra ainda mais intenso.

Hoje, a Trama apresenta a vocês essa autora imprescindível para o momento que vivemos enquanto militância bissexual e enquanto leitoras brasileiras. Rola pra baixo pra conferir a entrevista!

Maria Freitas com a Bandeira Bi

Trama: Para começar, você poderia contar um pouquinho da sua história, sobre como você se descobriu bissexual, e como você vivencia isso.

Maria: Então, meu processo de descoberta foi um pouco longo e demorado. Acho que acontece com muites bissexuais. A sociedade monossexista e heterocisnormativa nos afasta muito da possibilidade de podermos nos atrair por mais de um gênero. Eu sempre gostei de meninos, mas sempre soube que sentia algo diferente por meninas também. Na adolescência, tive alguns namorados, até que conheci a pessoa que estou até hoje, que é uma menina. Eu demorei dar nome para o que eu sentia e para o que eu era. Foi só depois que comecei a escrever sobre pessoas bissexuais que eu peguei esse rótulo para mim.

T: E faz quanto tempo, mais ou menos, que você começou a escrever personagens bissexuais?

M: Desde quando comecei realmente a escrever. A primeira protagonista que eu fiz era bi, mas não cheguei nem a finalizar esse livro. Foi só em 2017, no meu primeiro livro finalizado, “As Razões de Cris“, que escrevi o Henrique, personagem abertamente bissexual.

T: Você comenta em um episódio do Bi Sem Carteirinha que o Henrique é um personagem “problemático” em relação à representatividade Bi porque ele trai no processo de se descobrir. Por que você entende esse elemento enquanto um problema?

M: O problema é o estereótipo. Existem pessoas bissexuais de várias maneiras, inclusive pessoas que traem. A problemática acontece porque essa parece ser uma das únicas narrativas aceitáveis sobre bissexualidade na grande mídia. E ela perpetua um ideal de que bissexuais são sempre promíscuos, sempre indecisos, nunca confiáveis. Esse estigma do bissexual como alguém que nunca está satisfeito com apenas um gênero é profundamente ecoado pelas produções de ficção, e isso reflete na maneira como a sociedade nos vê enquanto bissexuais. Repetir isso em uma obra de ficção, mesmo que com pouco alcance, é reforçar esse estigma – algo que eu definitivamente não quero fazer.

T: Sobre essa questão do estereótipo e dos reforços deles pelas obras de ficção: existe uma convenção de que é bem difícil representar personagens bissexuais sem ter de recorrer a artifícios narrativos como a traição, ou a poligamia, ou à estrutura de “namorei um menino, hoje namoro uma menina” – ou seja, sempre tem que ter a representação de relações com dois ou mais gêneros pra validar a identidade de um personagem. Como você percebe o uso desses artifícios? Você acha que eles são efetivamente necessários para a construção de um personagem bissexual?

M: Definitivamente não são. Sabe por que as pessoas acreditam que precisam recorrer a lógicas binárias para escrever um personagem bissexual? Porque a ideia de que somos metade homo e metade hétero está estruturada no nosso imaginário do que significa ser bissexual. Essa lógica é que faz com que se acredite que, se estamos em um relacionamento com alguém de apenas um gênero, nunca estamos inteiros. O que é uma mentira. A solução é muito simples: basta dizer que o personagem é bissexual. Basta trabalhar as nuances de uma afetividade monodissidente, que vão muito além e não tem nada a ver com as lógicas monossexistas e binárias que a sociedade segue. Falta ouvir pessoas bissexuais e que essas pessoas bissexuais tenham referências que as ajudem a entender que a binariedade não nos pertence.

T: Você já usou essa ferramenta de afirmar os seus personagens enquanto bissexuais nos seus livros, sem explorar o binarismo? Como foi o retorno do público em relação a isso?

M: É muito difícil responder a essa pergunta, porque eu tenho muito personagem bissexual. Tenho personagem que está em um relacionamento não-monogâmico. Tenho personagem que se atrai por pessoa não-binária. Tenho personagem que desconhece o gênero da pessoa pela qual está encantado. Tenho personagem que diz que é bi e tenho personagem que não diz, porque, por exemplo, a história se passava em 1938. Mas, no último conto que eu escrevi, o Emma, Cobra e a Criatura da Parede, por exemplo, os personagens são bissexuais e dois deles se gostam. Pronto. Mas tem conto que eu militei bastante, como As Razões de Henrique e Azeitonas.

Agora, confesso pra você que é bem mais simples recorrer a um relacionamento antigo do personagem. Exemplo: ele está apaixonado por uma garota, mas antes namorou um garoto. É a maneira mais comum de você retratar personagens bissexuais.

T: E como você, enquanto leitora bissexual, se sente ao ter que recorrer a esses relacionamentos antigos?

M: Não encaro como problema, porque na minha vivência isso é muito natural. É a história da minha vida. Mas, a partir do momento em que isso se torna massivo, em que todo personagem bissexual precisa ter se relacionado com mais de um gênero para ser válido, isso pode ser tornar um problema, sim, porque acaba perpetuando a ideia de que, para ser bissexual, você precisa se relacionar com mais de um gênero, que somos validados pelo outro, e etc. Mas eu, honestamente, acho que esse é o menor problema entre as muitas representações ruins que temos. Não é sobre combater essas histórias, é sobre escrever outras.

T: Além da sua literatura, que é amplamente reconhecida dentro da comunidade Bi, você também tem outros projetos ligados à visibilidade Bi e LGBT+. Você pode contar um pouquinho sobre eles?

M: Eu tenho três projetos, além dos meus livros. O podcast Bi sem Carteirinha, onde eu, Marryson Dias e Gabriel Moreira, tentamos falar com bom-humor sobre como a bifobia nos afeta, mas acabamos sempre pistolando. Afinal, é como diz o Manifesto Bissexual de 1990: “nós estamos cansados”. Meus outros dois projetos são voltados para a divulgação de Literatura LGBTQIA+. O Cadê LGBT é um perfil no Twitter que divulga obras, especialmente de autores independentes e nacionais, que tenham protagonismo de pessoas LGBTQIA+. E, recentemente, lancei o encontrebi.com, que é um catálogo de livros e contos com protagonismo bi, pan e monodissidente no geral publicados no Brasil. Esses projetos surgiram quando eu percebi que existem histórias LGBTQIA+, elas só não conseguem chegar até as pessoas. Através do Cadê e agora do Encontre Bi, quero tentar ajudar a mostrar que nossas histórias existem e que estão sendo contadas.

T: E como você percebe que esses projetos impactam nas vivências de pessoas bissexuais? Você recebe mensagens, retornos diretos do público?

M: Confesso que tenho muita dificuldade em reconhecer o valor das coisas que eu faço, mas já vi muita gente me dizer que conheceu alguma história nova por causa do Cadê LGBT, que voltou a ler, que encontrou a representatividade que sempre procurou, mas não achava… Enfim, penso que ainda temos muito caminho para percorrer até a Literatura LGBTQIA+, especialmente a Literatura Bissexual, ter um alcance mais amplo. Mas já estamos no caminho e eu espero que meus projetos ajudem nesse processo.

T: Atualmente, você e muitos outros autores que são divulgados no Cadê publicam por conta própria, diretamente com a Amazon. Você sente que o mercado editorial tem menos espaço para publicações como os seus romances e contos? Ou isso é mais por uma questão de praticidade?

M: Fazendo o catálogo do Encontre Bi, percebi duas coisas: que a maioria das histórias são de 2019 e 2020 e que mais de 90% delas são de autores independentes. O mercado literário tradicional é fechado e pouca gente tem acesso à chave; mas ele só reflete aquilo o que a nossa sociedade é. Ele privilegia as pessoas que a nossa sociedade privilegia. É inegável que há, nos últimos dois anos, uma abertura maior para histórias que não sejam de homens brancos e cisgêneros, e mulheres brancas, cis e heterossexuais. Mas eu consigo contar nos dedos quem consegue entrar nos catálogos das grandes casas editoriais. O mercado independente é a maneira que encontramos de fazer com que nossa voz seja ouvida, que nossas histórias sejam contadas. E o sucesso de autores independentes LGBTQIA+, especialmente os negros, manda um recado impossível de ignorar: as pessoas querem OUVIR essas histórias.

T: O que você diria pros novos escritores LGBT que sentem essa ausência de espaço?

M: Conte suas histórias. Alguém precisa ler o que você tem para contar. Publique de forma independente. Acha que não consegue lançar na Amazon? Lance no Wattpad ou no Medium. E saiba que as portas do Cadê LGBT estão sempre abertas para divulgar você. É só mandar e-mail!

T: Como você enxerga as perspectivas da literatura LGBT+, especialmente a Bissexual, para os próximos anos, baseado nos retornos que você já recebe hoje pelo seu trabalho?

M: A Literatura LGBTQIA+ ainda vai crescer muito, especialmente aquela voltada para o público jovem. Existe uma carência muito grande dessas histórias, existe uma falta, existe o público. Esse público ainda está se entendendo como uma potência, e páginas como o Cadê LGBT acabam reunindo essas pessoas em um lugar em comum. Nós temos, hoje, 17 mil seguidores. Não dá para negar que existem pessoas interessadas em histórias LGBTQIA+. E a Comunidade Bissexual está começando a se ampliar. Eu boto fé que ainda seremos um fenômeno (mas eu sou otimista).

T: E da sua parte, Maria, vem novidade por aí?

M: Eu ainda tenho três contos para lançar da série Clichês em Rosa, Roxo e Azul; então, até o fim do ano, seguirei “vindo aí”. Mas o meu plano é me aquietar em 2021. Vou lançar a versão física da série de contos e produzir uma coisa ou outras para os meus leitores. Mas só se eu aguentar, né? Porque eu não paro nunca.

T: Qual é a pergunta que você gostaria que eu tivesse feito e eu não fiz? E qual é a resposta a essa pergunta?

M: A pergunta é “Maria, quando você vai lançar um conto com um papai noel alienígena?”, e a resposta é “em dezembro” (risos). Brincadeira. Mas eu realmente vou lançar um conto com um papai noel alienígena.

 Acompanhe o trabalho da Maria pelo Twitter em @themariafreitas e @cadelgbt.


Sobre a Entrevistadora:

Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.



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