Editorial – O Tempo, Amor e Pandemia, futuros incertos.

O mundo não é mais o mesmo. Faz muito tempo. Na verdade, desde a ascensão de partidos da extrema direita ao poder em algumas partes do mundo, a partir do início da segunda década deste milênio.

Mas o fato é que o mundo se transformou ainda mais quando, a partir de 2008, o planeta viveu sua grande crise financeira.

Ainda não sendo o bastante para essa temporada na terra, tivemos inúmeras crises políticas, que afetaram nações em pontos chave ao redor do mundo: troca de poder nos Estados Unidos (de Obama para Trump), a crise política na Ucrânia e a disputa pelo poder entre forças pró U.E e o eixo Russo (aliado ao partido fascista Ucraniano “Svoboda”), o trágico golpe político ocorrido no Brasil na saída da então Presidente Dilma Rousseff (saudade da melhor ex da minha vida rs). Essas mudanças e outras manifestações políticas ao redor do globo, ajudaram a moldar o cenário em que nos encontramos hoje. No entanto, elas são só a ponta do iceberg.

A real intenção hoje é questionar o quanto as mensagens instantâneas afetam nossas relações antes e durante a pandemia.

Como éramos antes a verificação de leitura?

Como vivemos após verificação?

Como estamos na pandemia com a urgência da comunicação para manutenção da sanidade?

Pra quem viveu o messenger chamando a atenção com indiretas no subnick, nada mais parece ser um problema, afinal a tela inteira do pc tremia e fazia um barulho chato.

Como nem tudo são flores na vida de um ser humano, as coisas só pioraram. O advento dos smartphones catapultou essa cobrança por uma satisfação “aqui e agora”, por “nem um minuto a mais”.

Ser visto como online traz consigo um peso de ter de falar e dar um parecer sobre tudo que é falado no grupo ou numa conversa privada, mas a questão é que o grupo possui mais de 300 mensagens para ler com 5 menções em assuntos diferentes.

Não tem TDAH ou Ritalina que suporte a demanda instantânea.

O poder da resposta e a acessibilidade ao próximo com um toque, nos fez esquecer que o virtual não é real, que o virtual simula o real, mas O REAL É INSUBSTITUÍVEL.

As interações via WhatsApp já proporcionaram uma crise nas relações, juntamente com o Facebook e os depoimentos do saudoso Orkut. As infinitas brigas por atenção, por um depoimento melhor do que de fulano com a ciclana…

O desempenho precisa ser diário.

Com as redes sociais, todos tivemos de aprender sobre performances, construímos personagens, e os mesmos têm invadido nossa realidade.

A realidade já não existe como antes, ela é digital, fria, impessoal, VIRTUAL.

A confirmação de leitura é a marca de como o virtual tem matado o real. Pergunte a qualquer conhecido seu, veja quem possui a opção marcada, e pergunte se já não levou uma bronca por não responder em tempo. A resposta, se confirmar a suspeita, deve vir acompanhada de como foi o sermão pela demora.

Se nosso tempo já é esgotado para o desempenho profissional, (que chega a nos roubar quase 12 horas diárias entre locomoção e trabalho, às vezes até mais), ainda temos de ter a produtividade que nos garantirá acesso aos rolês!

Se não somos presentes nos grupos e nas conversas privadas dentro das redes sociais, como vamos viver?!

Os episódios em Black Mirror não parecem mais tão distantes.

Diversas ferramentas e situações abordadas na série, se mostram mais reais do que o miojo que você faz em um dia de muita preguiça.

O episódio em que a jovem envia influência para as pessoas e recebe de volta, de acordo com a sua roupa e sua simpatia, nos mostra que a cobrança pelo desempenho nas relações está diariamente pesando sua mãos e causando tendinites futuras em dedos e pulsos.

A sensação é a de que as relações se tornam trabalho, e tiramos as férias dos mesmos quando nos “afastamos” para pensar na vida. Esse é o tipo de ideia que temos ao sair de férias do trabalho ou da faculdade, sair para divertir, espairecer.

Claro, isso era antes da pandemia…

“Micróbio do c#@$&^®”

No cenário de pandemia, temos visto uma construção ainda mais nociva à sanidade do indivíduo.

Óbvio que a utilização massiva das redes de deve ao isolamento total (infelizmente de uma parcela das pessoas apenas).

Com o isolamento, nossa casa se tornou nossa prisão, ficamos fechados, e a única janela por vezes aberta é a do smartphone.

O boom das lives já passou, elas são rotinas, agendas fixas, quase como a minha de tomar uma caipirinha na quinta antes do Covid-19.

Mas qual o elemento que tem mudado na quarentena?

Antes da quarentena, nos afastávamos das notícias por estarmos trabalhando ou estudando, e isso aliviava um pouco toda essa pressão das mídias, ou agravava a ansiedade em voltar com o mundo para as mãos.

O intuito aqui é trazer uma reflexão para cada um de nós sobre o que virá a seguir, afinal, não sabemos como um mundo de tecnologias instantâneas, alimentado por contatos físicos, se manterá após a pandemia.

Será que teremos filtros novos e simultâneos? A chamada de vídeo passará a ser feita por holograma, igual em Star Wars?

Como nos relacionaremos com a saudade do contato físico?

Surgirão novas regras sociais sobre o tempo de resposta entre uma mensagem ou outra?

Sinto que precisamos nos preparar para relacionamentos mais distantes, mas menos instantâneos.

Cartas e chamadas de voz.

Aplicativos que simulam tempo de entrega de uma carta…

O fato é que o exercício de nos afastarmos é um bem para o mundo, e me parece ser um bem à nós, a nossa sanidade.

Respeitar o tempo e desejo de interação do outro é fundamental e, dito isso, ressalto que a única regra social aceita é a de que: baixar um app de mensagens não te obriga a responder tudo.

Não respeitamos a liberdade e o tempo de cada um no celular e queremos lutar por pautas infinitamente mais densas.

Não o seremos capazes nunca, porque as redes sociais nos fizeram perder o tato para aprofundar nossos relacionamentos. Tudo o que queremos é a exposição plena e imediata.

O desempenho tem que ser orgânico.

A sensação de poder que as informações que estão na tela nos deu, nos fez podar conexões concretas, e o que penso é que não há fibra óptica que dure a eternidade, assim como pedras, memórias, telas a óleo.

A nossa finitude vai nos ajudar no futuro, porque, no final, o que temos é isso: nós mesmos em um quarto, uma casa. Isso parece assustador, e por vezes é, mas ainda assim, é extremamente necessário que não usemos do instantâneo para forçar desempenhos que matam e oxidam organismos inteiros, vidas, grupos, famílias.

Ligue por voz, mande uma carta no app, leia o seu livro, encontre prazer no tempo, na espera, no farfalhar das árvores.


Kariston França é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.


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