28. Pedro e Nava

*Gatilho: Esse texto possui conteúdo sensível para pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade e depressão.


Nava. [De um idioma pré-romano.]
Planície cercada de montanhas.        
Dicionário Aurélio

Aquele seria um dia qualquer, vendo canal de clipes a tarde inteira. Mas não. Combinara com um colega da sala de irem ao Centro de Estudos Murilo Mendes ver a “Exposição Pedro Nava”. Isso era tarefa escolar. Teria que ir, olhar, prestar atenção, tomar notas e escrever um poema sobre o que presenciou. A professora havia liberado alguns alunos do poema, porém teriam outros exercícios de apreensão, como, por exemplo, um conto ou um texto jornalístico.

Pedro não. Ele achava ter pendores literários. Estava convicto de que faria um belo poema. Era um rapaz diferente dos outros. Tinha sensibilidade, o que poderíamos chamar de apuro para a angústia. Só não sabia como lidar com isso. Nem ele, nem dos seus, nem dos que viessem a conhecê-lo.

E lá foi o Pedro em busca do Nava, um seu igual célebre. Percorreu ruas, circundou casas e deu de cara com o Monstro de Três Bocas, a antiga Rua Direita, atual Avenida Barão do Rio Branco. Se alguém olhasse de perto, se tivesse percepção, perspicácia suficiente para aumentar e distorcer um pouco a disciplina ocular de sempre enxergar da mesma maneira a vida, os outros e as coisas, veria Pedro sorrir, um gesto lacônico do músculo, suficiente para sabermos da sua felicidade em viver. E seu pai segredava-lhe ao ouvido: “Tu tens futuro, garoto”. E ele sorria.

Enfim, o CEMM. Logo à entrada, na fachada do patrimônio tombado, um retrato de Pedro, de Pedro Nava. Não posso dizer ao certo o que Pedro sentiu, talvez uma rajada forte de vento vindo de dentro do Centro. Fora o suficiente para arrepiar-lhe os pelos do corpo, para suspender-lhe as espinhas e tirar-lhe o músculo febril que o fazia sorrir.

O seu colega não viria, o celular o informara disso. Teria que entrar e ver a vida literária do seu conterrâneo sozinho. Ele e o passado presente nas salas do CEMM. As fotos da Rua Direita e do Parque Halfeld. Os originais dos textos de Nava, os rabiscos, as correções: trabalhos infindáveis para a crítica genética. A nevralgia das palavras, a sátira e o deboche nas teclas da máquina e no vegetal em branco e preto. A árvore no internato com seu pênis iniciatório. Tudo aquilo envolvia Pedro em um clima diverso do que estava acostumado. Chegou a ensaiar alguns versos ali mesmo: “Seu nome é Pedro/ Sobre essa pedra/ edificará o memorialismo/ Marca de nascença Nava”. Mas logo lhe vinham outras ideias que começaram a triturá-lo por dentro. Uma opressão vinda não sei de onde e saída não sei do quê. A cada ranger de tábuas nas salas, a cada lufada de ventos vinda de duas grandes portas abertas para o ar, Pedro se sentia um pouco Nava, na fazenda, com sua Avó a quebrar dentes de pretas, sentado recostado em sua baixa cadeira do fantasma. De onde vêm e para onde vão, há tantos pensamentos errantes, tantas quadras de vida a percorrer pelos quartos, tanta névoa, tanta tosse e pigarro na claridade escorregadia dos candeeiros, tantos males dos outros a se curar, tantos males a não se curar de si próprio. As cortinas translúcidas das portas perpassadas, a varanda de frente com o Monstro de Três Bocas, a respiração ofegante de Pedro. Tantas ideias, Pedro. Tantos pensamentos.

– Você está bem?

O guarda, funcionário público, guardando o nosso patrimônio, também zela pelos humanos. Pedro só conseguiu um gesto mínimo, um sim perplexo diante da vida feliz de outrora.

E prosseguiu. Entre ranger de tábuas e lufada de ventos. Entre ideias e pensamentos. Objetos pessoais. Máquina de escrever, sua terceira mão. Caixa de fósforos, coleção de Proust, termômetro e estetoscópio. O médico memorialista que se torna ali o memorialista médico. Pedro se sente marcando o sofá da sala com sua solidão, tendo somente os livros e os discos como companhia. A agonia da sua marca no sofá, a quietude efervescente da alma. Tudo a entranhar em seus poros e injetado em suas veias. Cadê o futuro promissor prometido pelo pai? Mais manuscritos, cartas: Drummond, Presidente da República, Margarida Salomão. Novamente carta, rascunho, rascunho, original. Tanto depuro em uma carta pra quê? Não qualquer carta, nem missiva normal. Pedro embaça um pouco as vistas, não acredita. Tenta ler o que se encontra claro e bem legível. Há uma carta de suicídio a sua frente. Ele a lê, a relê, a treslê. Ideias e pensamentos, tábuas e lufada de ventos. Tontura, a parede como sustentação. “Contratem mercenários se ninguém quiser carregar meu caixão.” As vistas escurecidas, há névoa nos olhos, há escadas, o ranger das tábuas. “Se eu não tiver amigos, contratem mercenários.” A calçada para Pedro, a Avenida, o Monstro gigante de Três Bocas se alimentando de ar carbônico. “Se eu não os tiver, contratem!” Anos depois, um bom tempo após a carta fatal, a morte. O tiro de misericórdia. “Contratem mercenários!” Pedro errava pelo caminho. A tarde agonizava manchando de sangue o horizonte, e a noite já vinha, fria, varrendo os restolhos dela.

Uma voz sussurrava ao seu ouvido: “Lembra que és pó e ao pó tu voltarás”. Essa frase lhe ficou ecoando, cada vez mais forte, mais profusa e viril. Seu pai, suas lembranças. Pó, o mesmo que tu pões pra fora da tua casa ao esfregares com asco a sola do teu sapato no tapete posto na entrada do teu lar. Aquele ao qual a faxineira espana para longe dos teus pertences. Pó, tu és pó. Matéria das mais desnecessárias. Somente um tiro, somente uma vontade e o poder de se ver pó. É claro que isso o incomodou. Ficou pensando em tantas poeiras de nossas vidas, as doenças surgindo de sua presença. A vinda de parasitas ao seu encontro, se alimentando do seu ser tão pó, tão só na presença do mundo, no fundo da terra o trabalho do tempo, o sorriso incrédulo estampado nos ossos, o decomposto.

Um serzinho em seu interior gritava: “Por que me trouxeste ao mundo, então? Já que sou pó, deixaste-me esquecido nos arquivos do além, nas fendas do teu escroto! Por que vieste me dizer isso, por que me cuspiste na cara a clareza da vida? Deixa a mim a escolha alienada da vida feliz, sorrisos e bem quereres. Por quê?” Pó. Aquele mesmo que cobre o último instante material, palpável, de tuas carnes. “Contrate-os!” Ideias, lufada de ventos de carros. O Monstro de Três Bocas ataca. Bate carro, bate Pedro, para o chão, sangue, muito sangue e pó.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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