Tear

Fui chamada pro tear dos sonhos – ou sobre quando o capital e o patriarcado se infiltram pra te manter acorrentada.

Um tempo atrás, uma mulher muito querida foi convidada pra um “tear dos sonhos” e me chamou. Ela estava empolgada e fez o convite como quem descobre algo completo: finanças e afeto sob uma roupagem alternativa.

Ouvi as expectativas dela e recebi um áudio de uma mulher que estava prestes a “realizar o sonho” de fazer uma viagem internacional.

Como fiquei muito desconfiada, fiz aquela pesquisa básica no Google e pronto! Tudo que eu desconfiei tinha fundamento: era um golpe, havia jurisprudência confirmando crimes de estelionato e uma suspeita de extorsão. Enviei tudo pra ela, mas era tarde demais – o verniz das “telarinas” já tinha tampado os olhos e os ouvidos dela.

Passa o tempo e começam a pipocar notícias de inquéritos e processos correndo contra mulheres envolvidas nesse golpe de pirâmide econômica.

Novamente, recebo outro convite; mas diferente da primeira vez, em que neguei, dessa vez tive a curiosidade de ver como funciona a abordagem no Zoom das “chispas” – que é como chamam as mulheres que foram convidadas para se iniciarem nessa “mandala”.

O discurso parece copiado ou roteirizado: falam de sororidade, irmandade, se chamam de “manas”, falam contra o patriarcado, contra o capital, contra o sistema, de conexão, de sonhos e do fatídico “presente”.

[Nota de meio de texto: o presente aqui é um depósito de R$5.004,00 doado por cada uma das 8 mulheres que se iniciam no golpe]

Eu nunca dei um presente desse valor nem para os meus filhos – ao menos nunca assim, de uma bolada só. Vocês se imaginam fazendo isso a uma total desconhecida e acreditam que a queda do patriarcado e a falência do capitalismo vem desse gesto?

Meu intuito aqui com esse texto é alertar, especialmente, mulheres! Vocês estão em pleno gozo se suas faculdades mentais, mulheres, não se menosprezem!

O que o capital e o patriarcado querem de nós é EXATAMENTE isso: que nos reunamos em segredo, que usemos uma linguagem inacessível e que lidemos com dinheiro e com poder na base do misticismo, com um ar de meritocracia que é típico dos instrumentos capitalistas no slogan “esforce-se, e haverá recompensa”.

Nem preciso dizer o quanto é incompatível a meritocracia com irmandade e fraternidade. Essas mandalas, teares, rodas e afins são elementos de aprisionamento mental, afetivo e financeiro, além de crime. Nada místico e nada alternativo.

Entendam, mulheres: o capital e o patriarcado querem isso de nós!

Dinheiro e poder NUNCA foram questão de energia; sempre foram roubados na base da opressão, da péssima divisão das riquezas e na marginalização de populações!

Para romper com essa lógica, além de gastar tempo, gasta luta! Não gasta mandala que aprisiona mulheres, que se apropriam de gestos e termos ancestrais pra manterem outras mulheres sob a égide patriarcal!

Círculos de cura entre mulheres sempre existiram e sempre foram profícuos porque o gesto de união é poderoso. Não porque em 2016, um grupo de neoburguesas brancas resolveu se reunir em encontros, munidas de símbolos apropriados de civilizações antigas (dos quais elas não fazem a menor ideia do que significam e exatamente por isso escolhem fazer um uso escuso) que tem toques de ciência, que são a cereja do bolo no pacote das miscelâneas equivocadas que compõem a retórica mandaleira.

Adoram falar de física quântica e do código de Grabovoi* com a superficialidade de enausear qualquer estudioso descomprometido.

Mas não se enganem, não é descuido ou equívoco do tear. Isso acontece para te encantar e te alienar; uma cortina de fumaça onde a luz só existe no palavreado.

Conseguem perceber como isso é interessante à manutenção do status quo? Pobre segue pobre, burguês segue querendo virar elite (nem que seja mandalando), e a elite olha pra baixo e ri; ou, quando não ri, se infiltra nessas rodas e faz girar o dinheiro que a sustenta. Dinheiro este, egresso das camadas que estão na base da pirâmide social.

Vêem o quanto isso segue sob o estigma do outsider fake? É como ocorreu na eleição do verme miliciano: o mote de campanha era “contra a corrupção” e “contra tudo isso que tá aí, talkei?”. Muitos de nós já sabíamos no que daria, mas um tanto de pessoas achou que era legítimo pagar pra ver – assim como estão a fazer centenas de mulheres que entram nesses esquemas criminosos, imbuídas de boas expectativas ou de uma curiosidade ancorada em algum nível de inconsequência.

O grande problema é que essa fraude rende frutos a cerca de 12% de mulheres apenas, enquanto 88% vê seu dinheiro jorrar por “sonhos” egoístas que nunca almejam as reformas estruturais que poderiam garantir acesso e real poder a todas as mulheres.

É uma alienação que tem dolo em manter mulheres acreditando que a tal “Nova Era” emerge de desejos por passeios internacionais ou aquisição de equipamentos que nunca retornarão às investidoras e que, também por isso, jamais atingirão a tão falada “queda do patriarcado” ou à “falência do sistema econômico” – e menos ainda a concretização de uma nova proposta de circulação de renda.

A relação entre os 12% de “agraciadas” e 88% de mulheres que não se esforçaram o suficiente para receberem o “regalo” é irmã gêmea do dado que diz que 2.153 bilionários possuem uma riqueza maior que 60% da população global.

Não é coincidência, nunca foi acaso! A lógica onde poucos tem muito sempre conta com a existência de muitos que nada terão.

Nesse golpe, perdemos todas. Obviamente, perdem as que investem R$5.004,00; como perdem também as que recebem, pois o dinheiro que as contempla envolve mulheres que nunca verão seus sonhos concretizados.

Dito isso, abram seus olhos, abram os olhos das mulheres ao seu lado e NÃO CAIAM NESSE GOLPE!


*Grigori Grabovoi é um russo, condenado e preso por prometer ressuscitar crianças mortas num massacre terrorista e também promete curar câncer usando sequências de números.


Lorena Andrade é mãe, doula, feminista e parteira, necessariamente nessa ordem.


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