[Arredores] Produção Musical em Casa: com Guilf

Toda banda ou artista solo precisa de um suporte nas suas gravações, uma mente que conduza o processo de composição e de gravação para chegar ao resultado sofisticado que temos em nossas mãos.

Gravar e produzir música, em qualquer escala, é uma tarefa difícil, e ainda mais concorrida em tempos nos quais a tecnologia nos proporciona gravações em casa; e o que pode ser um baque para a grande indústria fonográfica, vira uma oportunidade para os artistas locais e regionais.

Sobre isso e muitas outras coisas, o Kariston França, colaborador da Trama, trocou uma ideia com o Guilherme Flauzino (Guilf), que é baixista da banda Contratempo, professor de música e produtor musical. Rola pra baixo pra conferir!

Guilf, produtor musical e baixista da banda Contratempo

Trama: Como começou essa vontade de ter um estúdio e ser produtor? Você sonhava em fazer outra coisa?

Guilf: Sou músico desde 2010, e em meados de 2013/14 eu comecei a me aventurar por esse mundo de gravação – ate então, sem compromisso. Eis que um amigo meu, Pablo Abritta, me propôs gravarmos uma musica dele (já cantávamos algumas coisas juntos de bobeira na época). Eis que viemos até a minha casa e gravamos a música de forma bem informal: gravamos no celular e jogamos no computador para mixar/misturar tudo. Após finalizada a música, Pablo resolveu me pagar – de inicio não aceitei mas ele insistiu e foi meu primeiro pagamento de gravação, R$20,00 na época, me rendeu um bom combo de hambúrguer, batata e refri (risos). Depois disso, como já tinha uma pequena experiencia, comprei uma interface e um microfone e cheguei a gravar minhas bandas, ate que um primo de um dos meus bandmates resolveu que seu ministério de musica cristã iria ser produzido por mim. Aí sim, foi minha primeira produção oficial, um CD de 10 musicas. Sobre sonhar outra coisa, acho que sempre soube que trabalharia com música, mas demorei um bom tempo até bater esse martelo.

T: Entendendo os processos hoje, e as facilidades para montar um home estúdio, você acha que isso torna o mercado musical mais disputado? Como exemplo a premiação para Billie Eilish.

G: Sim e não, pois por mais que agora hajam mais profissionais da área, nunca falta trabalho pra ninguém. Se existem 10 produtores, pode ter certeza que existem umas 50 bandas/cantores para serem gravados, basta continuar buscando melhorar, tanto como profissional, quanto como ser humano (ninguém merece trabalhar com gente chata). Além do mais, sempre defendi que todo músico deve procurar ser versátil e tentar, ao menos, entender o básico de tudo, além de seu próprio instrumento. Especialmente agora na pandemia, saber se gravar se tornou algo essencial para que a banda não pare totalmente.

T: Você poderia comentar sobre o quanto a premiação internacional a um álbum em casa com recursos emulador afetam a indústria hoje? Abbey Road que te aguarde?!

G: Já vi produtores grandes e com longa estrada reclamarem dessa facilidade, ainda mais pelo fato de eu ser fruto dessa tal facilidade. Mas eu creio que as pessoas que buscam crescer, que divulgam bem seu trabalho e tratam os outros bem, elas vão sempre ter serviço. Por isso, não importa em que nível eu esteja, sempre vou buscar incentivar qualquer um que esteja começando. Como eu disse antes, não falta gente pra ser gravada!

T: Você é muito fã dos Beatles e do Queen. Tem alguma coisa deles que você gostaria de regravar com o seu olhar e incluir no álbum deles?

G: Não incluiria nada em seus álbuns pois já os amo, mas tenho um sonho pessoal de regravar Bohemian Rhapsody, minha musica favorita de todos os tempos, onde eu tocaria e cantaria tudo! Uma curiosidade: Foi o primeiro Rock que ouvi na minha vida, quando criança eu tinha uma fita cassete com o filme “Vida de Inseto’’ e logo após o filme, tinha um clipe desse clássico do Queen; eu assistia muitas vezes e viciei, acho que isso foi o universo mostrando que eu seria rockeiro (risos).

T: Dentro da cena da cidade, você tem alguns projetos. Conta pra gente sobre o seu primeiro projeto de gravação, que te fez perceber que você levava jeito pra coisa e aquele projeto do coração (sem ciúmes dos envolvidos).

G: Além da primeira produção oficial e não oficial que citei ai em cima, no meio desses dois acontecimentos, cheguei a gravar minha primeira banda, se chamava “All Break’’. A musica gravada se chama “Free For One Day’’, de minha autoria. Gravamos tudo em casa, com emuladores, e claro que o resultado não foi dos melhores; mas me deu um prazer descomunal ouvir aquilo e pronto, bater no peito e dizer ‘’EU QUE FIZ”. Por mais que eu tenha produzido muitos artistas incríveis – inclusive a Veraluz banda desse belíssimo entrevistador -, meu projeto do coração não poderia ser outro se não o EP Atemporal, de uma das minhas bandas atuais, Contratempo. O trabalho, que completou 2 anos de existência em junho agora, foi uma grande vitória na minha vida!

T: Como funciona o trabalho de gravação na sua casa, quais os desafios e as vantagens do home estúdio?

G: Hoje, meu único problema é o espaço. Infelizmente, pelo fato de eu morar em um apartamento e usar um quarto para trabalhar, isso acaba impossibilitando de que eu faça coisas como gravar duas ou três pessoas juntas, ou mesmo, uma bateria completa.

T: Diante da pandemia, muito se questiona sobre a ausência do contato com certos equipamentos e timbres – que não ficam bem emulados no computador. Você concorda com isso? Como vê os desafios de uma gravação à distância?

G: Particularmente, eu sou muito a favor das emulações. Por mais que não seja a mesma coisa que uma bateria real, ou um amplificador real, é possível se tirar um sonzão dali – vide muitos famosos que já fizeram musicas nível grammy só com emuladores!

T: Sobre a cena da produção musical aqui em JF: você tem contatos, fez colabs, tem encontrado boas parcerias?

G: Em JF, temos profissionais incríveis que, além disso, são pessoas excelentes, com quem sempre troco figurinhas sobre o assunto. Creio que, de alto nível em JF, posso citar o Mauricio Havila, do estúdio Sonidus – um cara que admiro demais, tanto pessoal quanto profissionalmente; além do Nando Costa, outro profissional sensacional que é daqui, mas hoje mora fora. Fora eles, dá pra falar de outros profissionais excelentes da cidade que já trabalham com isso há um tempo; os mais próximos a mim hoje são o Bernardo Merhy e o Guilherme Henrique, que eu considero como irmãos. Tem também quem está começando agora; inclusive, tenho incentivado muito um outro amigo, Jones Mendes, a começar nesse ramo – cheguei a ceder dois clientes meus para ele.

T: Juiz de Fora é um celeiro de bandas boas, e uma delas, com certeza, é a Contratempo. Como é estar na banda e também mixar tudo? Já pensaram em dividir a produção? Como foi esse processo da gravação de vocês?

G: Como eu disse, foi uma vitória pessoal e profissional termos feito o Atemporal, mas o processo foi um pouco desorganizado, muito por minha culpa. Acho que, por inexperiência na época, não soube coordenar bem – especialmente a parte da pré produção (etapa que antecede a gravação). Talvez não tivéssemos demorado quase 3 anos para a finalização do trabalho, caso eu fosse mais experiente. Mas tudo ocorreu do jeito que tinha que ser, e no próximo trabalho (estamos planejando um álbum), tenho certeza que estarei bem mais capacitado.

T: Recentemente você também lançou outro single seu, Beleza no Caos. Vem alguma composição nova por aí?

G: Pois é! Tenho algumas musicas próprias por ai, em meu Spotify, além da “Beleza…’’; também tenho uma outra: “Se Tem Amor’’, de 2016. Alguns amigos têm feito campanha para que eu lance um EP solo, e posso admitir que me convenceram. Já estou trabalhando nisso; porém, aos poucos.

T: Agora uma brincadeira: se você pudesse colocar um álbum que fosse a cara de JF, qual seria e porquê?

G: Pergunta extremamente difícil, mas vou citar aqui meu álbum favorito: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, de 1967 – creio eu que um dos álbuns mais importantes da história. Cito ele pelo fato de se parecer com um álbum conceitual onde temos o inicio e o fim de um espetáculo. Juiz de Fora, por ser um celeiro de ótimas bandas, tem um cotidiano musical que sempre será um grande espetáculo. E na capa, clássica e reinterpretada por muitos, seriam todos esses personagens que fazem parte da musica juizforana.

T: Como alguém pode começar um home estúdio hoje? Manda umas dicas de cursos e uns equipamentos básicos.

G: Muitos dos profissionais que citei acima dão seus cursos, seja presencial ou online; e recomendo a Universidade do Áudio, plataforma online que contém muitos assuntos referentes a todas as etapas da produção musical. Recomendo, também, ouvir muita musica diferente, e trabalhar para que se expurgue qualquer preconceito musical da sua vida. A começar pelo fato de que preconceito já não é algo bom em âmbito nenhum, e completo com um fato que venho experienciando desde que comecei: “Tudo ajuda em tudo’’. Já peguei referencias do sertanejo e usei em rock, e etc. Então, abra a sua mente o máximo que conseguir, te fará muito bem!

T: Quais as suas indicações de artistas e suas considerações finais para encerrarmos esse momento?

G: Não vou citar artistas específicos, mas valorizem os artistas da sua cidade; eles têm MUITO a oferecer! Deixo também uma frase sobre o momento atual:
“…por mais que seja bem dificil, talve seja importante aprendermos a ter paciência de contemplar um pouco de beleza nesse caos.”

Ouça o single mais recente do Guilf, produzido por ele mesmo: Beleza no Caos.


Kariston França é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.


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