Arte e Eros

“[…] as soon as the artistic imagination begins to
work on us, we leave the safe shore for the open sea.”
(Edgar Wind)

Nem a mais erudita historiadora da arte ou o crítico com o olhar mais agudo deveriam se levar realmente à sério quando fazem uma afirmação que soe absoluta demais sobre uma obra de arte. Obras de arte são como, sei lá, uma galinha untada em azeite. Você analisa sua compleição física, reflete sobre sua trajetória e tenta agarrá-la. Sente que ela está na ponta dos seus dedos, mas ela escapuliu mais uma vez – de um modo que até a sensação de que você a tocou parece então um pouco irreal.

Mas esperem. Uma poeta portuguesa, Adília Lopes, disse isso de forma bem mais interessante em um poema chamado “A Arte Poética”:

Escrever um poema/ 
é como apanhar um peixe/ 
com as mãos/ 
nunca pesquei assim um peixe/ 
mas posso falar assim/ 
sei que nem tudo o que vem às mãos é peixe/ 
o peixe debate-se/ 
tenta escapar-se/ 
escapa-se/ 
eu persisto/ 
luto corpo a corpo/
 com o peixe/ 
ou morremos os dois/ 
ou nos salvamos os dois.

O texto continua, mas é esse o trecho que nos interessa agora. Seria possível, junto com Adília, falar sobre a poética que é se relacionar com a arte. Ou seja, somos também criadores quando vemos uma criação. Como criadores que somos, nos dois casos, a poesia deixa seus rastros em nós, mas sempre nos escapa. É o que há de mais amável e mais odiável na boa arte. Nada ali é tão definitivo. Sobre os aspectos detestáveis da poética, um escritor estadunidense de quem gosto, Ben Lerner, já falou muito bem em um texto, traduzido no Brasil como “O Ódio pela Poesia” e publicado pela Revista Serrote, em sua edição de número 25.

Ben, eu e Marianne Moore, poeta que ele retoma em seu ensaio, poderíamos dizer sobre a poesia, em uma noite que só eu imagino que possa acontecer (Moore morreu, em 1972, e beber uma brahminha com ela significaria que eu também): “I, too, dislike it” ou “Sim, galera, às vezes, poesia é um saco mesmo”.

Mas a ideia, neste texto, é falar sobre (por favor, continue mesmo após essa declaração possivelmente pretensiosa) Arte e Amor. Não é nada novo. Há até um ensaio famoso e marcante da filósofa Susan Sontag sobre a necessidade de substituirmos a hermenêutica por uma “erótica da arte”. Neste texto, estou mais próximo de ser um leitor de Sontag, que não concorda completamente com suas palavras, do que alguém que vai fazer uma pregação sobre amarmos a arte. Isto é, quero dizer aqui como a experiência da arte, a meu ver, se aproxima do modo como o Ocidente, um dia, entendeu Eros.

Como os gregos imaginaram Eros, o Amor? Como um menino gordo, de cabelos encaracolados, bunda de fora, venda em seus olhos e um arco e flecha nas mãos, etc? Talvez, mas não é esse o aspecto que nos interessa agora, apesar do detalhe de Primavera, do Botticelli, logo acima, ter te enganado.

No Banquete, de Platão, no qual homens embriagados ficam debatendo por horas sobre o amor até que um deles, Sócrates, sóbrio, resolve tudo ao se lembrar das palavras de uma mulher, Diotima, percebemos que os antigos atribuíram um caráter bastante específico a Eros. Ele é a busca, o desejo. Surge de uma incompletude que configura a todos nós, humanos, e que nos torna insaciáveis. Contudo, não se trata da busca por um par romântico ideal. É bem mais do que isso. Enfim, leiam o Banquete, se puderem. É uma grande conversa de bêbados sobre o amor. É também um ótimo livro de filosofia sobre a filosofia, que possivelmente definiu os rumos do saber ocidental desde então e, penso eu, bem poderia ser também sobre nossa relação com a arte.

Acontece que nos colocamos em busca por sermos incompletos. O irônico é que, embora incompletos, temos bordas, fronteiras físicas que nos prendem a nós mesmos. Na experiência amorosa, como aprendi lendo outra poeta e ensaísta, Anne Carson, é como se nossos limites físicos se desfizessem. Ela nos ensina em seu “Eros, the bittersweet”, que na lírica grega o amor é compreendido como uma “experiência de derretimento” e que o deus do amor era conhecido como um “derretedor de fronteiras”.

É o que diz também uma antiga, popular e hoje pouco utilizada expressão da língua portuguesa: “eu me derreto por ela/ ele”. Quem nunca se derreteu por alguém? Por essa experiência de derretimento, o amor não é caracterizado, nos textos gregos, como seco, mas sim como úmido, molhado. Esta metáfora também está na música brasileira. Poderíamos citar diversos exemplos. Um amigo, de forma bastante sagaz, até definiu certa vez “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, o Gonzagão, como “a maior composição musical brasileira sobre amor”. Mas aqui, escolhi citar “Afogamento”, de Gilberto Gil, do álbum “Ok ok ok”, de 2018:

Vou correr o risco de afundar de vez/ 
Sob o peso da insensatez/ 
Já sem poder boiar/ 
Estarei com alguém nariz contra nariz/ 
O afogamento por um triz/ 
Tentarei me salvar/ 
Sempre assim/ 
Sempre que o amor vaza a maré/ 
Vou parar bem longe/ 
Aonde não dá pé/ 
Difícil de nadar/ 
Outro dia o fato aconteceu enfim/ 
Um golfinho-anjo, um boto-serafim/ 
Chegou pra me ajudar.

É a experiência do amor descrita por Gil que fala sobre o mais bonito deste estado de liquefação, mas também sobre seus riscos. O que é este afogamento? É a perda de si mesmo num mar que nos distancia das margens, seguras. A música é sobre a experiência de estar em um outro lugar, ser uma coisa que não somos nós. É sobre fazer parte de uma completude nova. Pode soar como algo assustador para nós, tão cientes de nossa individualidade, esta desmarginação. É a experiência de se juntar a algo e fazer parte de um outro ser. É um esquecimento, ao menos parcial e momentâneo, de si.

É o que pode provocar em nós um objeto de arte em um museu ou no instagram. Ou um filme de Agnès Varda. Ou uma série da Netflix. Ou uma música de Gil. É o que há de mágico, no sentido estrito da palavra, na arte. É, contudo, uma experiência arriscada. Um historiador da arte e da cultura alemão, Aby Warburg, que inventou há mais de um século uma nova disciplina denominada por ele Kulturwissenschaft [ou Ciência da Cultura], pareceu querer dizer que esta experiência de perda de si era necessária para compreendermos adequadamente a arte, desde que em um momento seguinte nós nos afastássemos desta unidade e conseguíssemos refletir sobre esta experiência.

Fato é que arte e magia estão unidos de modo umbilical historicamente e não só no Ocidente, não só no léxico que utilizamos para falar sobre ambas. Sabemos isto pelos santos que decoram tantas casas brasileiras ou pelos pontos de umbanda que ecoam pelas ruas das nossas cidades. O que as une, é isso que os gregos chamaram de Eros. É por ele que a arte, mágica, nos derrete para que sejamos, mesmo que por alguns instantes, outro ser. Nesta alteridade, sentimos que mesmo por um momento alcançamos uma completude e nela a compreensão indizível de algo que nos faltava e que sempre tentamos colocar no mundo. É o que há de mais bonito e de mais terrível na arte, como no amor. Essa busca arriscada é, contudo, o nosso melhor caminho para sairmos de nós mesmos num tempo em que estamos tão isolados e sozinhos. E não falo somente da pandemia de 2020.


Este texto foi publicado originalmente no blog da Bordô, projeto coletivo de consultoria artística do qual o autor faz parte. Para acessar conteúdos como este e conhecer melhor o projeto, confira o site: https://www.bordoart.com/


Referências Bibliográficas:

Anne Carson. Eros, the Bittersweet. Dublin: Dalkey Archive Press, 1998.

Adília Lopes. A Arte Poética. In: Caras Baratas. Lisboa: Relógio D’água, 2004.

Ben Lerner. O ódio pela poesia. Traduzido por Leonardo Fróes. In: Serrote 25. Rio de Janeiro: IMS, 2017.

Edgar Wind. Art and Anarchy. 3. ed. Chicago: Northwestern University Press, 1985.

Platão. O banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora 34, 2016.

Gilberto Gil. “Ok ok ok”. Geléia Geral, 2018. Disponível em: https://open.spotify.com/track/2ZElJCoy5AnyOxrusyakIM?si=tpjRKds-S9u7JwZDN0W4Cw. Acesso em 12/09/2020


Rhuan Fernandes é doutorando em História (da Arte) na PUC-Rio e membro da Bordô. Estuda o círculo intelectual da Biblioteca Warburg e se interessa pelo estudo do sublime, da luz e do movimento na arte. É pai da Gaia, uma vira lata caramelo, ama Milton Nascimento, café coado e cerveja gelada no copo americano.



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