Fluxo

LADO A – CONSTELAÇÃO (A DOR)

Eu quase consigo contar todos os quadriculados da mesa. Passo meu dedo no seus
perímetros azuis, um por um. Acho que eu levaria um tempo para finalizar essa contagem de quadrados se o tempo do café não fosse tão curto, mas o silêncio ocupa minha mente. E a dela também. O que, confesso, ajuda a concentrar na minha contagem quase infinita de quadrados no café da manhã. Ela, como em todas as manhãs desde que descobriu minha sexualidade, só tem um tipo de ação: andar e silenciar. Não se dirige a mim como se fosse algo do qual valha a pena quebrar seu silêncio ou tentar entender o porquê de ele ocupar tantos espaços na sua mente.

Ela arruma seu mamão na mesa. Organiza as frutas. Pica elas de forma quase monótona,
sem dizer uma palavra. Não precisa dizer, já está subentendido. Eu continuo no meu processo infinito de contar quadrados na mesa do café, mas me canso. Quando sinto minhas lágrimas me acusando por tanto silêncio, me retraio. Mudo de posição e descubro uma nova ocupação mais confortável para meu cérebro processar as indiferenças que estou sendo obrigado a construir. Olho para o meu prato. O restante das migalhas pousava bem na minha frente como se dissesse: “me explora vai”. Juntei algumas delas e formei constelações que aprendi na escola um tempo atrás. O Cruzeiro do Sul estava incompleto: faltava uma estrela para dar continuidade à constelação. Arrumei da forma que minha mente recordava dos livros do ensino fundamental e passei a montar as três Marias, o que foi relativamente fácil; afinal, são apenas três pontinhos contínuos. Três pontinhos contínuos…

A chapa ainda estava ligada; parece que um dos meus pães havia sido esquecido lá,
em brasas. Não muito diferente de todas as pessoas que já se esqueceram de mim e me
deixaram queimar. Minha mente me atormenta, e não consigo vê-lo sofrer assim, não depois de atribuir características minhas para ele. Desligo a chapa e tiro o pão lá de dentro. Penso então em todas as vezes que me perdi em mim mesmo, e também em todas as vezes que me salvei, sozinho. Não preciso da ajuda de ninguém pra isso. Com algumas poucas exceções, claro. E ela? Ela continuava em sua infinita ocupação de silêncio, enquanto cortava mamões, dispunha mel em um pratinho e picava bananas para se deleitar com um ótimo café da manhã que só ela proporcionava a si mesma. O queijo ainda borbulhava na chapa quente, e pude ver todas as diferentes formas com que algo pode se transformar quando está sendo queimado. As formas eram variadas; iam do mais extenso ao mais ínfimo da dilatação. Mas mudava, estava em constante mudança. Comia o mamão, penso no queijo, comia a banana, penso nas migalhas, lambuzava-se de mel, enfio minha cara na chapa quente.

Descubro, enfim, o porquê dos três pontinhos contínuos…

LADO B – CACHINHOS (A DELÍCIA)

Acordei com um pequeno feixe de luz sobre o meu rosto, mas não abri os olhos.
Aparentemente, ainda era cedo, pois não se ouvia a turbulência da rua zunindo em meu
ouvido; apenas um canto de passarinhos quase ínfimo, próximo a janela, cheio de
vitalidade. A luz do sol naquele pequeno feixe em meu rosto me acordou em um dia que
não me costumo levantar cedo, mas foi bom. Sempre é bom começar um domingo com cheiro de lavanda no lençol e um barulho de mar a alguns quilômetros do meu apartamento. As ondas batem no rochedo e formam confrontos estrondosos, eu quase conseguia vê-las oscilando.

Lembro de ir à praia quando criança. Construía enormes palácios de areia, e jurava morar lá um dia com alguém que eu amasse. Até a onda vir e desmoronar cada grão de areia – o que não me impedia de tentar de novo. Construía um ainda maior, mesmo sabendo que não duraria. Acho que, no final das contas, eu cresci querendo construir sonhos maiores em cima de outros sonhos, já enormes em si mesmos.

Queria eu ter uma vida comum, onde todas as minhas relações fossem aceitas pela sociedade; mas estava longe disso. Era como se eu visse um castelo desmoronando todas as vezes que sentia medo ao dar as mãos para o meu namorado na rua. Não só por eles, mas por mim. Acho que cresci em uma família que não sabia que o afeto é algo que não se força. A gente sente na pele quando ama, pulsa. Eu sempre sonhei em ter o meu lar. Sempre disse que a partir de agora seria “minha casa, minhas regras”, e de fato é. Ouço um barulho próximo a mim, e finalmente abro os olhos. Ele está trazendo uma bandeja de café da manhã. Sento na cama e dou um beijo nele. Nos olhamos com felicidade, porque sabíamos que seria mais um dia para a gente se descobrir e se reinventar. A pele não esquece o toque.

Ele se senta ao meu lado, põe a bandeja na cama e começa a falar sobre como conseguiu acordar mais cedo que eu em um dia como aquele. Ele falava, e eu só conseguia estampar um sorriso na cara e encarar aqueles olhos castanhos mais profundos que o rochedo. Sempre almejei estar com alguém que beijasse meus defeitos e que gargalhasse minhas qualidades. Que passasse a mão em meus cabelos até eu dormir, e que se sentisse seguro quando eu o abraçasse. Lembro das vezes que respiramos juntos nas horas que o segurava pela cintura e o colocava na cama, selando nosso amor com um beijo quente após um banho de verão. Eu sempre sonhei em ter um lar, para poder nunca mais derrubar nenhum castelo de areia.

As ondas estão perto. Estamos sentados na beirada do lençol, olhando a vista da janela de mãos dadas. O mar é ofuscado pela beleza do seus cachinhos pretos e seu olhar doce, no nosso enfim, castelo de afetos.


Pablo Abritta é um homem gay cisgênero, das Artes Cênicas desde 2014. Quando pequeno, escrevia poemas e contos, mostrando seu amor pela escrita. Atualmente, se arrisca na dramaturgia para cenas teatrais e nos contos poéticos, no qual tem se dedicado na área de forma sútil e despretensiosa. Sempre buscou melhorar o mundo. Acredita que achou esse caminho nos pequenos grandes afetos que a arte proporciona.

Pedro Victor Soares é um homem gay cisgênero. Graduado em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2017) e com experiência no ramo audiovisual, trabalhando na área desde 2013. Produziu, dirigiu, roterizou e montou um documentário curta-metragem chamado “Vida de Estradeiro” como projeto de conclusão do curso da faculdade, rendendo diversos prêmios e indicações. Na fotografia, se arrisca nos autorretratos e fotografia de rua, já que a sua grande paixão é mostrar sua visão do mundo através da câmera.


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