O dia em que João Felipe pensou passarinho

Seria um dia como outro qualquer não fosse a surpresa de uns pios no terreiro.

“- João! João!

– Não sou João, mamãe! Piu! Piu!

-Venha aqui, João!

-Não consigo! Estou preso!”

Vendo as fotos depois, tentei imaginar o que o levara a entrar numa gaiola e cantar. Essa busca por explicações me fez lembrar o que disse William James: “pássaro não canta porque é feliz, ele é feliz porque canta”.

De dentro da gaiola, pôde ser pássaro, experimentar as alturas sem sair do chão, deixar o pensamento por cima das nuvens sem correr os riscos.

Ele experimentou aquilo que os enamorados vivem e sonham: o estar preso por vontade… o estar preso por escolha… o estar preso por amor!

E João me fez ter a certeza de que não importa a rigidez ou a altura da grade, o tamanho ou a espessura de um muro; porque pensamentos não podem ser engaiolados… pensamentos não ficam presos.

Quem cria filhos como pássaros não deveria cortar-lhes as asas; deveria orientar os vôos! Quem age dessa forma, diria mais ou menos assim:

– Meu filho, se você sentir vontade de voar não precisa ter medo. Precisa ter certos cuidados, apenas. Cuidado com os galhos em que vai pousar. Prefira galhos firmes que sejam providos de boas raízes. E se tiver mau tempo, se alguma tempestade o ameaçar, escolha um abrigo seguro… Não durma em qualquer ninho. Fuja de certos predadores! Porque muitos deles se passam por bonzinhos e armam ciladas. E aí seus sonhos continuarão viajando, mas você perderá, por certo, a direção. E não tenha medo de voar alto: altura não mata pássaros. O que os tornam presas fáceis é a falta de desejo do voar.

Quem corta a asa de um pássaro consegue a proeza de vê-lo pousado no dedo; mas lá dentro dele, o que pulsa mesmo é aquela vontade de atravessar rios e de dormir nas nuvens.

Quem poda uma asa em vez de ensinar o voo vive a sensação de estar protegendo. Desfila garboso com o pássaro no dedo; e ambos precisam dormir presos para estarem protegidos.

Sempre aprendi que gatos entram sem fazer barulho!

Celas são gaiolas para aqueles que desistiram ou desaprenderam os sonhos de João!

João não está mais na gaiola! Agora é pássaro livre!

Continua cantando até sentir sonho de ser outra coisa.

Tem gaiolas que prendem mais que a que acolheu João: medos, indecisões, ambições, angustias, depressões, ódios… e assim vai!

São gaiolas em que o preso que não vê grades. Mas se não vê grade, também não vê portas… nem saídas!

Aos meus filhos, peço a Deus que me dê o jeito mais simples de ensinar a direção porque o voar mesmo terá de ser por conta deles.


Geraldo Nascimento nasceu em Piedade do rio Grande (MG) em 14 de junho de 1968. Formado em Tecnico em Agropecuária e Pedagogia. Reside em Matias Barbosa.



Galeria: artistas pra seguir na quarentena

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta