Editorial – Black Friday (vidas a R$9,99)


Exatamente três semanas atrás, eu estava com alguns sintomas da Covid-19 – desesperado, com medo, mas também com uma certa possibilidade de apenas uma garganta inflamada nessa mudança de tempo drástica na cidade.

A suspeita foi confirmada em consulta médica: não era covid!

Então fui comprar os medicamentos para me cuidar; era início da flexibilização do “isolamento” e, à caminho da farmácia no centro da cidade, eu tive pânico: a rua estava cheia como em uma semana de Natal!?

Eu fiquei com medo de olhar as pessoas, encostar. Eu queria correr para casa, mas precisava me cuidar; fui, com mais medo do que uma criança andando em uma escada escura após ver um filme de terror.

Fazia tempo que não me sentia assim, mas logo o sentimento mudou: eu tive raiva, ódio; pois avistei panfletos de propaganda eleitoral.

O Brasil faliu. Nossas vidas são dívidas compradas pelos novos credores em ano eleitoral.

Não estou fazendo drama, mas percebi que nem tudo mudou no mundo em pandemia. O oportunismo dos candidatos a vereador e à prefeitura segue um rumo absurdo, sem compaixão com as pessoas – apenas com o dinheiro/poder.

Em minhas redes sociais, começaram a aparecer posts patrocinados com o que foi feito; e convenhamos, é bizarro ver alguém se gabar de tornar academias e igrejas um serviço essencial durante a pandemia.

É um absurdo embasar uma candidatura nisso; mas não tão absurdo se levarmos em conta que isso é fruto da normalização da morte.

A construção social tem filmes e jogos explorando a morte, as guerras, o caos global, e isso causa uma certa normalização da morte, da perda de uma vida.

Uma notícia de bala perdida não nos choca por mais de uma ou duas semanas (quando muito); uma denúncia de agressão pela força policial não nos causa revolta por mais que alguns dias; afinal, poucos dias depois, virão outras denúncias.

Os jornais e programas investigativos nos mostram crimes hediondos, mas parece que por sabermos se passar na tela mágica, nada é real. Só que no jornal das 8, isso é real: uma criança foi abusada e engravidou; uma vereadora foi assassinada; uma mãe e seus filhos foram agredidos pelo pai.

“Contar uma mentira tantas vezes não a torna uma verdade”. Será?!

Contar tragédias por balas perdidas, então, torna isso natural?

O problema é que nos chocamos com o que é extraordinário, mas o incomum não sustenta a vida; o comum sim, este serve como base para toda a trajetória da humanidade.

Então porque parece que mais de 100 mil mortos não constrangem um vereador a lamentar isso em seu POST publicitário?

A pandemia nos dá uma chance de ver a pólis no ápice de sua destruição e domínio sobre o indivíduo. Contemplamos olhares frios diante da barbárie do descaso governamental.

Mas pior do que isso, ela nos mostrou que nós também somos culpados da indiferença, de um envolvimento raso.

A culpa ainda é desigual, mas parece que nossos governantes nos ensinaram bem, e hoje nos permitem “andar com as próprias pernas” na perpetuação de um discurso de ódio, frio, e que se preocupa com arrecadações ao invés de cuidar de vidas.

Hoje morrem 6. Daqui a nove meses, temos no mínimo 12 novos indivíduos a futuramente abastecer a força de trabalho necessário para que a exploração continue.

Entramos na Black Friday das vidas?

Kariston França é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.



Galeria: artistas pra seguir na quarentena

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta