I can´t breath! Je suis “Mineirinho”!

Procurar em nós

Mineirinho-1 é uma crônica de Clarice Lispector; tem por mote o assassinato do assaltante José Miranda Rosa – o tal Mineirinho – em 1962. A professora e psicóloga Yudith Rosenbaum já produziu uma excelente crítica-2 sobre essa crônica, situando-a no tempo e no contexto social do fato, bem como na produção literária da autora. Isso me dispensa da repetição. 

Quero aqui, então, convidar o leitor fazer um exercício de reflexão parecido com o declarado por Clarice logo no começo de sua narrativa: “É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora”. Era a década de 60 do século passado e a autora sente a dor da morte de um marginal. Proponho pensarmos no seguinte: em 2020, mais de 50 anos depois do extermínio de José Miranda, por que em tantos de nós a dor do Outro, quando não alegra, já não dói? Onde foi parar a nossa empatia?

A busca

A década de 1960 foi bastante agitada, para dizer o mínimo. Guerra Fria corrida espacial, surgimento dos Beatles, golpes militares em vários países da América Latina, revolução sexual, desaparecimento de Luther King, grandes festivais de música… Em meio a tudo isso, uma literata brasileira se ocupa com o fuzilamento de um assaltante na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Porque, segundo ela, “[…] essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; […]”. 

É isso a empatia: eu também sei o que é sede, sei que ela pode desnortear, desesperar, torturar e até matar. Se eu não quero lidar com ela, e entendo que 

quem está ao meu lado também não queira, isso me ajuda a compreender as ações de qualquer um no sentido de evitar a própria sede (esperto jogo semântico clariceano: “sensação física gerada pela necessidade de ingerir líquido”, ou “ânsia, desejo forte por algo”?).

Tomando por referência aquilo que nos garante vida e confere Humanidade – acolhida, alimento, saúde, instrução, dignidade… ou, em uma palavra, cuidado – fica relativamente fácil entender que as necessidades de alguém ao meu lado (o Outro com quem eu convivo e interajo a maior ou menor distância) tendem a não ser tão diferentes assim das minhas. Para além de todos os argumentos racionais de base filosófica e/ou sociológica que sempre se podem invocar, a experiência prática, concreta e cotidiana mostra de maneira evidente que cada indivíduo Homo sapiens, desde o nascimento, é dependente da interação com outro(s) indivíduo(s) da espécie: um recém-nascido é absolutamente incapaz de sobreviver sozinho, e é mais ou menos desse jeito que se manterá até os dois ou três anos de idade. É um dos maiores períodos de vulnerabilidade extrema do reino animal. O amadurecimento neuronal pleno, que, grosso modo, garante total capacidade cognitiva, só chega para nós em torno dos nossos vinte anos de idade!

Ter consciência desse fato cientificamente comprovado nos conduz a uma conclusão lógica necessária: o cuidado (o amparo, a guarda, a alimentação, o remédio…) que nos ofertam é, em sentido estrito e literal, fator condicionante da nossa sobrevivência física. Por extensão, pode-se aventar que a ampliação deliberada desse cuidado (traduzida na garantia de boa moradia, boa alimentação, pronto atendimento médico, educação formal de qualidade, balizamento moral e ético, carinho e respeito manifestos) seja determinante para o desenvolvimento afetivo, efetivamente humano, de qualquer pessoa. Ao ponto mesmo de a ausência desse tipo de cuidado também se configurar um tipo específico de sede: uma carência psicoemocional que, mesmo se não sinto, posso, com boa vontade, supor e estimar no Outro.

Em síntese, penso que o fator distintivo entre a Humanidade (faculdade daqueles cujas ações e reações são mediadas pela razão e pelo afeto) e a Animalidade (condição preponderante naqueles governados, sobretudo, pelo bruto instinto de autopreservação) seja precisamente a medida entre o cuidado que nos dedicaram/dedicam e o que fomos/somos capazes de dedicar aos Outros. Numa palavra: defendo que um dos componentes primordiais de nossa Humanidade é a empatia: “[…] – porque eu sou o outro. […]”, como diz Clarice.

Quem atira 13 vezes num ser vivo não tem empatia; tampouco a tem quem aplaude tal violência; e quem se beneficia dela ou finge não a ver pertence à categoria dos “sonsos essenciais”, na qual Clarice duramente inclui a si mesma para depois a rechaçar. São eles, os sonsos essenciais, os apáticos que cegam os olhos para toda a falta de que Mineirinho é produto e nele grita na única linguagem que lhe é franqueada: a brutalidade, a violência. Aí os sonsos essenciais se espantam e fingem que é dor a dor que de fato não sentem.

Contudo, a resposta a essa mensagem de indiferença nem tão cifrada vem na mesma clave, mas muitos tons mais alta: treze tiros disparados pelo Estado, endossados pela imprensa, aplaudidos pela “gente de bem” que nos anos 60 decerto  já entoava alguma protoforma do bordão “bandido bom é bandido morto”. Afinal, a existência, em si mesma, tanto de Mineirinhos quanto de “gente de bem” é, sim, sobretudo, uma questão de linguagem. Clarice denunciou isso na ocasião do crime e, anos mais tarde, no romance Cidade de Deus, Paulo Lins foi cirúrgico na lapidação do postulado: “Falha a fala. Fala a bala”. Hoje, sem dúvida, podemos acrescentar: falha a fala, falam as fake news, o terraplanismo, o anticientificismo, a escravidão, a necropolítica…

Esse intrincado novelo dialético suscitado pelo texto clariceano foi indiciado por Rosenbaum (2010): “Por situar-se, portanto, nessa dupla face – psicológica/existencial e ético/política -, ‘Mineirinho’ demanda um olhar abrangente, capaz de acompanhar sua múltipla significação”. O “olhar abrangente” necessário para se compreender tanto a “dupla face” de Mineirinho quanto as múltiplas facetas do macabro cotidiano que re-vivemos hoje (triste farsa…) só se construirá exatamente no campo e com as ferramentas da linguagem, como antídoto a “tudo isso que tá aí”. 

Essa construção é urgente e inescapável: estamos morrendo. Literalmente. Muitos de nós sem nem se darem conta. É preciso lutar para mudar isso. Por empatia e justiça. Ou “Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu”.

Não. Basta! I can´t breath! Je suis Mineirinho! Também eu!

O encontro

Clarice comenta a morte de Mineirinho a partir de uma perspectiva lírica que provoca nossa empatia, ao mesmo tempo que nos convoca à busca por um novo modelo de justiça: “Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização”. É, portanto, um forte apelo ético, social e político, que contraria de certa forma a autodeclarada inabilidade da autora para tratar desses temas.

Não acredito, contudo, num caráter epifânico no texto. Aliás, eu não sou pessoalmente afeito à crença em epifanias, menos ainda nas ordinárias, fortuitas, cotidianas – a despeito de saber que algumas dessas grandes-pequenas revelações apareçam aqui e ali, liricamente, na ficção clariceana. Na vida prática, corriqueira, concreta e meio acinzentada de todo dia, costumo acreditar antes na eficácia da reflexão metódica e lastreada na observação atenta dos fenômenos, sejam eles naturais, artificiais, sociais, políticos… quaisquer. Me acostumei a me mover no mundo mais com a razão do que com a emoção (sem ver muita vantagem nisso, admito). Mas ouso supor que talvez – apenas talvez! – Clarice também tirasse justamente desse exercício de reflexão metódica e observação atenta da realidade muito do lirismo impactante de seus textos. 

É que tanto faz se na Idade da Pedra, Média, em meados do século passado ou hoje: o cotidiano cronicamente exige da gente “Tórax de super[wo]man e coração de poeta” – sábios Chico Buarque e Edu Lobo! Por isso mesmo a Humanidade (acima de tudo empática) que podemos e precisamos desenvolver depende sempre e cada vez mais da assunção e do compartilhamento deliberado da consciência de que cada um de nós traz bela e fera dentro de si. Clarice sabia que eles também estavam em Mineirinho. Nele assim como nela própria, Clarice. E em cada um de nós. Sempre.

NOTAS:

-1 Disponível em <https://www.geledes.org.br/mineirinho-por-clarice-lispector/amp/>. Acesso em 15AGO2020.

2 Disponível em <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142010000200011>. Acesso em 15AGO2020.


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(www.deeficiencia.com.br) E-mail: prof.lcnascimento@gmail.com



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