Agredidos: uni-vos!

Nada é tão ruim que não possa ser piorado”.

Essa foi a lição mais valiosa que a experiência da proximidade com militares me ensinou ao longo dos últimos 46 anos. É uma máxima bastante conhecida e repetida nos quartéis brasileiros, geralmente invocada – acreditem! – como uma mistura macabra de prelúdio à tortura e mantra motivacional. Começa assim: “Você acha que tá ruim agora, Guerreiro? Espera só… Nada é tão ruim que não possa ser piorado”. Logo depois, para comprovar a tese, o profeta dessa desgraça planejada, “o superior”, aumenta a dose de assédio moral ou (a depender da situação particular) até agressão física contra “o subordinado”. Tudo em nome do treinamento para aumentar a famigerada “rusticidade”.

Depois – e uma vez que a relação de subordinação é a moldura perene na janela para o mundo de qualquer militar brasileiro, para quem o fantasma do rei Hamlet é “O superior”, “O mais antigo” – assim que a ideia já está suficientemente internalizada pelo subordinado, ele está pronto para se satisfazer ou, no mínimo, se conformar com as condições mais adversas que lhe imponham, e praticamente nada mais é o bastante para justificar sua insubordinação. Afinal, “sempre pode ficar pior”.

É doloroso ver essa lógica se difundir e consolidar no Brasil, inclusive em muitos espaços, grupos e mentes que se autoidentificam como progressistas. É doloroso, sobretudo, porque essa lógica é perversa tanto no sentido vulgar do termo quanto no estrito, emprestado da psicanálise: ela é má porque adoece e mata pessoas; e ela é fundamentada na recusa deliberada dos sujeitos à castração simbólica operada pelas leis e pela moral, castração essa que sedimenta o convívio social saudável. E salubridade é precisamente o que temos perdido a passos largos num Brasil onde crianças estupradas são enxovalhadas por fundamentalistas religiosos, enquanto uma dinastia de misóginos racistas homofóbicos genocidas simonistas milicianos se dissemina no poder por meio da refração prismática do caos.

É preciso dar um basta nisso enquanto ainda existimos. Sim, para negros, mulheres, indígenas, LGBTQI+, idosos, deficientes, pobres, adeptos de religiões de matriz africana, e progressistas em geral, é uma questão de sobrevivência entendermos de uma vez por todas que, a despeito das inúmeras especificidades legítimas que nos diferenciam e justificam cada uma de nossas lutas e bandeiras particulares, a despeito disso tudo, vivemos de forma agonística a mesma condição de vulnerabilidade sociocultural. Essa condição se configura pelo fato de que uma única e mesma realidade perversa nos iguala e irmana nos tempos que vivemos: a ameaça contínua, factual e numericamente comprovada de eliminação física e/ ou simbólica pelas mãos do mesmo agente agressor – homem, cisgênero, branco, normotípico, de classe média (alta ou altíssima), armamentista, medianamente escolarizado, intelectualmente míope, neofascista e incapaz de exercer a empatia.

É esse sujeito que fala em “mi-mi-mi”, “racismo reverso”, “ideologia de gênero”, “escola sem partido”, “meritocracia”… ou que “bandido bom é bandido morto”, “na pandemia vai morrer quem tiver que morrer mesmo”, “a economia não pode parar”, “ela pediu pra ser estuprada”, “ele é gay porque faltou porrada”, “só mora em favela quem quer”, “índio é preguiçoso”, “negro é malandro”, “macumba é coisa do diabo” etc, etc… É esse sujeito que precisamos reconhecer, desmascarar e combater.

Eu aprendi cedo que “nada é tão ruim que não possa ser piorado”. A usurpação, a necropolítica e o semiocídio a que estamos sujeitos no Brasil –  desde que Cabral, o primeiro, aportou por aqui – desfilam hoje a céu aberto, têm uma legião de seguidores nas redes sociais, encontram pares em vários pontos da terra plana de suas autoverdades, e, porque se orgulham da sua própria ignorância, tendem a se espalhar cada vez mais, como um vírus, uma praga que, se não for combatida e extinta, vai nos matar a todos, um a um.

Também já faz muito tempo que aprendi: “a toda ação corresponde uma reação igual e em sentido contrário”. Isso é Física, é Ciência, é fato, não é uma questão de gosto ou de opinião. Vivemos o tempo surreal da predição de Brecht, e verdades assim, como a terceira lei de Newton ou o formato esférico da Terra, precisam ser reafirmadas. Até nos grupos de Whatsapp da família. Ou talvez principalmente neles. A verdade precisa ser mostrada, compartilhada, defendida pelo maior número possível de pessoas, em toda situação em que a mentira se apresente. E a verdade que todas as estatísticas mostram é uma só: negros, mulheres, indígenas, LGBTQI+, pobres, idosos e deficientes estamos sendo atacados. Bacurau é aqui!

Agredid@s: uni-vos!


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(www.deeficiencia.com.br) E-mail: prof.lcnascimento@gmail.com



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