Tolkien: convite para lutar a boa luta


I – Tolkien, filho de seu tempo

                                                                       “Que é que diz o farfal das folhas?”
Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”

                                                           “Descobri que minha arma é o que a memória guarda (…)”
Milton Nascimento e Fernando Brant – “Saudade dos Aviões da Pan-Air”

É comum usarmos irrefletidamente a expressão “aquela pessoa estava a frente de seu tempo”. Ora, ninguém pode estar a frente de seu próprio tempo, das condições materiais de seu tempo histórico. Toda obra, que não se separa da vida que a produz, recebe influências de sua época, das condições materiais dadas no tempo em que foi escrita. Tais influências existem ainda que o autor beba da própria história, ainda que o autor consiga pensar no mesmo nível dos mitos, como é o caso da vasta obra de J.R.R. Tolkien (1892-1973).

Como muitos jovens que habitaram o mesmo tempo que o dele, principalmente na Europa, Tolkien tomou parte na barbárie, olhou a escuridão de frente e voltou, transformado, profundamente marcado no corpo e, em simultâneo, na mente. Voltou, transformado como só como um soldado entrincheirado pode voltar, da terra da sombra, da visão da morte em escala industrial, filha da fé no progresso, na tecnologia, na busca por lucro. Mais próximo da verdade, então, seria dizer que a época em que cada ser humano vive marca-o indelevelmente e ele, sujeito histórico, também marca sua época.

Quando do nascimento do escritor, poeta e professor John Ronald Reuel Tolkien em janeiro de 1892, na África do Sul, o Império Britânico comandava metade da superfície terrestre e de suas gentes, tal como os mares, armados e guardados por sua Marinha Real, a maior então existente, para afiançar o julgo de suas colônias. Findava um século profundamente marcado por uma revolução dupla: a Revolução Industrial – que deu o tom para os rumos econômicos orientados pelo pensamento liberal burguês -, e a Revolução Francesa – determinante para o pensamento político daquele século (HOBSBAWM, 2007). Ao cabo das Guerras Napoleônicas, o continente europeu entrou em um período de ausências de grandes conflitos em seu território, acompanhado de uma profunda fé na ciência, no progresso, na razão instrumental, no modo de vida moderno e no fogo da indústria, em suma: fé na potência humana de “dobrar” a Natureza, que só seria interrompido em 1914 com a eclosão da Guerra.  

Os detalhes sobre acontecimentos dispersos sobre a guerra e dos atos de heroísmo individuais precisam dar espaço para o conhecimento das causas das quais o conflito foi efeito, posto que conhecer algo é conhecer as causas. Nas raízes da guerra que determinou e deu início do longo século XX estão as rixas das grandes potências européias no decorrer do século anterior, estando no centro da questão a expansão colonial para obtenção de matéria-prima e para a ampliação do mercado consumidor das mercadorias produzidas nas metrópoles, matérias-primas e mercados para onde os produtos pudessem ser escorridas, sem o qual o próprio o capital  não poderia continuar existindo. [1]

A forte industrialização que deu sentido à economia britânica no século XIX marcou a ferro e fogo a região de Birmigham, ao norte da Inglaterra, onde a família de Tolkien viveu por quatro anos. Mudaram-se da África do Sul para a Inglaterra após a morte do pai, e a paisagem fabril da cidade causou forte impressão, agradando-o pouco. Com a morte da mãe, aos trinta e quatro anos, vitima de complicações ligadas à diabetes, passou a morar com o irmão na casa de uma benfeitora, Sra. Faulkner, onde conheceu Edith Bratt, sua futura esposa. Em Oxford, travou contato com uma paisagem onde a Natureza pôde ser vista, de perto e devagar, produzindo a si mesma.

Tal qual a maioria dos jovens dos quais era contemporâneo, Tolkien atendeu ao chamado às armas feito por Lord Kitchener (1850-1916), posto que “O País precisava deles” junto ao esforço de guerra. Embarcou para a França em junho de 1916 como segundo-tenente do IIº Corpo de fuzileiros de Lancashire para lutar nas trincheiras na região do Somme. Em novembro do mesmo ano retornou à Inglaterra, acometido de “febre das trincheiras” (CARPENTER, 2019: 358). Donde reside, então, a liberdade, a ação capaz de tornar um singular humano em sujeito histórico em uma época de barbárie? O que pode um corpo/mente defronte ao arado do horror e dos sulcos que ele abre em nós? O que pode nascer dali? A história, então, é apenas um acumulo de tragédias, declínio permanente de uma Idade de Ouro donde o passado sobrevive apenas porque presa em um finíssimo e fragilíssimo fio?  Cumpre, como disse Pascal, “trabalhar pelo incerto, ir pelo mar, caminhar sobre uma prancha” (PASCAL, 2001: 36)

II – Decadência e história

“É triste que nos encontremos só agora, no final. Pois o mundo está mudando: sinto isso na água, sinto isso na terra, e farejo no ar. Não acho que nos encontraremos de novo.”
Barbárvore, “O Senhor dos Anéis”, p.1040

                                                                              “O sertão está em toda parte.”
Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”

No prefácio d’O Senhor dos Anéis, Tolkien explicitou suas razões:

(…) para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, especialmente por ser ele fruto de uma inspiração primordialmente linguística, e por ter sido iniciado a fim de fornecer o pano de fundo ‘histórico’ necessário para as línguas élficas. (TOLKIEN, 2014: XIII)

Embora o autor tenha, em sua vida e obra, elevado a produção de suas ideias ao nível dos mitos – que são caracterizados pela ausência de qualquer relação com a temporalidade e cuja mensagem dá-se sub specie æternitatis[2], isto é, aconteceu, acontece e acontecerá eternamente (e por eternidade entenda-se aqui e agora) -, o “fundo histórico” na obra de J.R.R. Tolkien que aparece supracitadamente tem um “sentido” que pode ser visto à distância. Para Tolkien, a motor história da Terra Média é a história da decadência [3], por uma leitura vertical da história, de cima para baixo. A forma com que Tolkien enxerga o movimento da história em seus livros reflete a forma como o próprio autor vê a história da humanidade, da qual era, ele próprio, mestre das antigas tradições do norte da Europa.

Tolkien não era historiador de oficio, embora profundo conhecedor e amante da história. Portanto, não tomou parte das querelas teórico-metodológicas historiográficas. Uma figura que certamente influiu na concepção de história de Tolkien, tanto quanto da intelectualidade inglesa durante a primeira metade do século XX, foi a do historiador profissional Arnold J. Toynbee (1889-1975), também professor, autor do monumental A Study of History, de doze volumes. Para Toynbee, “o conceito de declínio é basilar na história, que se manifesta apenas por ações externas: justiça divina, agressão da natureza, assassinato por outras sociedades. As civilizações suicidam-se. Nesta fase, há uma perda de autodeterminação: rejeita do novo, idolatria do efêmero, autodestruição do militarismo, intoxicação da vitória” (LE GOFF, 2011).

Cronologicamente, a história de Arda, mundo da Terra Média, foi divida pelo autor em Eras, sendo relatados acontecimentos da Primeira à ao início da Quarta Era. A Primeira, narrada n’O Silmarillion, é palco da produção do mundo por Eru, o Único, que em Arda é chamado de Iluvatar, e a partir da criação da canção – donde surgiu o mundo – de seus filhos, os Ainuir, os Sagradas, gerados por seu pensamento, e do surgimento das raças dos elfos e dos anões e dos homens (TOLKIEN, 2006: 3). A história da Grande Guerra do Anel, narrada n’O Senhor dos Anéis, situa-se ao cabo da Terceira Era até o advento do retorno do Rei, marco do início da Quarta Era. No desenrolar dos eventos da obra, finíssimos fios que ligam as Eras ao longo tempo podem ser encontrados, dando continuidade e fornecendo causalidades.

Três exemplos destes linhames entre uma luz Idade de Ouro dos Dias Antigos que resiste à escuridão nos tempos da Guerra do Anel são emblemáticos. O primeiro, mencionado n’O Hobbit, são as espadas que a Companhia de Thorin Escudo-de-Carvalho, encontra na caverna dos trolls. São espadas forjadas na Primeira Era, na cidade Gondolin – descrita n’O Silmarillion, por ferreiros élficos guiados pela habilidade de Maeglin (TOLKIEN, 2006: cap. XVI), pensadas para causar horror à orcs com sua simples visão. A espada de Gandalf, Glamdring, tal como a espada de Bilbo, Ferroada, fizeram parte do espólio da Companhia (TOLKIEN, 2002: 42, 51). O segundo exemplo é ligado às figuras de Aragorn, ligados as histórias de Beren Maneta, quem retirou uma das três silmarils, com a ajuda de Luthien, da coroa de ferro de Melkor, o primeiro Senhor do Escuro. Tanto Aragorn quanto Arwen são descendentes diretos do Dias Antigos, dos Homens do Oeste, cuja linhagem parecia diminuir tal qual pequena chama no escuro[4].

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“A Perdição das Duas Árvores”, Ted Nasmith

O terceiro exemplo, mais elucidativo de todos, justamente por relacionar-se à luz: a luz de uma estrela que salva Samwise Gamgi e Frodo na toca de Laracna. É aqui que a capacidade de continuidade em Tolkien é admiravelmente trabalhada. Quando da criação do mundo, duas árvores, as Árvores de Valinor, batizadas de Teuperion e Laurelin, são criadas. Dessas árvores emanam as luzes da Terra Média, correspondentes à luz do Sol e a luz da Lua, antes que esses fossem criados. Melkor, em sua ganância e inveja, destruiu as árvores com o auxílio de Ungoliant, de quem descende Laracna. Com a destruição das Árvores, a única coisa que emitia tal luz eram as gemas de Fëanor, maior de todos os noldor, os elfos-profundos. As gemas foram roubadas por Melkor, tenho assim Fëanor jurado, junto a seus filhos e demais noldor, dentre eles a Senhora Galadriel, que a recuperação das silmarils dar-se-ia a qualquer custo e ao enfrentamento de quem quer que fosse, mesmo que se preciso fosse, com os próprios criadores do mundo. Ao cabo da Guerra da Ira, onde se deu a queda de Melkor e sua expulsão do mundo, as silmarils foram separadas, uma foi lançada ao mar por Maglor, outra foi lançada nas entranhas da terra por Maedhros, e a terceira, utilizada por Eärendil, o Marinheiro[5], foi transformada em estrela, ficando, assim, as gemas legadas separadamente ao mar, à terra e ao céu. Assim sendo, a única luz remanescente das luzes das Árvores de Valinor foi transposta em estrela, a Estrela Eärendil, a mais amada pelos elfos, de quem a Senhora Galadriel retira luz e entrega à Frodo como presente quando da partida, da sociedade do anel, de Lorien.

Assim sendo, a luz que o Samwise, o Corajoso, apresentou-a contra Laracna na escuridão de sua toca quando toda a esperança havia minguado, é a própria luz de uma silmaril, a de Eärendil, portadora da luz de Teuperion e Laurelin, revelando-se a si mesma.

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“A Retirada de Laracna”, Ted Nasmith

Houve um tempo em que a ciência História levava em conta apenas documentos oficiais, produzidos por instituições governamentais, voltadas aos grandes feitos e à admiração dos vultos de grandes figuras; em suma: uma história exclusivamente política. Era tido como objeto da ciência História o que estava relacionado ao exercício do poder e do funcionamento da burocracia; logo, os documentos mais confiáveis eram os oficiais. Durante o século XX, a concepção do que pode ser considerado como documento, como indício da passagem do homem no tempo, transformou-se radicalmente: documento histórico é toda a produção humana no decorrer do tempo. Em Tolkien, a história parece ser a expressão da luta de uma chama para manter-se viva diante de uma tempestade e é da persistência da chama que depende a sobrevivência da luminosidade. Se é assim que a história de fato se desenvolve, não vem ao caso, aqui. Os enredos de Tolkien se passam, ao fim e ao cabo, dentro de nós, na realidade da mente, arquetipicamente, e nem por isso menos real. Enfrentar A Sombra é tarefa difícil e imprescindível. Coragem.

III Imaginação, intuição, liberdade

“Voltar quase sempre é partir para outro lugar”
– Paulinho da Viola

“Literatura é o fragmento dos fragmentos;
Do que aconteceu e foi dito escreveu-se o mínimo,
e restou o mínimo do que se escreveu.”
– Goethe, “Os anos de aprendizado de Wilhem Meister”

Tudo começa por causa dos afetos. Não se é livre por suprimir os afetos, o que é impossível, mas é-se livre graças a eles. Tolkien não teria produzido “O Senhor dos Anéis”, tampouco Guimarães Rosa teria feito brotar “Grande Sertão: Veredas”, sem um profundo amor pela linguagem. Tudo começa pelos afetos: foi a pena que Bilbo sentiu por Gollum que impediu espada de matá-lo e tendo, com isso, ajudado “moldar o destino de todos” (TOLKIEN, 2014: 61).

Acerquemo-nos brevemente, a guisa de ilustração, de Winston Smith, protagonista do “1984” de George Orwell. No único ponto de sua casa que é livre da perspectiva do Grande Irmão que vigia todos os membros do Partido, 24h, Smith escreve em um caderno, de forma truncada, lenta e que vai, gradativamente, tomando forma e intensidade. Escreveu, mesmo com o constrangimento do Grande Irmão e das vicissitudes da vida; escreveu mesmo tendo clareza de que o simples fato dele possuir um caderno era perigosíssimo, que o desejo misturado com medo de escrever já era, por si só, um crime. O que importa é o instante preciso do aqui e agora em que se escreve, instante de fuga da esperança e do medo: aqui e agora. Se isso causará o fim do regime do Grande Irmão, não importa: o que importa é o ato de colocar no papel o descontentamento, o desamparo, dar forma ao desconforto que existe. “Manter-se firme e livre por dentro”, aconselhou Stephan Zweig; criar uma fortaleza dentro de si, nas palavras de Ralph Waldo Emerson. Cumpre comunicar o que quer que seja, da forma que seja, para alguém que não se sabe quem, o que há dentro, dar materialidade à ideia, não menos real por ser pensamento.

Não há entre nós, partes humanas da Natureza, quem não deseje viver mais, sem ser impedido nem constrangido, delimitado. E é aqui que reside a frustração maior de nosso tempo histórico: a aceitação da condição de seres que duram, que atravessam o tempo, por ele atravessados e significados. Não há o que possamos fazer para impedí-lo: vivia-se, envelhecia-se e morria-se antes de chegarmos aqui. Daí esse gosto amargo na boca, esse luto sempre, posto que há perda sempre.  Bom mesmo é agir, aqui e agora. E só é possível agir aqui e agora. Mesmo o conhecimento das causas de um evento passado deve, necessariamente, partir do presente em direção a eles, ou seja, ao passado e ao evento para, enfim, voltar ao presente, onde sentimos e experimentamos seus efeitos. Não temos escolha e liberdade não é livre-arbítrio:

A liberdade humana é a aptidão ou potência para o múltiplo simultâneo que segue da necessidade da natureza da mente e do corpo na duração, e da potência do intelecto, na eternidade. (CHAUÍ, 2016: 600)

Livre, então, é quem age, isto é, produz a própria vida a partir de si mesmo: a potência de quem age aqui e agora. Isso não nega o passado, posto que é algo feito graças a ele. A memória – individual e coletiva – é uma condição necessária, mas não suficiente, para o exercício da ética, ou seja, o exercício da liberdade e da responsabilidade. Memória que liberta, que é ferramenta da autonomia; memória que aprisiona, serve para que sirvamos. Marcas, em ambos os casos, e condições da nossa finitude. Posto de outra maneira: um agente histórico, aquele que produz e é produto do seu tempo histórico através da força com que deixa marcas no mundo ao mesmo tempo em que é marcado por ele, tanto mais tem potência para mudar o rumo dos acontecimentos de seu contexto histórico quanto mais estiver na companhia de outros, também agentes. Potência é não isolamento; potência é comunicar-se e a coisa mais preciosa do mundo é uma palavra verdadeira, quando temos força para dizê-la. Tal agir, inseparável da liberdade, é válido para a multidão – para a multiplicidade simultânea de corpos agindo em conjunto – quanto para a antiguidade e humildade de escrever à mão.

Seria leviano dizer que conduzir um diário, uma carta ou, no caso de Tolkien, a criação de uma língua – e para dar sustentação à ela, um mundo inteiro – possam derrubar um tirano. Cumpre dizer, entretanto, que podem , mesmo que de forma singela, não alimentar, ou alimentar um pouco menos, a causa da tirania, qual seja, a ignorância e o medo – sobre nós mesmos e sobre o mundo -, tão indistinguível do desejo triste de servir e ser servido. Tal ignorância não é causa, mas efeito de condições históricas específicas que, por sua vez, são alimentadas por essa ignorância e por esse medo que um diário e uma carta combatem, sem negá-lo.

Por muito tempo, escrever à mão foi a única maneira de conectar-se a outro vivente através da distância física e através do tempo. Hoje, nesta sociedade em rede, o corpo perde seus atributos: perde-se no espaço e na duração, ou seja, no tempo. Escrever à mão é exercitar, simultaneamente, a potência da mente e do corpo. Simultaneamente, já que são uma só e a mesma coisa. Tal ato não é, contudo, receita de felicidade. O que acontece é que ela nos liga ao único momento que realmente importa e, ao fazê-lo, a ansiedade quanto ao porvir perde um pouco de seu poder sobre nós, uma vez que respondemos a uma espera com uma ação, mesmo que fugaz, mesmo que pequena, mas que existe e que é bela apesar de tudo. Escrever à mão, então, é um pouco de nossa potência desejando aumentar, indefinidamente; escrever é viver mais, alivio do duro desejo de durar. Acontece que temos pouco tempo, temos pressa, e gostamos pouco da solidão, cada vez menos.

Escrever é a própria vida em ato desejando desejar mais vida, indefinidamente. “Quero dizer que te amo muito, e escrevo porque te amo, porque desejo que saiba disso”. Duro desejo de durar que nos define, que marca nossa finitude descontente consigo mesma. Escrever no papel para como ato de rebeldia às telas, ao que está longe, para ficar aqui perto: “Quanto mais longe se viaja, menos se sabe; menos realmente se sabe”, cantou George Harrison com sua belíssima luz interior. Mal sabem que algo em nós, que não é o Eu – mas o Demo roseano – pega em nossa mão, nos ensina sobre nós mesmos, sendo o melhor professor, combatente imanente em nós contra as vozes que deixaram marcas, que nos significaram, que se misturaram com nossa própria maneira de pensar. 

Cumpre ver uma folha de papel em branco como um convite ao distanciamento das telas dos gadgets, porquanto durar o desejo de continuar ali, porquanto durar o tempo do desejo de se criar, de habitar uma fortaleza interior. “No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto possível do que poderia fazer com outra pessoa; eu me crio.”, revelam-se os diários de Susan Sontag (SONTAG, 2009: 179) Conduzir um diário é uma experiência de tornar mais claros os conteúdos produzidos pela mente e dá corpo às conversar que temos com nós mesmos. Isso, quando na companhia de outros corpos, sugere que há mais em nós do que um olhar rápido pode absorver.

A obra de Tolkien é um contra-discurso à tentativa de dobrar a Natureza: sábio mesmo é quem se alia a ela, um belíssimo exemplo das potencialidades da junção entre fantasia criadora e intuição, isto é, o conhecimento que a mente adquire ao saber-se como parte da Natureza inteira.

Além do mais, é um grande repositório de conselhos, de frases que, se tomadas isoladamente, transformam-se em proposições, válidas universalmente, posto que falam ao mais profundo em nós. As coisas têm seu próprio tempo e, como a sutileza com que a magia enche seu universo, tem seu próprio espírito: é o que Tolkien nos oferece, sob a perspectiva da Natureza, na fala de seus personagens. O que passamos a amar depois de terminar algum de livro seu são as pequenas coisas: uma boa refeição, um gole de cerveja, uma pedaço de pão com manteiga e um pedaço de queijo, um pouco de fumo, a presença dos amigos, as árvores… Pobres de nós, neste nosso tempo acelerado e acelerando, quase esquecendo que temos corpo.

Lembrar e esquecer, ambos são necessários, significando que escapam do reino do bem e do mal para o mundo como ele é, ou seja, para o que não pode deixar de ser nem pode ser de outra maneira, tais como nós, necessariamente finitos e frágeis, que desejamos perseverar, viver mais e melhor, fruir do corpo para fruir aqui e a agora. Marcar no papel – nessa banalidade bonita – que estivemos aqui, mesmo que rapidamente, mesmo que de forma pobre, cansativa e frustrante, igual toda a gente. Tolkien, pensando ao mesmo nível dos mitos, escrevendo gratuitamente, por prazer, por distração, nos momentos de solidão em que não havia ninguém por perto para conversar, existiu em ato em nos deixou algo belíssimo. Bom mesmo é desejar continuar e lutar a boa luta. Carpe æternitatem.


[1] No instante em que eu finalizava este texto, chegou-me a notícia, através da mais rápida de minhas bestas aladas, que a Universidade de Oxford, retirará de suas instalações a estátua de Cecil Rhodes (1853-1902), autor da célebre frase “Se pudesse, anexaria os planetas”, referindo-se ao processo de expansão colonial britânico na segunda metade do século XIX. O que é a vida, não o é?

[2] Sob a perspectiva da eternidade.

[3] Para uma abordagem da trajetória histórica do conceito de decadência, cf. LE GOFF, 2011.

[4] Cf. “O Senhor dos Anéis”, Apêndice A, Anais dos reis e governantes, V.

[5] A história e o papel de Eärendil, “Amante do Mar”, é digníssima de nota dentre as figuras heróicas de Tolkien, assim como a de Sam Gamgi. Eärendil, com o auxilio da potência de uma das silmarils, conseguiu navegar para o Oeste até Aman para pedir auxílio da hoste de Valinor contra Melkor. Depois saiu velejando pelos céus em sua nau Vingilot, portando a silmaril que Beren e Luthien haviam retirado de Angband, fortaleza de Melkor (TOLKIEN, 2006: 411)


Referências bibliográficas

CARPENTER, Humphrey. J.R.R. Tolkien, uma biografia. Harper Collins: Rio de Janeiro, 2019

CHAUÍ, Marilena de Souza. Nervura do Real – Imanência e Liberdade em Espinosa. Vol. II: Liberdade. Companhia das Letras: São Paulo, 2016.

FONSTAD, Karen.Wynn. O Atlas da Terra-Média. Martins Fontes: São Paulo, 2004.

HOBSBAWM, Eric John Ernest. Era das Revoluções: 1789-1848. Paz e Terra: Rio de Janeiro, 2007

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Editora Unicamp: Campinas, 2011

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Martins Fontes: São Paulo, 2001.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Companhia das Letras: São Paulo, 2019

SEMMELMANN, Cristina Casagrande de Figueiredo. Em boa companhia: a amizade em O senhor dos Anéis. 2017. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017

SONTAG, S. Diários: 1947-1963. Companhia das Letras, 2009

TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 2ª edição, 5ª tiragem. Martins Fontes: São Paulo, 2002

_______________.O Senhor dos Anéis. Vol. Único. 1ª edição, 7ª reimpressão. Martins Fontes, 2014

_______________.O Silmarillion . 2ª edição. Martins Fontes: São Paulo, 2006


Júlio César Conejo de Souza é historiador. Às vezes professor; sempre aprendiz. Ambulante campo de batalha de afetos contraditórios, pai de plantas e de gatos. Mestre em Ciências pela FFLCH/USP.


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