Guerra é paz

Na distopia 1984, de George Orwell, a ordem mundial se configura em três grandes blocos de países, cada bloco fechado em seu próprio território, sem intercâmbios culturais. Apesar de viverem regimes políticos muito parecidos, cada um difunde em seu imaginário social o desprezo, o medo e a repulsa pela cultura e pela filosofia política dos demais blocos.

A guerra entre eles é constante, mas as alianças são efêmeras. A cada hora o inimigo é um, e as fronteiras mudam muito pouco. E depois muda tudo de novo. E de novo, e de novo. A justificativa pra essa constante tensão externa é a necessidade de amortecer as tensões internas: “a guerra devora o excedente de bens e contribui para preservar a atmosfera mental que convém a uma sociedade hierárquica”. Em outras palavras, “a guerra se trava entre cada grupo dominante e seus próprios súditos, e o objetivo dela não é obter ou evitar conquistas de território, mas manter intata a estrutura social”.

No Brasil de hoje, os traços de regimes totalitários latejam cada vez com mais intensidade nas veias do corpo social. Apesar do esforço propagandístico de tentar jogar uma manta sobre a fumaça, o cheiro da crise política é cada vez mais forte. Em meio ao caos econômico e sanitário da pandemia de coronavírus, o governo federal atropela todas as normas dos órgãos de saúde, em nome da economia, e se desdobra para manipular os dados da relação de mortos e infectados. Ministros caem em questão de dias, semanas ou poucos meses, até que as pastas vão parar nas mãos de militares de alta patente. E assim como em 1984, “mesmo o aliado oficial do momento é sempre visto com profundas suspeitas”. A liberdade dos empregos informais é irmã gêmea da escravidão, e o povo brasileiro engole no almoço a ideia de que a ignorância é a mais nobre das forças. Algumas máscaras estão caindo, e outras nem ao menos foram colocadas. O Brasil é definitivamente um país provisório.

Notas:

 01- ORWELL, George. 1984; tradução de Alexandre Hubner e Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.235.

02- idem, p.236.

03-  idem, p.232.


Vitu Marcs deposita suas poucas esperanças na literatura, sobretudo aquela das ruas. Muitas pessoas estão perdidas, mas ainda há tempo (salve Criolo).”


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