Tatuagem na pedra

Voltei pela terceira vez a Ouro Preto depois da separação. Não deveria ter sido nada demais, porque eu já ia para lá muito antes de conhecer você. Sempre gostei de descansar e observar como os turistas fazem engraçado quando visitam pela primeira vez alguma cidade histórica mineira, andando em bandos, falando alto e tirando fotos em qualquer lugar. Não é dessa Ouro Preto que gosto, e talvez por isso você tenha estragado mais uma viagem minha.

Penso que os homens e as cidades criam, às vezes, uma espécie de ligação que não pode ser descrita facilmente. Andar pelas ruas, ocupar espaços, visitar museus ou padarias, livrarias ou hotéis, podem ser coisas absolutamente normais para quem viaja com frequência como eu, mas alguns lugares marcam mais do que outros e passam a compor um tipo de terra sagrada. Trata-se de um lugar onde não está localizada sua casa, mas para o qual você se mudaria se tivesse alguma possibilidade de trabalho estável.

Voltei a Ouro Preto acompanhando um casal de amigos que não conhecia a cidade. A mulher se arrepiava a cada viela que cruzamos entre o obelisco e a casa de Tiradentes, na rua dos bancos, descendo pela Conde de Bobadela. Eles são espíritas e acabavam atribuindo os arrepios a algum tipo de energia do lugar. Achava graça dos dois conhecendo os pontos turísticos do centro debaixo de sol. Acontece que intuitivamente acontecia o que sempre aconteceu desde aquela viagem: fiz o mesmo itinerário que fizemos juntos, me espantando ao perceber que não estava lá, mas poderia aparecer a qualquer momento com o cabelo bagunçado, arrastando seu chinelo pelo chão enquanto comia com os olhos tudo em volta.

Por estar de dia a pressão foi menor, embora não menos presente. Estacionamos na subida da Bobadela e passamos rapidamente pela Praça Tiradentes enquanto eu ensaiava com os amigos algumas histórias sobre a cabeça do inconfidente que teria desaparecido de um poste onde hoje fica o obelisco. Descemos a Antônio Pereira até a feira de pedra sabão, e no caminho espiei pela porta um grupo de turistas coreanos sentados no café, exatamente naquela mesa em que você me fez uma caricatura dizendo que eu estava um menino. Mais abaixo, enquanto turistavam passando a mão sobre obras de pedra – para mim todas iguais, você sabe – fui até o banquinho em que esperei sentado por um tempo enquanto você ia até a farmácia comprar remédio para enxaqueca. Faz bastante tempo, mas as memórias são como uma mancha difícil de apagar. Li em Rubem Alves uma vez que o esquecimento é uma graça, muito mais difícil do que lembrar é se esquecer. Já não me lembro mais o livro, vitória! Mas não consegui esquecer nenhum o resto. Derrota.

Como estava com companhia e lembrar de você em debaixo de um sol a pino chega a ser infernal, assumi de vez a condição de guia e levei o casal até a Igreja. Admiramos a espessura das paredes e também os entalhes da fachada. Um homem vendia retratos feitos na hora enquanto outros tentavam laçar turistas para conhecer as minas da cidade.

Sugeri um restaurante a quilo mesmo, por ser mais barato e prático. Melhor é degustar à noite; durante a tarde, comer é mais indicado. Para passear um pouco, propus que descêssemos pela fonte na Alves de Brito e seguíssemos pela rua do Passo. Sempre mostro aos amigos o restaurante como um dos mais badalados da cidade. Eu fiz isso com você, se lembra? Disse que, se quiséssemos comer por lá, teríamos de chegar cedo para não esperar numa fila sem sentido que se forma lá perto das nove da noite. Não chegamos a ter a experiência, mas disse a eles a mesma coisa.

Uma senhora gorda se aproximou perguntando se procurávamos um restaurante, porque, se a resposta fosse sim, ela poderia nos levar até um logo ali. Parecia que trabalhava para todos os restaurantes da cidade ganhando alguma comissão pela coerção contra turistas indecisos. Seguiu puxando a mão da Mariana e nos deixou no segundo andar de um casarão perto da casa de Tiradentes. São trinta e cinco opções de comida, ela disse. Comemos com os olhos e com o desejo mesmo, quem precisa disso tudo?

“Você está triste pela sua mulher, não é?” – voltou meu amigo, enquanto olhava alguns azulejos decorativos tortos na parede, e fumava na sacada do restaurante – ele tem pavor dessas coisas.

Não respondi. Estava incomodado de não te ver por ali, minha raiva era de toda essa situação, e a melancolia talvez só fosse o resultado de leituras demais.

Nós já vivemos situações como essa e conseguimos superar porque estávamos juntos, me disse Mariana. Ela e Olavo são pessoas incríveis, mas não sabem de nada. Na verdade, ninguém sabe. Só você, eu e uma preta velha com quem fui me consultar. O restante das pessoas pode estar, se muito, informadas.

A conversa seguiu comum. Eles comiam devagar, eu rápido. Acabei logo e me levantei da mesa procurando um ar. Disse que daria uma volta pela região para rever alguns lugares específicos que gostava de fotografar, mas era mentira; só queria respirar um pouco mais de Ouro Preto enquanto sentia pena de mim. Saí me guiando pelas sombras do casario na direção de onde via menos pessoas.

Acontece que não é apenas o raciocínio que move as pernas; às vezes, é uma outra coisa que faz. Parece que a pedra registra um rastro do se passou sobre ela e, mesmo que chova, esse fio de Ariadne permanece ali, invisível ao transeunte, porém atento a seu portador. No meu caso, o fio me conduziu a virar à direita, passar pela vista incrível da Getúlio Vargas – que para mim poderia se chamar Marília de Dirceu – e seguir distraído pela rua, até que observei o letreiro da livraria preso verticalmente no casarão. Merda.

Juro que não queria chegar ali. Talvez quisesse, mas não querendo de caso pensado. Um filme passou na minha cabeça e ela girou, puta que pariu, aquela rua era você inteira, correndo e me mandando correr. Te revi pulando e comemorando quando entrei esbaforido pela porta enquanto a caixa com olhos de bibliotecária fazia um embrulho preguiçoso e você espiava na ponta dos pés sobre os meus ombros a capa colorida do Foucault que eu acabava de comprar. Aquele dia foi vencido às nove e treze da noite. Vi tudo isso e não eram nem duas da tarde, estacado no chão a uns vinte ou trinta metros da porta. Peguei o celular e abri o whatsapp em nossa última conversa, esperando saber se você estaria online ou “digitando” – que porcaria de hábito péssimo, eu ainda iria mantê-lo por alguns meses até entender que você não digitaria mais nada. Não tive coragem de entrar. Voltei caminhando para o restaurante das trinta e cinco variedades de comida. Naquele momento, eu soube que me perdi.


Vinícius Lara é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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