Os Escafandristas

“É preciso exclamar para que a realidade não canse”. A frase está no romance Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, e certamente é a minha preferida da lavra do escritor paulista – que no geral não me comove tanto. Lamento. A ideia de viver em estado de espanto, por outro lado, mobiliza até minhas células. A exclamação é como uma exigência existencial pra mim, e isso, em meio à presente necessidade de recolhimento, distanciamento social, quarentena etc, às vezes torna meus dias um tanto mais  complicados que de costume. Não raro a sensação é de sufocamento.

Noutro dia, experimentando um momento desses, de sufocamento, recorri à meditação para tentar diminuir a ansiedade. Me tranquei no quarto, fechei as cortinas, acendi um incenso, coloquei o celular no modo “não perturbe”, selecionei uma playlist específica para a finalidade no Spotify, deitei com a coluna bem reta, inspirei fundo e expirei lentamente… inspirei fundo de novo… expirei lentamente outra vez…

“Não se afobe não que nada é pra já”… “Não se afobe não que nada é pra já”… Evoé, Chico! Um pouco de reticência não vai me matar. “O amor não tem pressa / ele pode esperar em silêncio”… Mas minha natureza exclamativa não se rende tão facilmente.

O Rio já é uma cidade submersa… O Brasil também. A América Latina… E os Estados Unidos! “Cidadão não;  engenheiro civil, melhor que você!”; “Acabou, porra!”; “I can’t breath! I can´t breath”! Os escafandristas abrem a porta do meu quarto e arrombam minhas janelas. Estão no meu quarto, astronautas aquáticos no ar, soltando bolhas de água azul brilhantes no escuro e que se acumulam no teto. O cômodo vai virando uma piscina de ponta-cabeça. Eu assistindo a tudo, imobilizado. Quero gritar, chamar a atenção para o fato de estar vivo, mas minha postura monástica não permite; eu posso respirar e justamente por isso não me movo. 

Os exploradores se aproximam de mim com curiosidade e cautela. Nem a penumbra do espaço nem a opacidade dos vidros dos capacetes me impedem de imaginar a expressão de espanto em seus rostos encapsulados. É nítido o que lhes passa pela cabeça: que estranha múmia é essa? como esse corpo resiste a tantos anos de adversidade? quem é esse homem placidamente deitado, como dormindo na solidão de um quarto simples, mas confortável, enquanto seus iguais morrem ao relento, doentes, loucos, presos, assassinados ou convertidos em zumbis cegos e pegajosos?

Minha cândida expressão facial com certeza não reflete a angústia crescente dentro de mim. Os mergulhadores, depois de algum tempo examinando atentamente meu rosto com suas lanternas potentes coladas à minha pele, passam a investigar cada centímetro de meu corpo inerte sobre a cama, depois as paredes, o armário, minhas coisas… Eles não me tocam, e eu ainda posso ler seus pensamentos de arqueólogos intrigados com cada novo achado. Me surpreendo um pouco com algumas observações deles: por que tantos cachecóis, numa região sabidamente quente? Tantos livros, quadros e pequenas esculturas, e quase nenhum porta-retratos; esse deve ser um homem só.

Eles pensam nessas coisas quando um deles vê o celular ao meu lado na cama. A tela está quebrada, mas ainda registra o dia e a hora em que aparentemente tudo parou: 20 de julho, 10:30h. O homem pisou pela primeira vez na Lua em um 20 de julho, pensamos juntos, eu e meus estranhos visitantes. “Um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade”, lembramos mudos. Já fomos capazes de viajar ao  espaço, mas ainda não aprendemos a mergulhar a fundo em nós mesmos. Pelo menos não em segurança.

Súbito algo úmido me roça a cara. Penso que as bolhas de água azul brilhante presas ao  teto estão finalmente rebentando e que o afogamento literal é iminente. Com enorme esforço começo a mover meu corpo e o movimento chama a atenção dos escafandristas, que voltam a se aproximar mais de mim e dirigem suas lanternas de novo para o meu rosto. A luz e a umidade aumentam, meu esforço também; um dos mergulhadores tenta me olhar mais de perto e toca meu nariz com o vidro gelado do visor de seu capacete. Consigo enfim abrir os olhos e só então reconheço a pessoa por trás do vidro, me olhando nos olhos: eu mesmo. “AAahhhhh!!!!!!!”

Levanto num sobressalto e sem querer arremesso longe minha cadela, que cresceu habituada a às vezes dormir no meu peito. Ela se encolhe num canto do quarto e de lá me olha como a um estranho. Respiro fundo buscando recuperar a calma e a confiança dela, que resiste, parecendo mesmo não me reconhecer. Sorrio e ensaio seguir em frente.

Só que, ainda sentado na beira da cama, entre o espelho do guarda-roupas à minha frente e o espelho da cabeceira atrás de mim, percebo minha imagem se refletindo incontáveis vezes. Centenas, milhares de olhos me olham e se espantam com o que veem…


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência (www.deeficiencia.com.br)


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