Eu detesto dentistas

Em 2021, existem algumas padarias que funcionam 24h, e isso é fabuloso! Nunca se sabe exatamente quando alguém pode precisar de duzentos gramas de mortadela ou de um pote de manteiga. Normalmente, esses são desejos do dia, eu sei; mas já não existe ortodoxia em quase nada, e saber que existe, em algum lugar na cidade, alguém com os olhos cheios de acolhimento e as mãos cheirando a muçarela às quatro e quarenta e cinco da manhã causa um sentimento bom, familiar. Tudo isso é verdade, mas não é bem o que interessa agora. Nasci na década de 1980 e separo bem os gozos do dia claro e do escuro, mas a padaria é a mesma. Lá, naquele dia, vivi o affair mais estranho de que me lembro.

Era uma quinta-feira, ou uma terça, não me lembro bem. Me lembro que tive de ir ao dentista porque um dos meus dentes resolveu quebrar e ensaiava começar a doer. Penso, às vezes, que algumas profissões funcionam como um teste de personalidade para o sujeito. Quem se dedique a ser oftalmologista, por exemplo, passando o dia inteiro medindo a pressão do globo ocular, pingando colírios e eventualmente operando olhos dos outros, não deve ser boa gente. Na mesma categoria eu coloco talvez os padres, os vereadores e os dentistas – cada um pelo seu motivo, mas todos incômodos. Sobre os últimos, em especial, é assustador pensar que alguém voluntariamente se senta numa cadeira reclinável, com a boca aberta para que enfiem uma furadeira lá dentro, isso enquanto o profissional insiste em fazer perguntas longas e sem respostas possíveis. Pois é, fui ao dentista.

Todo esse ritual aconteceu, com uma diferença apenas: seria preciso anestesiar. Bem se imagina que a aparência daquela seringa metálica, o barulho, e a perspectiva de que seria enfiada por dentro da sua bochecha já são suficientemente incômodas numa tarde de terça ou de quinta. Como existe muita mentira no mundo, os dentistas também mentem. “Fica tranquilo, não vai doer”. Doeu. Depois disso, a sensação estranha de que as bochechas estão ali, ao mesmo tempo em que parecem enormes e molengas. Ainda depois da injeção, a furadeira dói quando toca o dente. Suga-se a baba pintada de sangue, a dentista usa um gancho sádico para futucar dentro do dente. “Poxa vida, deu canal; vamos marcar para você voltar na semana que vem”.

Fiz um canal em 1996. Durou semanas, era terrível. O consultório da dentista, naquela época, ficava nos fundos de uma loja de material de construção. A gente entrava por um corredor enorme, pouco iluminado. O pai da dra. Silvana era dono da loja. Meus pais pagaram caro pelo tratamento e eu, jovem porém já sabendo de tudo, odiava genuinamente quem inventou os dentistas e quem inventou os dentes. Tudo isso adiantou foi nada, porque hoje eu sei que viver é como fazer canal nos dentes e suportar outras coisas do mesmo tipo.

Como minhas terças são geralmente longas, pude sair e cuidar de coisas. Teria que visitar meu consultório, negociar com pintores, acompanhar o acabamento dos rodapés. Depois disso ainda era preciso ir ao analista catar alguns feijões e separar pedras aqui e acolá. Me espanto em como há pedras no feijão da gente, tantas que para catá-las já levo dois anos. De máscara, porque a pandemia não acabou ainda, segui o script direitinho.

Num determinado momento, confesso que estava tão entretido com os compromissos que me esqueci da boca, do dente e da coisa toda. Discuti um verde amazônia que virou verde limão na parede, reclamei que o número de dias previamente combinado para o serviço dobrou, enfim, completamente absorvido pelo banal! As coisas só mudaram um pouco quando lembrei que era preciso comer.

Pelo relógio de pulso, ainda me restavam mais ou menos quarenta minutos antes da minha análise. Desci pelo elevador pensando no que comer e foi então que me lembrei dela, da padaria 24h. E foi para lá que fui, na esperança de um lanche rápido e satisfatório. Atravessei a avenida, entrei, fui até o balcão e pedi o que costumo pedir sempre: um misto frio com pão de sal. Segui o protocolo da sociabilidade com “boas tardes”, “como vão”, “dia quente” e o pacote inteiro. Feito o pedido, me sentei numa das mesas disponíveis enquanto aguardava a preparação do pão. Aqui é que o amor acontece.

Duas mesas a frente, se sentou uma senhora com sua filha. A mulher deveria estar perto dos oitenta anos; a filha, um pouco mais nova, arranhava os cinquenta. Chegaram, se sentaram, no chão a sacolinha da Cedimagem com exames. A velha permaneceu sentada enquanto a outra foi pedir o alimento.

Calor, não é meu filho? Com essa doença solta por aí, a gente tem que pegar é com Deus. Pegando com Deus, a gente aguenta!”

Sorri amarelo em resposta, porque lembrei que ela falava do mesmo sujeito que tinha criado os dentes e os dentistas, e nossa relação não estava boa naquele dia. Melhor só fazer um movimento amigável com a cabeça e desviar a atenção. Meu lanche chegou logo em seguida, e com ele o álibi para não esticar a conversa.

Comecei a comer, mas a mulher não parava de me olhar. Fiquei constrangido, acenei com a cabeça mais uma vez com um riso amistoso. A filha voltou para a mesa e, junto com a mãe, me olhou também, um pouco sem graça, antes de sentar de costas pra mim. Eu seguia comendo porque tinha apetite e um pouco de pressa, mas mesmo quando a comida da dupla já estava sobre a mesa, a velha continuava me encarando, isso a ponto de me deixar constrangido. Mas ela tinha toda razão.

Acredito que eu já tenha deixado claro como não gosto de dentistas. O calor das atividades da tarde me fizeram esquecer o desconforto, mas a verdade é que eu estava com o canto direito da boca dormente e ainda um pouco paralisado. Não sei se é do conhecimento de todo mundo, mas o misto frio costuma ter uns cinco centímetros de espessura, contando-se o pão, o queijo e o presunto. De um tempo para cá, decidi usar bigode também. Na soma de tudo isso, estava ali, a crueza ofensiva de um jovem sem controle da própria boca, com o bigode sujo de manteiga, farelo de pão e coca-cola. Não era curiosidade no rosto da idosa, era desconforto. Sentimento que imediatamente virou meu também.

Agi como um adulto maduro, alcancei o guardanapo; penso que tenha limpado o bigode, já que continuava insensível ao toque. Enfiei o resto de pão na boca e fingi que nada estava acontecendo. Por dentro, a sensação que gravitava entre autopiedade, vergonha, vontade de rir e um desejo incontrolável de que alguém tivesse fotografado a expressão daquela mulher me olhando. Comecei a rir de mim mesmo. Aquele riso foi bom demais, foi maravilhoso! Da minha parte, tenho ainda mais provas capazes de sustentar minha teoria sobre os dentistas; mas, para além disso, a D. Maria teria motivo pra falar com a filha e a família pelo resto do dia. Quando terminei e me levantei pra sair, eu ri para as duas e meu affair voltou a dizer me encorajando: “Tem que pegar com Deus, meu filho!”.

Na análise, a mesma coisa de sempre: fantasias, memórias, saudades e um puta desejo mal resolvido. Talvez eu tenha babado no divã enquanto falava, mas não senti. Ali era lugar de sentir outras coisas. Uma boca semi-torta era o de menos.


Vinícius Lara é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.



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