O Drama da Finitude

Me dedicar ao estudo da História, enquanto ciência, me fez -e faz- desenvolver uma constante percepção do tempo em toda a sua volubilidade. É certo que, ao me debruçar com lentes analíticas específicas (seja ela política, econômica, demográfica, religiosa, enfim), consigo desfrutar dos tempos em que não vivi; ao passo que sou atravessada por indivíduos e vivências que, em muitos casos, são como grãos de areia numa praia vasta, são estrelas -em toda sua complexidade- num vasto universo. Nesse sentido, não excluo e, nem muito menos, pondero as suas ações dentro de sua respectiva contemporaneidade pois, os efeitos não são objeto da reflexão deste texto, mas o fato de que, a finitude, como (quase) uma antítese do/no tempo, gera não UM drama, mas O drama que se dilata no curto espaço de tempo onde se exerce a vida e se cria a experiência. 

Veja, quando digo sobre uma possível antítese entre finitude e tempo, não o expresso a grosso modo, mas digo segundo uma modalidade em que: a pessoa que vos escreve, está inserida nesse tempo, logo, a ótica está penetrada pela noção de vivência, o que por sua vez, atribui a chamada “vida” todas as complexidades que a cercam e perpassam. Assim sendo, a quase antítese é, em suma, a sensação de que muito somos, fazemos e reverberamos, mas que pouco duramos quando, numa análise histórica, por exemplo, depreende se que, 20/30 anos, são espaços de curta duração; mesmo que isso signifique metade da vida de alguém, ou toda a duração dela. 

Não quero trazer a sensação da História -enquanto ciência-  apartada da realidade e inviabilizadora dos indivíduos que fazem parte dela num certo tipo de seleção “meritocrática” dos que têm o nome gravado em livros, artigos, livros didáticos, etc. Até por que existem metodologias na pesquisa histórica que buscam dar face a indivíduos que, na maioria das vezes, compõe em demasia a sociedade em que estão inseridos. A título de exemplo dessas metodologias, cito a micro história (GINZBURG; LEVI, 1981-1988) e a história vista de baixo (history from below)  (THOMPSON, 1966). 

Aproveito esse fio para trazer como exemplo concreto os indivíduos que procuro analisar na minha pesquisa acadêmica: um conjunto de religiosos que desenvolvem funções diferentes mas com o mesmo ofício numa capela subsidiada pela Câmara de Vila Rica. Ao pensar no setecentos (séc XVIII) é normal nos depararmos com essa transitoriedade e fluidez na expressão do ser religioso, no entanto, quando suscito essa espécime, quero dar feição ao fato de que, indivíduos com uma expectativa de vida que rondava entre os 48 aos 60 anos, dispunham de ações no intuito de reverberar sobre os que ficavam. Ainda que a ideia de morte no Brasil Colonial se apresentasse dentro da -disciplinadora- moral católica, se acrescia dentro de um espaço de experiência (KOSELLECK, 2006) ações que implicavam na sua passagem pós morte. Veja, existiam indivíduos que pediam 300/500 missas post mortem, agregavam o máximo de pessoas possíveis em seus cortejos fúnebres como forma de pagamento dos débitos que ficavam, ou seja, trata se de uma preocupação que os movia em tempo e espaço -como gastar a vida, onde gastar a vida-. O meio é atribuído de complexidades, regido por uma lógica que, no entanto, se aloca em indivíduos plurais, dessa forma, verificamos, previamente -e retornando ao fio reflexivo do texto-, como a finitude se dimensiona enquanto um drama na experiência coletiva e o drama na experiência individual. 

Tenho me deleitado nos vídeos via satélite que são disponibilizados em um aplicativo. Ficar daqui, de uma demografia específica, olhando o conjunto, olhando a Terra, tem sido uma excelente provocação sobre finitude. Nessa breve existência (e, nesse sentido, não discuto o que, teologicamente, pretende se afirmar com a ideia e ideal de eternidade), me deparar com o que de ordinário há na natureza humana -o tempo, o fim, a morte- provoca uma certa paz. Paz para responder as demandas do agora e não me saturar desses exageros momentâneos. A gente precisa repensar e ressignificar a finitude em nome de uma saúde mental que precisamos ter -não só em 2020.

Tenho ensaiado que, a eternidade -a forma com que acredito-, pode ser um estado que tenha início antes da morte, mais especificamente, numa perceptiva sobre ser. Mas isso é papo para outro dia. Deixo um dos conceitos sobre História com que mais tenho me identificado e que acredito ser uma espécie de introdução e conclusão deste texto: 

“A história é objeto de construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”.” – Walter Benjamin. 


Gyovana Machado é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil. 



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