Narrativas políticas e arquétipos do cristianismo: uma reflexão – Editorial

Qual a distância que nos separa do que dizemos? Ou melhor: o que de fato precisamos fazer para alinhar nosso discurso à nossa ação?

Analisando a ascensão de correntes ideológicas que fundamentam os discursos da extrema direita no Brasil e no mundo,  vemos diuturnamente a elevação da Fé e da moral judaico-cristã capitalizada por interesses políticos. Ou pelo menos alguns elementos identitários destes grupos, melhor dizendo.

É claro que esse não é um fenômeno inédito na história da humanidade. Entretanto, ao buscarmos a compreensão da tradição cultural do cristianismo no contexto atual e sua constante necessidade de reinvenção e adaptação às transformações sociais, por exemplo, percebemos que o discurso capitalizado politicamente diverge do que seria a prática cristã segundo Cristo.  Podemos até arriscar afirmar que esse seja o ponto crucial da praxis Cristã na contemporaneidade: entender o papel e o impacto da fé cristã em um contexto em que se discute questões como o racismo, a LGBTfobia, o empoderamento das mulheres e contra o autoritarismo. Isso porque, ademais das orientações institucionais que fundamentam as bases teológicas das igrejas em suas infinitas denominações, não existe fórmula para coerência nesse sentido. Inclusive, tratando-se de ética e moralidade, não existe um caminho em linha reta, em uma perspectiva geral, que seja bem definido e que dê conta das mazelas das existências em sociedade. Aliás, nunca houve. Não podemos nos esquecer da contradição dos cristãos que atestam a legalidade das guerras, da dominação de territórios, do assassinato dos povos indígenas, da escravização de pessoas (sobretudo homens e mulheres negras), dos fascismos, do apartheid… enfim, acho que se houvesse algum tipo de manual de ética e moralidade alinhado às ações, alguém já o teria usado.

Tratando o aspecto cultural da tradição cristã inserida no contexto atual, precisamos, antes de mais nada, entender que faz parte do processo de cognição humana consolidar padrões de comportamento a partir de suas referências para construir opinião, ou tirar conclusões acerca de determinado assunto/experiência. Esse constante confronto entre a experiência diária da vida com vivências e conceitos já fixados é o que faz com que continuemos nosso incessante processo de aprendizado. Acontece que, muitas vezes, o assunto/experiência em questão jamais foi, em qualquer momento, objeto concreto de análise e/ou reflexão. Ainda assim, é bastante comum nos depararmos com indivíduos que se sentem extremamente capazes de discorrer opiniões e se posicionar sobre todo fato ou acontecimento que lhes chega à sua percepção. Aliás, é preciso ressaltar que, na era da internet, das mídias sociais e das fake-news, o que existe é uma necessidade desesperada de posicionar-se e emitir opiniões sobre assuntos que sequer fizeram ou fazem parte da vivência individual em algum momento da vida.

A parte boa dessa história é nos apercebermos completamente cercados pelo contraditório, pela experiência de ter que lidar com a complexidade das relações e dos infinitos modos de se entender a vida. Por esse motivo, a possibilidade de se perceber errado em relação a algo deveria ser o maior combustível para continuar a busca pela verdade na prática religiosa – neste caso, no cristianismo. A parte ruim é que o que vemos, em grande parte, são indivíduos destituídos de pensamento crítico, cujas reflexões se estendem, como alcance máximo, pela superfície de todas as coisas.

Em consequência disto, parece haver uma barreira intransponível ao redor dos elementos que compões a identidade cultural cristã média, que se caracteriza essencialmente por seus costumes, mas que se encontra, ao mesmo tempo, cercada de mistério e ausências. Estatisticamente, uma grande maioria zela por convicções e ideologias sem sequer conhecê-las em profundidade, ao mesmo tempo em que defende pontos de vista que se consolidaram na esfera dos costumes e que nada têm a ver especificamente com a jornada de desenvolvimento da espiritualidade cristã – aliás, muitas vezes vemos pessoas capazes de agir em direção contrária a ela, sempre acreditando estar coerente. Convicção que muito se assemelha à dos fariseus, diga-se de passagem. Em comparação com indivíduos realmente engajados em refletir acerca das nuances práticas do dia-a-dia cristão no mundo atual, é possível afirmar que alguns agem de maneira proposital, se valendo de elementos identitários que se consolidaram como tradição cultural no cristianismo para buscar a criação de uma imagem pessoal daquilo que contemplam como ideal (em termos de comportamento) sem jamais ter tido de fato a intenção de vir a ser. Ou seja, trabalhar na superfície da imagem social do que é ser cristão tradicionalmente, oferece os benefícios de se pertencer à esse grupo, sem o ônus de ter a preocupação de ser em profundidade. Ou seja, aparentar ser o que se propõe já é o suficiente neste caso. Parece um bom negócio se tratando de política, sobretudo em um país em que mais de 80% da população se autodeclara cristã.

Por outro lado, não podemos desconsiderar que há também quem se esforce para seguir o caminho de um cristianismo em Cristo e tropeça diariamente na conversão do discurso para ação. Neste ponto, infelizmente, precisamos entender a limitação de ser e estar no mundo. A incompletude do ser, que leva milhões de pessoas a procurar o refúgio espiritual no cristianismo, ao encontrar a ideia de Cristo em suas potencialidades, encontra também o imenso abismo que reside na impossibilidade de ser como Ele – uma vez que, segundo a própria teologia Cristã, é impossível para o ser humano ser bom, justo ou fiel, pois esta parte de si foi deixada nos limites do Jardim do Éden, após a transgressão do pecado original. Na Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo, em belíssima reflexão, coloca que: Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. (Romanos 7:18-19)

Posto isto, o que fazer? Se o que é dito não condiz com o que se faz. Se, ao tentar fazer o que se fala, o fracasso é o resultado esperado. Como obter paz nessa busca e alinhar as ações de forma eloquente ao que é dito/pensado?

Tomás de Kémpis, pensador cristão que viveu entre os anos de 1380 e 1471, no livro A Imitação de Cristo,  apresenta uma possível pista da trilha que pode levar ao caminho da coerência na prática religiosa, ademais de sua instrumentalização como discurso político e sua simplificação prática enquanto tradição cultural: Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu. 

Nesse sentido, há a aparente necessidade de entender que a Fé é, em si, uma questão de intencionalidade e que, em sua essência, é preciso regar toda e qualquer semente que torne cada ação verdadeira na esfera da intenção; e é importante não cristalizar qualquer prática que seja forjada meramente em convicções ideológicas, tampouco em tradições institucionais empilhadas em convenções de grupos que acreditam que seus costumes são, de fato, a realidade da fé Cristã. O que precisa ser entendido é que a eloquência de cada ação, consiste justamente no esvaziamento dessas convicções para que a prática cristã seja erigida na certeza de que Cristo é quem aponta o caminho, e que qualquer variável externa a isso deve se submeter à um código de ética em constante processo de adaptação – revisado, naturalmente, pelo exemplo de Cristo para a fé cristã.

Desse modo, supondo que a exegese diária da prática cristã impulsionar essa busca, as narrativas que flertam com a dominação pelo medo, adornadas por pautas de costumes que se valem de arquétipos culturais do cristianismo, podem começar a perder força, enquanto o indivíduo ganha autonomia em sua jornada espiritual e intelectual, podendo, finalmente, se tornar capaz de extrair coerência nas próprias ações dentro desse contexto. Sendo capaz de olhar pra si e para sua jornada espiritual identificando projetos de poder que distorcem a verdade de sua busca, além de compartilhar suas vivências artísticas e culturais dentro de um cenário complexo culturalmente e humanamente diversificado e plural.


Frederico Lopes é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco, Museu de Arte Murilo Mendes e é fundador da Bodoque Artes e ofícios e da Revista Trama.


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