Metalinguagem

Já pela terceira vez ele enchia a caneca com café diante da tela do computador. Se alguém estivesse ali, no recolhimento a que o homem se entregava, poderia perceber que as mãos tremiam um pouco, talvez pelo excesso de cafeína em jejum ou pela soma de noites em que já não vinha dormindo bem. De uns tempos para cá deu para ter câimbras no meio da madrugada, o que o levava a despertar invariavelmente uma ou duas vezes depois que pegava no sono para massagear a planta dos pés. Além da cabeça, era como se as pernas tivessem pesadelos, e só passavam se elas ganhassem um cafuné.

O relógio de pulso marcava 15h15, o do computador dizia que eram 15h23, um dos dois estava desajustado, ou, quem sabe, nenhum deles? Contar o tempo não ajudava a terminar o serviço. No fim do dia deveria entregar uma crônica para publicação naquela revista de arte e cultura. Escrever já fazia parte da rotina, só que, pensava ele, era preciso alguma musa inspiradora, um acontecido relevante, um desconcerto diante do mundo, que pudesse ser batido, esfregado, batido de novo e se transformasse em história. Se Graciliano Ramos estivesse certo – o nosso autor acreditava que sim – e o escritor fosse uma lavadeira de palavras organizadas para dizer, faltava algo mais. A inspiração ausente mantinha a xícara cheia de café.

As primeiras linhas redigidas eram fracas: “Já pela terceira vez ele enchia a caneca com café diante da tela do computador”. Pragmáticas demais, mas que fazer se não havia ideias? E olha que ele procurou por elas nos últimos três ou quatro dias. Andando pela rua viu como as pessoas estavam felizes por voltar a entrar e sair de lojas no centro da cidade, como se o vírus fosse uma memória ruim ou uma conspiração chinesa para inocular vacinas com chip de rastreamento no cidadão de bem. Pode ser que daí surgisse algo como comédia, mas não é engraçado quando o governo estimula o cidadão a não se vacinar. Dona Maria acredita no governo, não acredita na doença, tem fé de que Jesus está voltando, mas, desse jeito, tem fortíssima chances de não estar aqui caso seu deus tente voltar. 

Teve a conversa que escutou pelo vão de ventilação do prédio. Os vizinhos de baixo faziam as contas porque a mulher, já mais velha, precisou de uma cirurgia nos olhos e o orçamento ficaria mais apertado durante quatro ou cinco meses. A fatura do cartão estava alta, compraram um guarda-roupa novo, além do que escola em que ela trabalhava no serviço de secretaria parece que foi obrigada a diminuir a carga horária e o pagamento durante o isolamento. Como a inadimplência subiu, nos cálculos do dono o prejuízo era uma espécie de brincadeira de “mandou passar, não quero volta”. Ele não sabia o nome da vizinha, mas ela parecia ter o tipo de uma Regina, ou de uma Consuelo.

A conversa dos dois, que deveriam estar sentados na cama, já que a ouviu pela suíte do quarto, causou no homem uma sensação de incômodo. Os idosos do andar debaixo fizeram lembrar as discussões que seus pais tiveram por dezesseis ou dezessete anos sabendo que o salário era pouco para a inflação dos anos 90 e que precisariam fazer um milagre para cuidar dos dois filhos pequenos. Desenvolveria isso como? Escreveria sobre os próprios pais, talvez? Diria de uma cirurgia bem sucedida? Mal sucedida? O fim da pandemia ou a ansiedade da mulher que transparecia na voz um arrependimento sensível por ter comprado mobília justamente no momento em que os olhos resolveram dar problema? Não.

Se levantou da cadeira do escritório, coçou a cabeça um pouco acima da orelha, esticou as pernas foi até a estante e alcançou uma coletânea de poesias qualquer. Abriu ao acaso numa página em que se lia Retrato do artistas quando coisa, de Manoel de Barros: “A maior riqueza/ do homem/ é sua incompletude./ Nesse ponto/ sou abastado.” Se sentiu identificado com o poeta. Lá no fundo, por debaixo do destaque, do consultório, dos livros, da retórica, lá por detrás de tudo isso ele sabia que sua riqueza era exatamente a falta. Como lhe sobrava a ausência de coisa, essa mesma ausência transbordava do silêncio e fazia de vez em quando tanto barulho que era preciso encontrar alguma coisa para fazer e se encher. Pintou as paredes de casa numa dessas crises de espaço, visitou pessoas, caminhava na beirada do rio, dançava embaixo do chuveiro. E é possível escrever sobre essa incompletude sem fazer virar entulho? Sem se tornar um acumulador compulsivo de palavras que não combinam?

O telefone tocou durante a epifania. Era o pintor avisando que o material para pintar o consultório era insuficiente, que os dias de trabalho contratados eram insuficientes e que seria preciso mais. Sempre é preciso mais hoje em dia. A ansiedade de calcular quanto gastaria acima do valor previsto foi até as pontas dos dedos, o celular e a conferência nomophóbica das redes sociais. Olhou as mesmas páginas, os mesmo perfis, procurou as mesmas pessoas. Acalmou um pouco a agitação do imprevisto, largou o celular e se  sentou novamente diante do computador. Mais café.

Estar repleto de falta é quase um koan, uma máxima sufi. O que passava pela cabeça era , então, por que escrever? Para que? Para quem? É certo que pactuou com o diretor da revista textos semanais que depois se tornaram quinzenais, mas o combinado era de publicar poesias e não crônicas, e poesias tinha às pauladas. Só que para ele a poesis se tornou pessoal demais para espalhar por aí. Tinha aprendido a ficar nu no ano passado. Sua nudez tinha versos livres. Faria poesia quando quisesse ficar assim de novo, para se lembrar de Ouro Preto. 

Para que escrevia? Em última análise se escreve e se fala para dizer como as coisas deveriam ser. E ele tinha certeza disso. Na mesma medida em que o homem escreve o texto, o texto escreve o homem; da mesma forma que quando alguém lê, é o escrito que lê a pessoa. Um livro começa, ele pensava olhando de novo o celular, quando se termina de ler a última página. Nesse momento ele começa dentro da gente. Será que escrevia para corrigir o mundo? Não. Na medida em que meditava a respeito ia sabendo que o que fazia era uma espécie de erotismo, desde o início. Jogava as palavras sobre a tela de modo organizado e estético de modo a evitar a repetição gráfica, mas garantir a repetição pulsional. Seus textos eram uma fornada de desejos. Ele escrevia, portanto, para ler a si mesmo como se fosse outra pessoa e assim descobrir sem susto os desejos que tem. 

Responder para quem é mais difícil. Por esse momento já estava fazendo mais uma garrafa de café. Desligou a música que havia ligado no computador logo depois que desligou com o pintor. Pela janela dos fundos esperava a água ferver no canecão enquanto olhava para o hospital imponente no alto do morro, com sua fachada clara e seu letreiro clean. Há roupas no varal, e elas têm cheiro de amaciante. Escreveria para quem? Não era para si mesmo apenas, com certeza que não. Se fosse o caso seria melhor dizer em voz alta ou fazer teatro, porque no palco é mais fácil encenar. Escrevia para alguém,  mas nessa altura se dava conta  de que a missão era impossível. Dedicasse sua prosa ao presidente da república, à esposa, a uma livraria ou a uma paixão, – in carcere et vinculis – quem lesse não veria outra coisa além de si mesmo. Um texto é um espelho empoeirado.

Café coado, voltou ao escritório onde tentava redigir sua crônica. O estômago acusava o excesso, mas ele continuava sem inspiração alguma. Uma mulher esfriava na cama, uma jovem bonita e interessante tinha medo de se separar do namorado, os amigos estão ocupados demais com concursos, bebês, carro novo, enfim, nada que merecesse palavra. Era tudo vazio. Tudo quieto. Fosse ele Oscar Wilde, poderia culpar a Bosie, mas não era, apenas justo, então, culpar a si. 

Como boa parte do homens com mais de trinta anos no século XXI se sentia tentado a fazer alguma coisa grande na vida, mas na mesma medida existia um quê melancólico na certeza de que boa parte do sonho de se tornar grande o suficiente para mudar o mundo era só discurso do tempo em que se publicavam montagens de fotos imitando a capa da revista Pais e Filhos.

Naquela semana parecia melhor não escrever sua crônica. Havia nada a ser dito, e isso na mesma intensidade com que faltavam lixas 120 para o acabamento na pintura. Naquela sexta-feira não teria palavras. Não teria inspiração. O relacionamento está morno, o trabalho está posto, o tempo está curto. Desligou o computador. Naquele dia ele não escreveu.


Vinícius Lara é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.



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