O Amor Libertário

O amor sempre cerca a vida – essa é uma de minhas certezas sólidas.

Claro que, com o passar dos anos, a vida me apresentou diferentes perspectivas do que
esta terminologia representa, de modo que o amor, em sua forma viva, foi apresentado para mim em diversos momentos, de maneiras distintas.

Vi a afetividade familiar, e a recebi por toda a vida, sempre tendo como aprendizado que o verdadeiro amor deve ser libertário, como um incessante sentimento que deve se encaixar onde nos sentimos bem, e acolhidos. A proposta do sentir portanto, deve ser nosso encaixe pessoal, em relações e situações em que podemos ser livres.

Porém, ao contrário do aprendizado que tive com a minha família, em alguns momentos não pude sentir a liberdade do amor. Me esqueci como era a sensação do alívio amoroso sendo como uma brisa leve que bate no rosto. Nestes momentos, pude sentir o vazio da alma, pois estive em locais onde recebi apenas o açoite do ódio, e por conviver com isso, devolvi todas as chicotadas.

Reconheço essa como minha pior falha, e hoje sei o que significa falar sobre amor verdadeiramente.

Desta forma, refletindo sobre esse conceito, concluí que escrever sobre amor talvez seja mais do que simples palavras de enaltecimento a outros, ou verbalizações simplórias sobre sentimentos que nem ao menos compreendemos, pois o amor é em sua forma mais complexa, completo de tudo e nada, é como o ar – que mantém o fogo, mas pode apagá-lo.

Decidi dissertar sobre isso de modo metafórico, pois o que é o amor se não metáforas criadas pela alma? Sabendo disso, caro leitor, entenda que já pude assistir o amor por muitas janelas, espaços esses cercados de tantos detalhes que mal pude acompanhar com clareza, e no fim, percebi que o amor são estas janelas, e que cada uma carrega peculiaridades, sempre com algo novo para me mostrar. Mas ainda que pudesse perceber tal beleza, me afastando destas vistas, pude notar minha solidão, escancarada em cada uma das minhas janelas, espaços esses que simbolizam o amor. Minha solidão pode estar acompanhada de lembranças que passavam ao longe, e as avistei em cada um dos buracos em minhas paredes.

Deste modo, o esplendor de meras recordações longínquas chocou-se ao amargor da tristeza inútil; e em minha profunda solidão, percebi meu amor inflamar como fogo sendo aceso por uma pequena faísca, ao passo que era alimentado pela brisa calma, me ardendo por dentro, como palha seca ao ser incendiada.

A solidão tornou-se solitude, e consegui olhar para minha vida, para as pessoas que a cercam, e perceber que o amor transformou-se em um levante pessoal, que me arde a alma, e nunca para de queimar. Esse fogo segue irradiando de dentro pra fora, sai por todas as minhas janelas até chegar em cada olhar que já tocou o meu, mas que só irá arder quando souber, verdadeiramente, o que significa o amor libertário.


Lauana Coutinho é casada com a História e amante da música. É historiadora pela Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), pesquisadora do período que vigorou a Ditadura Militar no Brasil e escritora sensível no pouco tempo que sobra.



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