Editorial – Ciclotimia Quarentenal

Ci.clo.ti.mi.a: substantivo feminino; padrão de personalidade caracterizado por períodos de excitação, euforia ou hiperatividade, que alternam com outros de depressão, tristeza ou inatividade, e que, normalmente, não configura traços psicóticos.

Eu devo confessar que já faz umas semanas que não me empenho em ouvir notícias, e não é porque eu não gosto de estar informada. Pelo contrário: cada vez mais, eu me torno uma ‘news junkie’, como diria um amigo querido – o que é um processo comum em jornalistas que entram na faculdade odiando reportagem e se formam em um mundo onde a produção de notícias é um ponto de altíssima sensibilidade. Mas não nessas últimas semanas; no último mês, talvez, eu tenho feito é esforço para acompanhar o tudo recheado de nada que continua se alastrando pela nossa temporalidade.

Eu não vou nem entrar no mérito de notícias confiáveis ou falsas; conheço bem minhas fontes de informações e minhas críticas a elas enquanto profissional. Não é isso o que me desanima. E nem mesmo a podridão do mundo, que acho que já chegou a um ponto de deixar meu cérebro dormente. Minha família diz que é sobrecarga; minha psicóloga culpa a ciclotimia; já a minha psiquiatra diz que é ansiedade e enche a minha cara de antidepressivos – como se eu precisasse de mais algum indutor de dormência. Não, não estou reclamando dos meus companheiros encapsulados diários, não me entenda mal. Eu só acho curioso, mesmo.

Ciclotímica que sou (gosto de concordar com a psicóloga), tenho processos curiosos de euforia e depressão que pouco têm a ver com a realidade ao meu redor. Em um momento epifânico, a minha mente ficou em silêncio, eu vi umas flores amarelas pela janela e percebi o quão pacífico era tudo ao redor. Clichês são clichês por uma razão. Dentro disso, reparei que a gritaria na minha mente tinha muito a ver com as notícias. Tudo recheado de nada.

Longe de mim criticar o trabalho essencial dos meus colegas de profissão. Na sociedade do progresso, a estagnação precisa ser noticiada. Ela diz muito sobre muita coisa. Mas, em verdade, não diz nada sobre o ritmo das nossas vidas humanas, tão amplamente desconsideradas no movimento de pauzinhos do jogo político.

Em um momento de quarentena, a minha vida parece que se torna uma montanha russa cada vez mais veloz e cheia de loops. Minha mente grita tanto que me vejo obrigada a viajar 529 km para ter algum espaço de respiro e retomar uma rotina minimamente saudável. A ausência de substância no excesso de acontecimentos me agita, e me deprime, em ciclos que vão de um extremo a outro em doze horas. E isso definitivamente não é exclusividade minha: há de se convir que o retrato mais caricato de uma quarentena consiste em um ser humano sozinho, andando pela casa desorientado, e eventualmente jogado no colchão, inerte. O ímpeto e a impotência de mudar o mundo nos atingem em cheio.

Apesar de não sentir qualquer impacto pessoal em relação aos não-acontecimentos anunciados pelas notícias diárias e, com certeza, o peso mental diminuir, a verdade é que ainda me esforço para me manter informada. A sociedade na informação nos incute tal obrigação; e, nesse momento, ela é ferramenta de proteção de nós mesmos e dos nossos.

Mas não se atenha só às notícias. O mundo está aí, pra quem quiser ver.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.



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