A gente se acostuma (mas não devia)

Nos últimos dias, o texto “Eu sei, mas não devia”, da Marina Colasanti, não me sai da cabeça. A primeira vez que o li, em 2007, estava na faculdade de Jornalismo e, desde então, sempre o tenho na cabeça, tamanha a veracidade de suas palavras. A Marina conseguiu descrever a vida de todos nós em tão poucas palavras, de uma forma chocante e lamentável.

Após relatar várias e várias coisas que poderiam ser terríveis, mas com as quais terminamos por nos acostumar, o texto finaliza da seguinte forma:

“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

De tanto nos acostumarmos com as coisas, acabamos por nos perder de nós mesmos,  esquecendo de quem somos, do que gostamos e do que queremos. Mudamos nossa personalidade para nos adaptar ao “costume”. Transformamo-nos em pequenos seres moldados por uma sociedade igual, e acabamos por abandonar nossa essência, aquela que nos tornava únicos.

Ao nos acostumarmos em certos ambientes de trabalho, esquecemos os verdadeiros profissionais que somos, ou que tanto almejamos ser, simplesmente porque nos acostumamos a não ter o nosso trabalho reconhecido e a não sermos valorizados como os verdadeiros profissionais que somos. Nos acostumamos a não fazer sempre o nosso melhor, porque os outros se satisfazem com o “mais ou menos” e, assim, nos esquecemos de quem realmente podemos ser.

Ao nos acostumarmos com relacionamentos medíocres, achamos que não precisamos de nada mais do que aquilo. Um beijo de “até mais tarde” torna-se o suficiente para levarmos uma relação por longos anos. Esquecemos que é necessário renovar também no amor, seja com palavras, com atitudes, com olhares… O que não dá é se acostumar!

Se a vida não está boa, satisfatória ou está frustrante, devemos levantar e mudar, não importa o quanto doa, ou quanto tempo a mudança irá demorar. O que não dá é para se acostumar e ficar sentado enquanto esperamos o fim chegar. Porque, enquanto nos acostumamos e esperamos, a vida continua a passar e o tempo tem a implicância de nunca parar, já dizia Lenine na canção Paciência, “a vida não para”.

Até com nós mesmos! Não podemos nos acostumar a falta de cuidado, seja com a vida, a saúde, o amor… Se nos acostumamos a falta de zelo, terminamos por envelhecer mais cedo, adoecer mais vezes e, por vezes, morrer mais rápido.


Karina Mendonça é jornalista e escreve desde os 17 anos, pois acredita que as palavras podem fazer coisas maravilhosas, desde mudar o mundo, até fazer alguém sorrir. Ou chorar.



Galeria: artistas pra seguir na quarentena

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta