[Coluna Arredores] Renata Dorea em Cuba – Entrevista

A segunda edição da coluna Arredores traz, para aquecer o coração dos amantes da arte nessa quarta feira fria, uma entrevista com uma das artistas plásticas contemporâneas mais notáveis de Juiz de Fora – que, não bastasse isso, também é cineasta e está prestes a ganhar o mundo através do seu intenso e resistente olhar cinematográfico.

Renata Dorea, ao lado de uma das suas Sereias da Mata.

Amplamente conhecida na cidade por trabalhos como a série de pinturas Sereias da Mata e o documentário Afrodites, Renata Dorea é Artivista Afro-Cabloca. Fluminense, ela fez do IAD – UFJF sua casa pelos últimos cinco dos seus 25 anos de sangue-sonho-e-Améfrica-Landina. Em seu currículo, um documentário de estréia premiado e participante em mais de dez mostras por todo o país; a co-fundação do Coletivo Descolônia; a participação ativa no projeto LabAFRIKAS e no Coletivo Cênico As Ruths; e, agora, a aprovação para estudar TV e Novas Mídias em uma das universidades de cinema mais conceituadas no mundo: a EICTV, em Cuba.

A aprovação, porém, não é suficiente. Por isso, a artista está com o financiamento coletivo “Dorea em Cuba” aberto, e precisa do seu apoio para poder continuar produzindo cinema preto de altíssima qualidade e gerando dignidade através dele.

Essa semana, a Carol Cadinelli, colaboradora da Trama, conversou com a Dorea sobre a sua produção cinematográfica, suas inspirações e suas expectativas para o futuro em Cuba. Rola pra baixo pra conferir!

Dorea nas gravações da Websérie Artemídia, para o Observatório da Qualidade do Audiovisual. Foto: Vinícius Guida.

Trama: Como foi o seu processo de descobrir o cinema enquanto arte? E como você se descobriu no cinema?

Renata: Eu nasci na Baixada Fluminense, cresci em São João de Meriti. Naquela época, assistíamos a muitos filmes e novelas em família, então o encantamento com a imagem e som surgiu bem cedo, principalmente com o potencial de aprender novas formas de vida e outros mundos. Durante o Ensino Médio, eu era apaixonada  por física, filosofia, história e literatura, aliado a um amor que eu tinha por Fotografia, eu fui descobrindo os sentidos do conhecimento interdisciplinar e como os conhecimentos se fundiam, se complementando. A partir disso e de algumas oficinas de Cinema que fiz durante minha adolescência, fui descobrindo uma vontade de contar histórias, e foi no Audiovisual que encontrei um modo mais amplo de comunicar com as pessoas. Meu primeiro filme foi um ponto de partida bem bonito, eu apontei a câmera para minha vida e partindo da transição capilar, me redescobri uma Cineasta Preta, além do potencial dessa ato de auto-eternizar uma memória que antes foi ocultada nos processos da da diáspora africana.

T: Você é mais conhecida aqui na cidade pelo seu trabalho com pintura. Como você percebe que a pintura se liga ao cinema? E como você percebe a influência do que você pinta no que você dirige, e vice versa?

R: Eu acredito que a Arte funciona como uma espécie de poesia disfarçada: no audiovisual, se propaga pela imagem e som; nas pinturas e ilustrações, por meio de tintas. Acho que o processo artístico tem muita beleza em suas construções, então eu percebo a interferência e também uma conexão transmidiática entre os aprendizados com as outras possibilidades de registrar os sentimentos, das questões coletivas ou individuais (que também se refletem). Além disso, quando se estuda sobre a vivência dos Artistas Negros, você pode perceber uma certa dificuldade de acessar alguns materiais ou meios de transformar as ideias em criações, em diferentes períodos da vida; então, a gambiarra é uma estética muito presente na Améfrica Landina (Conceito de Lélia Gonzalez). Por muito anos, eu não tive câmera, nem celular, então o papel e caneta me valeu para ecoar aqueles sentimentos engasgados. Nesse momento, após muito trabalho, consegui novos equipamentos. Desta forma, a Arte Preta é tão bonita, tão multidisciplinar pela capacidade desses artistas se adaptarem aos recursos, Bispo do Rosário costurava pinturas, enquanto Grada Kilomba escrevia diálogos em peças de Teatro, da mesma forma que Carolina de Jesus escrevia nos papéis que encontrava no lixo. Somos potentes em nossa capacidade de tirar o melhor em recursos limitados, mas agora você consegue imaginar essa criatividade munida com meios de execução?

Bastidores da websérie Reflexo Reverso, produzida pelo LabAFRIKAS, dirigida por Dorea.

T: Como você percebe que o cinema que você faz impacta na vivência da comunidade negra e indígena que te rodeia? E como você espera que ele impacte?

R: “O Cinema é o que existe entre mais avançado entre os povos da terra, o cinema é uma Arma e nós negros com toda certeza sabemos atirar”; essa frase é do mestre Zózimo Bulbul, importante Cineasta e Fundador do Centro AfroCarioca de Cinema, onde atualmente acontece um dos maiores festivais de Cinema Negro da América Latina. Eu acredito nessa importância de a câmera ser um reflexo daqueles que a operam, então essa arma serve como encantamento. Afinal, quando falamos de filmes, estamos falando sobre sonhos assistidos, que nos geram uma série de emoções e também trazem uma humanidade, porque a jornada dos personagens ou da história faz a gente se sentir um pouco naquela pele. Quando a película (que registrava as primeira fotografias) foi criada, ela não registrava corpos negros; isso significa que foi criada por pessoas que enxergam a importância de registrar apenas uma parte do mundo. Quando ocultamos a maioria nas telas, ocultamos as histórias presentes naquelas vidas, então eu percebo que quando uma pessoa utiliza dos meios audiovisuais para registrar sua cultura, sua vida, sua pele, sua gente, o trabalho final é gerar dignidade e também um orgulho de ser quem é, sem que os colonizadores ou herdeiros da colonização coloquem palavras na boca dos filhos do sol, do povo preto dessa terra, dos povos originários de Aby Ayala, dos povos originários de Kemet.

T: O que você espera alcançar com os seus estudos em Cuba? 

R: A EICTV é uma das melhores escolas de cinema do Mundo! Gabriel Garcia Marquez dava aulas, além disso já teve professores como o Coppola  (diretor da trilogia O Poderoso Chefão), sendo um espaço em que circulam nomes muito importantes no cinema mundial. Quando recebi a noticia que eu fui selecionada, eu chorei uma semana. Eu acredito ser a primeira pessoa do IAD que passou nessa prova. Além disso, eu fui a primeira da minha família a entrar numa universidade federal e agora também sou a primeira a passar numa prova internacional! .  A maioria dos alunos formados pela EICTV tem um grande respeito e também visibilidade. Sendo um processo seletivo tão rigoroso, com professores tão fantásticos, é de se esperar que os profissionais formados sejam tão excelentes quanto a escola. Só de ter passado na prova eu já recebi alguns convites, então eu acredito que essa formação seja uma abertura de caminhos em minha jornada no mundo e no Mercado do Cinema. E sobre escolher por TV e Novas Mídias, vem da minha relação e produção com o Cinema Negro, sendo as temáticas raciais um ponto importante na minha obra fílmica e artística, seguir para as novas mídias, a internet, é uma forma de impulsionar que essas histórias sejam compartilhadas pelo mundo.

Dorea no Graffitaço Absurdo, da CasAbsurda – JF. Foto: Isabela Campos

T: Como você acha que a vivência em Cuba, enquanto comunidade e sociedade estruturada de forma tão diferente da brasileira, pode fazer a diferença nos seus processos artísticos, tanto de pintura como de cinema?

R: A História de Cuba é muito relacionada com a Descolonização. Eu imagino que, no dia a dia, seja uma cultura bem diferente por questões políticas, apesar de algumas aproximações por conta da cultura Africana ser muito forte no Caribe. Eu quero conhecer esse país por sua taxa de mortalidade infantil, desigualdade social tão baixas, enquanto o nível de alfabetização é altíssimo. Além disso, um dos fundadores da Escola, Julio Garcia Espinosa, tem um manifesto sobre o Cinema Imperfeito, sendo um dos meus textos favoritos e tão relacionado com a produção atual de audiovisuais na internet brasileira; as histórias contadas pelas periferias, pelos jovens negros em celulares, independente da técnica e valorizando a criatividade, me lembra muito também do Cinema de Nollywood, na Nigéria. Além da possibilidade de sair do Brasil pela primeira vez e ter essa residência numa das melhores escolas de cinema do mundo, também pretendo estudar as ligações possíveis da Diáspora, principalmente as fantásticas manifestações religiosas e como os Orixás são celebrados em diferentes contextos na História do povo Preto. 

T: O que você gostaria que eu tivesse perguntado que eu não perguntei? E qual a resposta a essa pergunta que eu não fiz?

R: A pergunta é “Quais Artistas me Inspiram?” O nome dessas Artistas e Artesãs são:
Paula Duarte, Iuná luz, Giane Elisa, Denise Nascimento, Joyce Queiroga, Maria Luiza Evaristo, Sheila Gonçalves e Todas as Ruths!, Andressa Silva, Eliane Bettocchi, Karina Pereira, Karol Vieira (Mc Xuxu), Gogoia Assunção, Barbara Quintino, Iuli Melo, Francini Ramos, Lume Caetano, Naju Silvino, a primorosa documentarista Everlane Moraes, Yasmin Tháyna, Sabrina Fidalgo, Adélia Sampaio, Danddara, Zoel Zito Araújo, Zózimo Bulbul, Viviane Ferreira, Rosa Miranda, Leda Maria Martins, Sarita Gomez, Barbara Maria, Leticia Silva, Cristina Amaral, Glenda Nicácio, Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, ao Coletivo Descolonia, ao LAB AFRIKAS, a APAN, ao Grupo de Artes cênicas e políticas as Ruths! e tantas outras Artistas e Intelectuais Negras de Minas Gerais, do Brasil e Améfrica que me formaram como artista e como ser. 

Assista ao documentário “Afrodites”, de Renata Dorea:

Para apoiar o trabalho dessa artista sem precedentes, é só clicar neste link e escolher a sua recompensa.

No domingo tem mais Arredores!


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.


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