[Arredores] Engenharia de Música: com Bernardo Merhy

Todo mundo ama ouvir música, essa arte tão performática e tocante. E você já pensou sobre toda a engenharia por trás de cada faixa que você escuta?

Dos mais lendários até os mais iniciantes: todo músico precisa de um engenheiro de som confiável para chegar ao resultado perfeito. E se esse profissional tiver a sensibilidade necessária, consegue transformar tudo em música – até os sons incidentais mais esquisitos.

Sobre isso e outras coisas, o Kariston França, colaborador da Trama, trocou uma ideia com o Bernardo Merhy, que é músico, engenheiro de som e dono do estúdio LaDoBê, já tendo produzido faixas de diversos artistas de JF e região. Rola pra baixo pra conferir!

Bernardo Merhy, músico e idealizador do estúdio LaDoBê

Trama: Bernardo, nos conte um pouco sobre como foi seu início com a música, de onde veio o gosto por trabalhar com música e um breve resumo da sua caminhada.

Bernardo: Minha relação com a música vem da infância; meus pais sempre ouviram muita música, meu pai tocava, até chegou a gravar dois discos, e eu fui vendo isso de perto e gostando cada vez mais. Mas eu só fui começar a tocar mesmo lá pelos meus 11 anos. Comecei estudando guitarra, depois resolvi aprender baixo, a bateria, tive algumas bandas, aquela história…

Há alguns anos, meu pai veio com a ideia de fazer um estúdio e, a partir daí, eu comecei a me aventurar mais por essa área da engenharia de áudio e um pouco da produção musical também. Hoje eu tô mais focado nessa parte técnica, mas a música como um todo me contempla, e eu não consigo mais viver sem ela.

T: Sobre projetos, você já pensou em montar uma banda só com donos de estúdios aqui de JF?

B: Rapaz, nunca tinha pesado nisso não, mas é uma ideia interessante! Difícil seria conciliar a agenda desse pessoal…

T: Tanto na música quanto nos filmes, o engenheiro de som é peça fundamental e pode garantir até as principais premiações para filmes, atores, bandas e artistas, no entanto, quando converso com outras bandas, nem todas entendem a importância de um engenheiro de som durante o processo de gravação para a mixagem, nos conte um pouco sobre isso.

B: Hoje em dia, com toda a facilidade de se gravar em casa, é comum se questionar a necessidade de um engenheiro de áudio ou até mesmo de um estúdio. Eu compreendo isso, até porque eu comecei como alguém que queria gravar coisas em casa. Mas, até pra se gravar em casa, é importante ter conhecimento. Não é porque eu posso comprar uma interface de 8 canais e um monte de microfones que eu vou saber o que fazer com aquilo.

O engenheiro tá ali pra interpretar aquela situação e ver qual é a melhor forma fazer aquela gravação acontecer, e isso vem com estudo e vivência; quanto mais você trabalha nisso, mais possibilidades e soluções você vai encontrar dentro de um mesmo cenário. Além disso, você ter uma pessoa encarregada de cuidar dessa parte técnica te deixa livre pra focar na parte musical, artística. Eu já estive dos dois lados da coisa e sei como é ruim você ter que se concentrar na sua performance ao mesmo tempo que se preocupa se o microfone tá posicionado direito, se o ganho não tá baixo, se o sinal tá clipando, etc.

T: Um engenheiro de som precisa de faculdade? Qual curso você orienta pra quem quer seguir nessa área específica?

B: Essa é uma questão um pouco polêmica, até pra mim; já me perguntei isso algumas vezes.

Certamente há quem diga que sim, precisa de uma faculdade pra se dizer engenheiro de áudio; mas, na prática, sua vivência acaba sendo muito mais importante que um diploma. Ainda mais se você considerar que no Brasil existem pouquíssimas instituições que oferecem uma graduação nessa área. Tem até uma galera que vai buscar isso no exterior – muito se fala na Berklee, por exemplo -, mas é uma coisa pouco acessível e fora da realidade de boa parte da nossa população.

Acredito que o melhor caminho pra quem quer seguir nessa área seria buscar bons cursos livres, com profissionais renomados, ou através de alguma plataforma virtual de ensino. E pra quem não tem condições de adquirir esse tipo de conteúdo, o YouTube pode ser uma ótima ferramenta; mas é importante filtrar bem, dar preferência pra material produzido por gente com algum renome e fugir de fórmulas milagrosas, como em quase tudo na vida, né.

Além disso, outra ótima maneira de aprender é acompanhando o trabalho de um bom profissional. Essa já é uma oportunidade mais rara, mas se ela aparecer, vale super a pena aproveitar.

T:  Existe alguma semelhança entre engenheiro de som e um engenheiro acústico?

B: Não me sinto apto a falar muito sobre a área de engenharia acústica, mas, de forma bem simplista, o engenheiro acústico trabalha com projetos para tornar um espaço acusticamente adequado, seja ele um teatro, um estúdio ou até um escritório, um apartamento; já o engenheiro de áudio está mais focado em como converter uma performance real num registro da melhor maneira possível. Para isso, é importante que ele conheça conceitos de acústica, mas certamente com menos profundidade que um engenheiro acústico.

Acho que consigo ilustrar isso quando digo que precisei contratar um engenheiro acústico para projetar a construção do meu estúdio.

T: O engenheiro de som faz a mágica das gravações acontecer explorando espaços, ecos, instrumentos e materiais inusitados para a construção da música? É a cereja no bolo?

B: A meu ver, num primeiro momento, a função do engenheiro é registrar aquilo que está sendo tocado da melhor forma possível. A partir daí, ele pode adicionar alguns toques pessoais, mas sem tirar o foco do que realmente importa: a performance do artista. É uma linha bem tênue entre imprimir sua marca nos seus trabalhos, sem aparecer mais do que se deve. Como diria Tom Capone: “Quem tem que aparecer é o artista”.

T: Já teve alguma experiência gravando com equipamentos e instrumentos inusitados?

B: Algumas! Um dos meus grandes parceiros de trabalho, Nathan Itaborahy, é mestre em propor coisas inusitadas. No ano passado trabalhei com ele em dois projetos que me proporcionaram experiências curiosas. Numa delas, uma trilha sonora para o Grupo Nun, gravamos coisas como descarga, garrafa de vidro quebrando, persiana fechando, isqueiro acendendo e mais uma infinidade de coisas improváveis. Já no CD dele, Sentado no Céu, gravamos uma espécie de mini botijão de gás que, acredite se quiser, estava afinado no tom da música, além de som de garfo batendo no prato etc.

Acho que o mais legal disso é que você tem que se virar pra aprender como registrar aquilo; não tem no YouTube um tutorial de como gravar uma descarga ou um garfo batendo num prato, isso não tá nos livros de engenheira de áudio, é isso que mantem o frescor da coisa.

Também já apareceu gente com um microfone feito de carvão lá no estúdio, mas essa experiência acabou não dando tão certo, rs.

T: Eu descobri que toda a gravação do álbum Clube da Esquina de Milton Nascimento e Lô Borges foi realizado com um ou dois canais; a beleza do álbum hoje é fruto de sorte ou de um bom trabalho do engenheiro de som?

B: Sorte, jamais! Acho que a beleza do álbum vem da beleza das composições.

Pra mim, não existe engenharia que resolva uma música que já nasce ruim. Por outro lado, uma canção bonita sobrevive a qualquer limitação técnica. Hoje é muito fácil olhar pra trás e se espantar com questões como o número de canais, mas essa era a realidade da época, principalmente fora do circuito de grandes estúdios. Se você voltar um pouco mais, na década anterior, os Beatles já faziam malabarismos pra gravar em quatro canais e isso gera alguns resultados que hoje causam certo estranhamento, mas que não mudam em nada a grandeza daquelas canções.

Eu não sei exatamente como foi o processo desse disco especificamente, mas de certo que o papel do engenheiro foi “apenas” eternizar a magia que estava acontecendo ali, naquele momento; o número de canais era apenas um detalhe.

T: Tem algum álbum que você nos indica para percebermos mais o trabalho do engenheiro de som no aproveitamento dos espaços e materiais? Conhece histórias de artistas assim?

B: A primeira coisa que me vem à cabeça é a história da bateria de When the Levee Breaks do Led Zeppelin. Em resumo, eles estavam gravando o Led IV numa mansão que havia sido convertida num estúdio, e a bateria do John Bonham tava numa espécie de corredor, embaixo de uma escada.

Não se sabe muito bem como surgiu a ideia, mas o Jimmy Page, que era o produtor do álbum, e o Andy Johns, que era o engenheiro, ouviram o som da batera do alto dessa escadaria e piraram naquilo. Então, o Andy colocou dois microfones super simples lá em cima, processou um pouquinho esse som e essa é a batera que a gente ouve na gravação, ou pelo menos é o que reza a lenda. Tudo isso nos anos 70!

T: Como tem sido a experiência de trabalhar durante a pandemia? Como tem sido para conseguir gravar, mixar e acompanhar projetos?

B: A princípio foi um balde de água fria; estava começando o ano, cheio de projetos e expectativas, e tive que suspender tudo. Aproveitei pra terminar alguns projetos que já estavam na fase de mixagem e só.

Como eu gosto de trabalhar com o coletivo, com a troca de energia e isso acaba gerando um fluxo maior de pessoas, acabou ficando impraticável, até pelo estúdio ser um ambiente fechado. Resolvi aproveitar esse momento pra colocar a casa em ordem, resolver algumas questões que já estavam pendentes há algum tempo e que sempre ficavam pra depois por causa dos trabalhos, e isso tem sido bastante positivo.

Mais recentemente retomei algumas gravações, seguindo uma série de recomendações. É claro que um pouco acaba se perdendo por causa disso, mas é a realidade que estamos vivendo e se adaptar é necessário. Além disso, comecei a planejar alguns projetos pra esse segundo semestre, até pra não ficar com a sensação de um ano perdido. Nesse período também rolaram os lançamentos de alguns projetos gravados lá no estúdio e isso ajudou a manter o ânimo.

T: Pode dar alguns conselhos para as novas bandas e artistas que querem gravar algo em casa ou não tem acesso ao engenheiro de som em suas localidades?

B: Como diria ET Bilu, busquem conhecimento! O que você sabe é muito mais importante que o que você tem.

Avalie os recursos que você tem pra fazer aquela a gravação, estude bastante e tente entender qual a melhor forma de chegar ao resultado que você almeja com as ferramentas que você tem. Se achar necessário, procure conversar com alguém da área. Pode me mandar um inbox que eu terei prazer em tentar ajudar.

T: Alguma recomendação final? Gostaria de indicar artistas que você gosta de ouvir e te acompanham nas playlists?

B: Ouça música, muita música, de todos os estilos, dos que você gosta e dos que você não gosta também. Ouça o que está sendo lançado, esteja atento às tendências, até pra fugir delas se for o que você deseja. Não sou muito bom nesse negócio de indicações e cada hora to ouvindo uma coisa diferente, então vou indicar só a playlist do LaDoBê onde dá pro pessoal conhecer um pouco do trabalho que a gente tem feito lá.

Ouça a playlist do LaDoBê no Spotify:


Sobre o entrevistador

Kariston França é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.


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Exemplar impresso da edição conceito da Trama, contendo os 10 textos mais lidos até sua diagramação. Autores selecionados: Ricardo Cristófaro, Dane de Jade, Enrique Coimbra, Gyovana Machado, Frederico Lopes, Caroline Stabenow, Gabriel Garcia, Marcus Cardoso, Kariston França, Paola Frizeiro, Luisa Biondo.

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