Dessas raridades que acontecem em pequenas livrarias

Na folga entre um trabalho e outro, sempre gostei de me dedicar à literatura, e isso não por algum tipo de conhecimento específico; acho que é só a sensação de que alguns autores são capazes de sintetizar exatamente o que sinto, mas não consigo colocar em palavra. Além do que, existe certa fuga arrogante: a de um homem de meia idade que se sente completamente perdido quando olha em volta e se dá conta de que há poucos assuntos em voga além das gafes do presidente ou de algum desastre ecológico previsto, mas ignorado. A literatura me investe poder.

Tentando fugir, resolvi conhecer uma pequena livraria que abriu as portas faz tempo no centro da cidade, na galeria Rio Branco. Me encantei com o lugar. Poucos livros, organizados, cheiro de coisa guardada e livreiros que sabem do que estão falando.

Naquele dia, cheguei no intervalo do almoço e fiz amizade com dono. O Paulo é um sujeito interessante, isso porque é novo. Baixinho, inteligente, uma fotografia de Rimbaud atrás do balcão, embaixo da escada caracol que leva à sobreloja. Bom conversador e ilustrador, me vendeu uma coleção de textos sobre o transcendentalismo americano em ótimo estado – mesmo se tratando de uma edição da década de 1940.

– O que você está procurando hoje? – Quando cheguei, foi assim que me recebeu.

– Na verdade, estou apenas distraindo os olhos. Imagino alguma coisa de história geral, talvez história da Inglaterra. Tenho me atraído pela política do Churchill. – E  estava mesmo; o sujeito foi incisivo até o limite para convencer a Inglaterra a se antecipar aos avanços nazistas, e conseguiu segurar o rojão.

– Não me lembro de nada específico, mas na parte de cima da loja ainda existem títulos sem cadastrar; se você quiser subir, pode ficar à vontade. Vou passar um café para nós enquanto procura.

Subi e cheguei a um símile da loja de baixo, apenas mais bagunçada e com uma grande mesa no centro – comprida e maciça, onde livros poderiam ser espalhados à vontade. Comecei a deflorar as estantes. Alguma coisa sobre Sartre, autoajuda, manuais de ensino médio, nada excitante. O Paulo, talvez para me inspirar, colocou um CD do Chico Buarque tocando lá embaixo. Ele ouvia Tua Cantiga, e no meio da música escutei uma voz diferente, daí pensei: “mais um cliente, tomara que não suba aqui.”

Barulhos na escada e duas pessoas apareceram.

– Essa aqui é a Maria, ela trabalha com artes e vai dividir um pouco o espaço contigo. Este livro de fotos aqui é desajeitado pra olhar na mão, vai ser melhor na mesa. – Paulo dizia isso enquanto segurava com as duas mãos um desses calhamaços de arte que são enormes e sem jeito – Qualquer coisa, vocês me chamem. 

Olhei-a de cima a baixo. Estava usando uma bota de canos altos desajeitada, vestido, cabelo selvagem, perfume forte que se podia sentir de longe e uma bolsa de lado. Eu não pretendia conversar, tanto que me virei de costas e sentei num banquinho baixo para fuçar nas prateleiras mais perto do chão.

– Você gosta de arte?

– É, gosto, mas não costumo gostar de livros de arte.

– Eu gosto, mas preciso de técnica, sabe, me indicaram conhecer um pouco mais sobre o tema, mas eu não sou muito fã de pinturas assim, prefiro desenhos de gente.

Eu não gostei dela nesse momento, mas seu olhar e a forma de falar, comendo letras em palavras num estilo brejeiro, eram hipnóticos. Me levantei e cheguei perto para descobrir se gostava do que estava olhando no livro. Não deu certo, tudo parecia poeira e mato, faltava gente ali, a moça estava certa. Minha respiração mudou um pouco, ficou curta. Ainda não parecia outra coisa senão o abafamento de uma sala cheia de livros com mais de cinquenta anos de idade e nenhuma janela.

Na hora em que me mostrava a imagem de um tipo de búfalo no meio de plantas baixas com uma tonalidade um pouco arroxeada ou lilás – agora eu não me lembro bem -, por descuido, ela apoiou a mão direita sobre as pontas dos meus dedos. Não acredito em almas gêmeas, em astros, em encontros astrais ou em qualquer dessas coisas que misturem um otimismo besta com a concretude das coisas que só são o que são, mas naquele momento foi como se eu a reconhecesse. Maria, por sua vez, me olhou de volta com os olhos assustados de quem é pego em flagrante.

Continuamos conversando, agora sobre literatura. Ela, e eu não sei porque, me contou que gostaria de viajar o mundo, conhecer pessoas, ser livre, mas não fazia porque morava com os pais e se sentia apegada a eles. Falamos sobre uma infinidade de coisas desde religião até poesia e, se me lembro bem, acabei agarrando por ali uma coletânea de textos de Drummond que dei de presente à mulher. Ficamos quanto tempo por lá, duas horas? Mais um pouco?

Maria grudou na minha retina. Primeiro, fiz questão encontrar defeitos. Pele marcada por espinhas, muito nova. Também merecia uma hidratação nos cabelos. As unhas das mãos não eram feitas, e a maneira como falava… Tudo se destacou até que eu tentasse apontar defeitos no rosto. Cigana oblíqua e dissimulada… meu deus, isso é brega demais.

Saí de casa para me distrair com livros e li uma mulher. A vida é pura ironia quando o assunto é o afeto. Ensinam para nós as belezas de Neruda para que tudo desande em Bukowski. Se quer saber, me apaixonei.

Trocamos telefones. Tudo bem, eu sei que não foi assim, mas eu sequer me lembro como foi, então, prefiro registrar dessa maneira. Nos despedimos e eu saí de volta pra casa. Era setembro.

Na rua, como de costume, observava as pessoas em sua rotina comum. Todo mundo está cansado daquele discurso enlatado do período das eleições. Para entender gente é preciso ser gente, e por isso eu sempre gostei mais das pessoas comuns. Passo muito tempo caminhando e reparando detalhes.

Quase chegando em casa, onde já não havia muita gente, o pensamento voou. Me lembrei que deveria desmarcar uma viagem agendada para o Rio de Janeiro em dezembro, repassei o problema da chave da porta dos fundos que está agarrando e continua gerando problema na hora de levar o lixo para fora. Revi a discussão com um colega que aconteceu na semana passada por um assunto idiota. Tudo normal, não fosse perceber que como pano de fundo eu estava rindo enquanto lembrava que Maria me respondeu “um cadiquinho” quando perguntei se tinha medo de morar longe. Quem usa cadiquinho? Pensava na moça, e não achei ruim.

Passei pela portaria. O seu Ademir me entregou algumas correspondências; entrei no elevador e subi. Um dos resultados do meu trabalho foi juntar algum dinheiro. Por bastante tempo, não tive outro foco que não fosse ficar dez, doze horas participando de reuniões. Comecei com algum idealismo, mas vi o que as pessoas costumam ver em algum momento: trabalho é dinheiro, só isso. Sem glamour, sem afetação. Sorriso no rosto à espera de grana. Quando voltei para Juiz de Fora estava bem, tanto que consegui morar por algum tempo numa cobertura.

Em casa, tirei os sapatos e os deixei do lado da cama; as roupas do dia foram para um cesto destinado à máquina de lavar e, em pouco, eu já estava pelado no quarto. Este gosto de andar sem roupa e sem pudor aprendi com uma mulher, quase um espelho de mim. Aproveitei para usar o banheiro antes do banho, e quando peguei o celular vi que Maria tinha enviado uma mensagem: você já leu alguma coisa do Osho?

Como eu já disse, não me considero místico. Gosto de filosofia oriental, mas com critério. Nunca embarquei nessa onda dos gurus cheios de verdades cósmicas e ao mesmo tempo tão interessados em presentes caros e uma vida de Fausto. Figuras como Osho, Blavatsky, João de Deus e esses coaches me embrulham o estômago de um jeito irreversível, mas há os interessantes também. Numa de minhas buscas, me deparei com Trungpa Rinpoche, um tibetano que veio para o ocidente fugindo da invasão chinesa e viveu nos Estados Unidos. Seus ensinamentos eram práticos. Quem era Osho perto dele? Respondi como se soubesse. Meu desejo era continuar a conversa da livraria, desejava tê-la por perto. O celular substitui a presença. Me tornei nomophóbico.

Saí do banho e fui ler. Nessa época, eu estava às voltas com uma biografia de Rasputin. Ele foi original. Pode ter mentido, manipulado e obtido vantagens junto aos Romanov, mas acreditava no que fazia, portanto, isso é diferente de ser mau caráter. Como invejei aquele homem. Estava sozinho em casa, mas não dormi bem. Esparramado na cama tinha a impressão de que alguma coisa faltava. Por que eu não tinha me casado? Existia um movimento acontecendo de modo subliminar na minha cabeça. Não pensava especificamente em Maria mais do que como um grande acaso prazeroso de uma terça-feira comum, o que já tinha acontecido dezenas de vezes; no entanto, naquela noite, me deitei meditando a respeito do futuro.

Nunca mais vi Maria. Imagino que tenha se mudado do Brasil, ou, pelo menos, da casa dos pais. Se encontrar técnica for produzir arte para aqueles livrões, espero que ela nunca consiga. Sei que em algum lugar ela ainda existe, e isso basta.

 Essa vida é curiosa… Tantas coisas, todas tão grandes… Bendita livraria aquela. O amor de mil vidas, no tempo de um horário de almoço.


Vinícius Lara é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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