O guarda-chuva que pariu o mundo

A sala era pequena, apertada, onde ficavam quatro cadeiras, a mesa, algumas fotografias na parede e uma poltrona reclinável. Fora isso apenas a cozinha – espremida entre o fogão de quatro bocas Dako, a geladeira e a coifa que evitava gordura nos cômodos -, um quarto onde se empilhavam livros e roupas-de-cama e o banheiro. Como em um apartamento popular, o lugar era pequeno. Seriam pouco mais de quarenta metros quadrados para bem mais de quarenta dias.

Depois da primeira semana foi que percebeu que estava só. Não que notasse muito as outras pessoas no caminho em que fazia de casa para o trabalho diariamente, sempre saindo cedo e voltando tarde. Havia muita gente no trem, mas como estavam também em trânsito, não tinham rosto. Produziam o ruído dos seres humanos, o que já seria suficiente para notar que existem, mas sem a proximidade necessária, capaz de mostrar que eram importantes. Agora estava só. As salas de aula estavam fechadas para que lecionasse, seus alunos também estavam de quarentena. Ser só, entretanto, não é algo sobre o que se fale normalmente nas universidades, nas igrejas, nos botecos ou nos grupos de Whatsapp. Se sentia só, não sabia o que fazer e isso era grande.

Nunca alguém lhe disse que poderia criar coisas, deveria produzi-las, o que é bem diferente. Os prazos merecem ser cumpridos, é preciso visitar a igreja uma vez na semana, dois ou três dias no mês podem ser dedicados ao descanso. Esteja lá, ame o Brasil, repasse a notícia, role a pedra. Acima de tudo, role a pedra todos os dias. Trabalhando muito você terá repouso no final da vida, mesmo que sua vida não tenha começado, portanto, role a pedra. Mas e agora que não se pode mais rolar a pedra livremente? Não sabia o que fazer quando isso chegou, porque nos planos que tinha, apenas teria tempo livre o suficiente quando se aposentasse.

Da cadeira da sala apanhou as fotografias da parede com a intenção de escrever no verso de cada uma o lugar onde foram tiradas. Não eram muitas, talvez vinte. De três não se lembrou de jeito nenhum, e isso incomodou. A primeira era de um barco onde se lia “Princesa do Mar” sobre as águas azul-claras de um porto. Ao fundo uma montanha coberta de mato verde e dentro do barco um homem com boné de capitão levantava uma placa onde se lia “passeio de escuna”. Não tinha ideia se tirou a fotografia no Espírito Santo quando viajou com a mãe e o pai, ou se foi da região de Arraial do Cabo; talvez naquela vez em que foi a Porto Seguro. Fato é que nunca havia andado de escuna na vida.

A segunda fotografia mostrava uma rua com pessoas passando e um homem caído debaixo da marquise das Lojas Americanas. Não parecia sua cidade, mas onde seria? São tantos homens debaixo de marquises por aí afora, tantas Lojas Americanas. Quase infinitas possibilidades de imagens impactantes revelando as estéticas dessa pobreza urbana brasileira. Não era possível saber qualquer coisa sobre aquele retrato que estava na sua sala já há algum tempo. Isso chateava também, mas não tanto quanto a terceira.

Nesta última estava ao lado de um amor que teve e durou perto de uma década. Os dois posavam com jeito descontraído, um sobre as costas do outro. Numa mão uma garrafa de cerveja enquanto a outra enlaçava o pescoço do que estava no chão para não cair. Os dois faziam careta, estavam felizes. Ao fundo uma praça que parecia o parque da Redenção, em Porto Alegre, mas não dava pra ter certeza. Esse caso já tinha se acabado há mais de dois anos. Aquelas imagens lhe pertenciam, mas não eram mais suas. Foram esquecidas na parede como se esquece tanta coisa no pensamento. O isolamento mostrava: embora seu rosto estivesse ali, não existiam na memória. Eram papéis. As três desconhecidas jogou no lixo.

Quanto às outras relembrou, anotou e voltou a pregar no mural de cortiça já russo ao lado da porta. Estava só, e a não ser pelas poucas vezes em que saía para comprar comida e cerveja, ou nos momentos em que se revezava entre  livros e a internet, o mural de fotografia foi sua companhia. Levava dias para anotar as descrições de uma foto. Aos poucos elas foram se transformando num fio de Ariadne que era puxado, e cada pose trazia à superfície uma música, outra imagem, um poema, a vontade de ligar para alguém. Curiosamente se sentiu alegre. Na sua cabeça era como se a sua vida fosse um grande cigarro que fumava compulsivamente e lhe tirava o paladar. Enquanto vivia a abstinência, ia se descobrindo um pouco mais; gostava do que encontrou. Se sentiu como se fosse deus criando águas, terra, animais, homens. “ … viu que era bom.”

Propositalmente deixou uma por último, de quando visitou Ouro Preto no feriado do dia dos professores no ano passado. De supetão e para evitar uma estafa entrou no ônibus e partiu para passar um dia e meio na cidade. Já tinha ido até lá outras vezes, e sempre, cada vez mais, se apaixonava pelas casas tortas e as ruas de pedra; o frio da noite e uma atmosfera estranha que transpira ao mesmo tempo cultura e mágoa de tanta mistura de gentes e tanto tempo de escravidão. Ouro Preto era sua cidade imaginária. 

A fotografia em si era péssima, tremida, levemente desfocada. Estava de pé, diante da entrada daquele café quase na esquina da Rua Cláudio Manoel com a praça do obelisco. Chovia um pouco no final da tarde, e por isso segurava um guarda-chuva. Calça jeans, casaco de moletom escuro, nas mãos a bolsa onde estava a recém comprada nova edição de O Homem que Ri, de Victor Hugo. Um sorriso de contentamento no rosto. Em volta chuva e pedras ensaboadas. Não deveria ser mesmo uma boa fotografia. Quando pediu a uma moça que passava para fotografar ela fez cara de susto primeiro, e depois de preguiça. Pegou o celular e, de modo mal enquadrado, que cortava das canelas para cima fez o registro. A foto feia foi revelada porque era mais do que fotografia: qualquer um reconhecia ali alguém desarmado e satisfeito.

No verso da impressão anotou: “15 de outubro de 2019, fui feliz em Ouro Preto”. Depois riscou a palavra “fui” e escreveu “estava” no lugar. Por esses mistérios psicanalíticos se apaixonou pelo guarda-chuva que se tornou símbolo de pessoa. Resolveu, então, escrever sobre suas memórias na forma de pequenos poemas – quase todos rimas pobres que enfiavam amor no meio da história, porque ainda estava se desintoxicando daquilo que dizia de que toda poesia deve ser de amor. Continuava só, mas isso não parecia mais tão grande.

Abandonou a poesia e se aventurou em alguns pequenos ensaios. Será que todas as pessoas tinham alguma fotografia em casa para ver e recordar? Escreveu, então, sobre a fotografia. Leu pela internet coisas de Roland Barthes e teorizou de modo categórico sobre o que deveria ser uma “foto ideal”. Era como a criança que aprende a falar. Só que depois pensou que hoje em dia pouca gente sabia o que era uma foto impressa que não fosse panfleto de culto ou santinho eleitoral. Seus alunos precisavam descobrir como as imagens conversam com as pessoas! Foi quando se condoeu, porque em pleno século XXI parte deles não faziam sequer três refeições no dia, que dirá gastar tempo com essas bobagens de arte. Se indignou e escreveu sobre o Estado. Defendeu a renda básica universal e o fim do obscurantismo. Para isso criou uma situação distópica na qual o Brasil era governado por um homem-caricatura – um pai de horda – sem a menor noção do que seria o ritual do governo ou da razoabilidade. Uns diziam que tinha pacto com milicianos, outros que pretendia um golpe, mas a maioria apenas concordava que era um estúpido motivado. Estúpidos empoderados são perigosos. As consequências de toda essa distopia eram as piores, com prognósticos capazes de assustar os esperançosos. “Que fazer para evitar a catástrofe?” – perguntava aos leitores – “dar voz e vez a pessoas!” 

Se vestia de palavras para dizer coisas, não para enfeitar.

Lendo seus textos começaram a lhe pedir sugestões do que criar também. Uns faziam pinturas, outros, desenhos; fotógrafos – veja a ironia – e até escritores. A princípio sem se percebia capaz de ajudar, sentiu vergonha. Passou. Perdeu a conta de em qual dia dessa longa quarentena estava, mas sentiu como se, pela primeira vez desde os doze anos estivesse em contato consigo. Seu espírito era isolamento reverso. Uma revolução estava acontecendo naquela sala pequena, e imaginou que também em milhares de outras por aí. Parte das máquinas da engrenagem-mundo se tornava gente.

Quando pensou assim se sentou para escrever mais. Definitivamente não estava só. Desta vez pensou em um pequeno conto sobre tornar-se pessoa. Escreveu e se emocionou, porque escreveu com a intimidade de quem reencontra um amor proibido do passado. Por último o título: O guarda-chuva que pariu o mundo. Mas ainda faltava uma coisa a fazer. Voltou ao mural, rasurou mais uma vez o verso daquela fotografia de Ouro Preto e substituiu “estava” pela palavra “sou”. Nasceu alguém que sabe de si


Vinícius Lara é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.



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