Felicidade de Areia

Chinelos e saia longa até o portão de madeira. Mangas também. Depois disso, o chinelo some, a saia encurta e os ombros respiram.

Maresia.

Os pés enterrados na areia, a pele melada de sal. Os cabelos emaranhados de vento, brisa marinha, marítima. Quer livrar-se das roupas, da bolsa, dos pesos que carrega, das preocupações.

A areia não pode entrar na bolsa, senão vai arranhar a lente da câmera. Queria transformar a retina em lente, o cérebro em cartão de memória, que desse pra salvar no computador depois. As fotos ficariam melhores se fossem acompanhadas da sensação dela, e não só um registro de lente não humana. A transferência de emoção pra uma coisa estática é muito complicada.

Se a arte fosse só sentimento, só intenção, seria a melhor artista do mundo.

Quer esquecer que tem dinheiro, que tem saudades, que tem tarefas. Quer esquecer que algo não é permitido, ou possível. Quer esquecer que tem sonhos e ambições, quer esquecer que quer ser uma pessoa diferente. Quer ser ninguém.

Apenas existir. É transcender que se diz, não é? Isso, transcender.

Dança na areia a música do oceano, o oceano que não é o dela. Cumprimenta, ‘oyá, minha mãe’, sem saber se é filha, sem saber se é assim que se diz, só porque parece certo. Sabendo que, se é filha, não é daquela mãe. Mas é que todo oceano se liga com outro e quem sabe o cumprimento não chega do outro lado do mundo. É mar aberto, e o medo é parecido. A paz também. Bota fé que pode ser que tudo sejam partes de uma coisa só.

Parte. Voltam os chinelos, a saia se alonga e as mangas se encaixam no lugar. A superfície é a mesma, nem parece que nada aconteceu. Só ela percebe a pele de sal. O cabelo de vento. A calma de correnteza. A paz de oceano. A felicidade de areia.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz, atua e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.



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