OS “INTELECTUAIS MEDIADORES”


Afinal, qual a contribuição desse conceito para a história cultural?

Na apresentação do livro Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política, Ângela de Castro Gomes e Patrícia Santos Hansen constatam uma lacuna importante que parece não ter sido ainda suficientemente discutida pela historiografia brasileira. Ambas afirmam que a mesma historiografia que descontruiu a ideia de receptores passivos no processo de comunicação não deu ainda a devida importância aos sujeitos históricos responsáveis pela produção e circulação de bens culturais. Nesse sentido, elas perguntam:

“Se os estudos de história cultural defendem que todos os sujeitos históricos são produtores de sentidos de forma lata (não há receptor/consumidor/leitor/espectador que seja passivo), e havendo, é certo, aqueles identificados como intelectuais criadores de bens culturais, por que os mediadores não estariam incluídos nessa mesma dinâmica de produção de sentido e de valor?” [1]

Tal questionamento, embora pareça banal e elementar num primeiro momento, faz todo sentido ao historiador que se aprofunda nesse campo de análise. Se, de um lado, a historiografia vem deixando suficientemente claro que a noção de público é muito mais complexa e dinâmica do que a simplista ideia de “massa” que recebe passivamente as mensagens que lhes são enviadas, demonstrando ser ele mesmo (o público) uma criação advinda também dos processos de produção e circulação de bens culturais e da interpelação dos processos comunicativos, por outro lado, ressente-se da falta de um maior esforço para melhor entender os múltiplos mecanismos de funcionamento da mediação cultural.

Não raramente, o historiador que se dedica ao estudo dos chamados “mediadores culturais”  se depara com o desafio de superar os tradicionais “vícios” que insistem em não reconhecer seus objetos de estudo como intelectuais. Ainda impera a quase automática tendência em inseri-los numa escala hierárquica previamente construída e repleta de estereótipos/classificações apressadas. As autoras asseveram que a mudança dessa perspectiva, ainda fortemente arraigada e sustentada por uma determinada tradição, está atrelada a dois aspectos extremamente importantes, quais sejam: primeiramente, a necessidade de se adotar uma concepção mais ampla de intelectual; e, em segundo lugar, desconstruir a imagem do intelectual como “gênio criador” dotado de “talentos individuais” e, portanto, isolado num determinado campo distante das demais dimensões da vida social.

A adoção de uma concepção mais ampla de intelectual implica em algumas mudanças na forma de conceber e abordar os sujeitos históricos e sua relação com a sociedade. A revisão do conceito de “campo” pelo sociólogo Bourdieu vem ensejando o despertar de possibilidades bastante férteis e enriquecedoras de análise histórica. O campo intelectual, embora dotado de uma inquestionável autonomia relativa, caracteriza-se, entre outros aspectos, pela presença de fronteiras permeáveis às mais diversas trocas de influências com outras esferas da vida social e política, passando ao longe de um universo hermético e estanque. As autoras são bastante enfáticas na defesa dessa perspectiva teórico-metodológica, que dialoga, em alguma medida, com as formulações de Jean-François Sirinelli, no texto Os intelectuais, publicado no livro Por uma história política, organizado por René Rémond. Ângela e Patrícia, assim como Sirinelli, definem o intelectual como uma categoria de contornos mutáveis, com “fronteiras de geometria variável”, respondendo às dinâmicas processuais das transformações históricas.[2]

Tal perspectiva, de fato, mostra-se capaz de dar conta de analisar o intelectual como um sujeito histórico múltiplo, inserido em seu contexto, interagindo e dialogando com reflexões, ideias, pensamentos e experiências diversas que se articulam em redes de sociabilidade e interlocução que extrapolam os espaços exclusivamente reservados para a chamada “elite intelectual”. A desconstrução dessa imagem do intelectual como “gênio criador”, que muitas vezes fomenta comentários anacrônicos e teleológicos do tipo “indivíduo a frente de seu tempo”, contribui para o rompimento da ilusória dicotomia entre “criadores” (pejorativamente associados à “alta cultura”) e “divulgadores” (vistos como meros “transmissores” e “simplificadores” de conteúdos para públicos mais amplos). Só assim se quebram as barreiras que muitas vezes impedem o intelectual mediador de ser visto como sujeito ativamente envolvido em processos de criação. Tal constatação se justifica, segundo as autoras, pela capacidade – muitas vezes visível empiricamente – de o mediador cultural agregar valor ao “produto cultural do qual se apropria para difundir”. Nesse sentido, as autoras não exageram quando afirmam que aquilo que o intelectual mediou se torna, efetivamente, um outro produto.

Vale ressaltar, portanto, que o conceito de “intelectual mediador”, tal como enunciado pelas autoras, está longe de configurar uma categoria rígida, pretensamente preocupada em delimitar determinadas práticas de mediação cultural. Pelo contrário, talvez a grande contribuição analítica e operacional desse conceito esteja em mostrar-se aberto à compreensão de uma enorme diversidade de experiências desenvolvidas, sincrônica e diacronicamente, pelos intelectuais. Muitos casos podem ser citados para exemplificar esse complexo processo, dentre os quais se destacam os cientistas que dividem seu tempo entre as atividades dentro dos laboratórios e a participação em programas de televisão, em canais do YouTube e outras plataformas digitais, especializando-se em levar as novidades científicas a um público não especializado.

Da mesma forma que o intelectual mediador pode ser um difusor (para um público mais amplo) de conhecimentos produzidos no âmbito de uma “elite altamente especializada”, pode ele também se dirigir aos pares (iniciados), com o objetivo de levar a este público um repertório de saberes e representações considerados “típicos” do universo “popular”. Afinal, sendo um acumulador de diversas funções e posições simultâneas e/ou sucessivas, o intelectual mediador normalmente não ocupa posições fixas. O que o caracteriza não é a transmissão unilinear e unilateral de conhecimento, mas o constante “trânsito” entre universos socioculturais distintos.  

A trajetória do literato mineiro Belmiro Braga (1872-1937), que vem sendo pesquisada por mim no doutorado, pode ser aqui utilizada para exemplificar esse “trânsito” mencionado pelas autoras. Oriundo de uma camada social pouco abastada, mas ascendendo através do comércio e das letras, Belmiro se dedicou – juntamente com outros escritores brasileiros do início do século XX – não apenas a levar diversos elementos da cultura popular para os salões das elites, mas também no diálogo e conjugação do teatro com o cinema. Isso se dava através de um gênero dramático muito conhecido na época como “gênero ligeiro”, peça de curta duração que normalmente antecedia as exibições cinematográficas, com o intuito de atrair o público para os cinemas. Essas peças, além de funcionarem como uma espécie de crônica do cotidiano, tiveram significativa importância no processo de aproximação do público em relação ao código/ linguagem visual do cinema, que, para se tornar um bem cultural comercializável, encontrava nos autores de peças teatrais importantes agentes “rotinizadores” dessa nova atração cultural – no sentido weberiano que as autoras emprestam ao termo.

Convém considerar, no entanto, que não apenas o público se deixa afetar pelo teatro, sendo despertado para a apropriação de uma nova linguagem, mas o teatro também acaba sendo influenciado de alguma maneira pelas novas demandas de um público cada vez mais heterogêneo e deslumbrado com o avanço tecnológico que movimentava os objetos e imagens com uma rapidez cada vez maior. O fato é que as peças do “gênero ligeiro”, por alcançarem o mérito de seduzir um público  bem mais amplo e heterogêneo, polarizavam a crítica entre “modernos” e “tradicionais” – estes, culpando-as pelo que chamavam de “decadência do teatro nacional”, e aqueles, vendo nessa modalidade de expressão teatral uma forma de adequação às demandas da modernidade. Andrea Marzano identifica nesse embate um incipiente e “conflituoso processo de massificação da cultura carioca”.[3]

A noção de “comunidades de sentidos” talvez funcione aqui como uma chave de análise bastante útil à reflexão sobre as críticas da chamada “alta cultura” ao sucesso de muitos mediadores culturais diante do grande público – como parece ter sido o caso de Belmiro Braga no contexto da Belle Époque. Belmiro, de fato, aproxima-se bastante dessa figura de mediador enunciado pelas autoras. Através de uma “comunidade de sentidos” entre os códigos culturais, o literato construía “pontes” entre tradição e modernidade, cultura popular e cultura erudita. “Ponte” que, embora não pareça ter eximido a sua produção e seu público de receberem estigmatizações de diversos tipos, que eram comumente veiculadas na imprensa daquele período – como “inculto”, “massa” interessada em “superficialidades”, que confunde cultura com “mero” entretenimento, produto comercial, etc –, não pode ser desconsiderada como um possível mitigador dessas dicotomizações e polarizações.

Os estigmas que um grupo atribui ao outro fazem parte de um conflituoso jogo social e político presente nas relações intelectuais, ainda que seja preciso ficar bastante atento à circularidade, às semelhanças e às influências tacitamente compartilhadas entre eles. Por conta disso, considero bastante proveitosa a apropriação que as autoras fazem do conceito de “enquadramento da memória”, de Michael Pollak. Afinal, não podemos esquecer que é através da construção de memórias e identidades que os grupos intelectuais disputam espaço, reconhecimento e hegemonia, lançando mão de uma série de autorrepresentações em que muitas vezes arrogam para si o status quo de porta-vozes de uma “alta cultura” ou de sujeitos eficientes na comunicação com um público mais amplo possível. Nesse movimento de autoafirmação e conquista de hegemonia, entra em cena um jogo de lembranças e esquecimentos deliberadamente praticado pelos grupos intelectuais com a intenção, inclusive, de formar e/ou difundir determinadas culturas políticas. Eu não poderia deixar de citar aqui, como exemplo impactante para minha pesquisa de doutorado, toda a narrativa dominante que os modernistas paulistas envolvidos na Semana de Arte Moderna de 1922 construíram acerca dos movimentos artístico-culturais que os precederam, bem como sobre a interpretação da identidade brasileira.

Outro conceito que enriquece a discussão sobre “intelectuais mediadores” é o de “geração”. Mas, como as autoras lembram muito bem, não se trata de “mera” caracterização pautada na idade dos indivíduos que integram os grupos sociais. Na verdade, o conceito de geração contribui para apreender determinadas formas de sociabilidade a partir de “vivências comuns de acontecimentos ou de crises”. Ambas frisam que “a geração não explica, mas deve ser explicada para que a dinâmica organizacional e os ‘microclimas’ intelectuais dos grupos sejam apreendidos pelo historiador”.[4]

A abertura do conceito de “intelectual mediador” para o diálogo com outros conceitos talvez seja um dos grandes diferenciais do texto de Gomes e Hansen. Ambas, sem dúvida, contribuem para alargar e “borrar” as fronteiras que, normalmente, mais restringem ou limitam as reflexões sobre a categoria intelectual do que as enriquece. Dessa forma, é possível fazer emergir no cenário historiográfico uma série de novos olhares e novos objetos, dando visibilidade a sujeitos históricos cuja atuação intelectual foi bastante significativa em seu contexto, tanto na criação quanto na divulgação de conteúdos. Mas que, não obstante toda a sua relevância historiográfica, ficaram submersos por determinados enquadramentos da memória responsáveis por privilegiar e naturalizar um conceito de intelectual circunscrito ao que equivocadamente chamam de “alta cultura”.  

Sem hierarquizações, classificações genéricas e dicotomias, o conceito de “intelectual mediador” dá conta de abarcar um universo bastante múltiplo de possibilidades de mediações culturais empreendidas por intelectuais oriundos das mais diversas formações, contextos históricos, trajetórias, experiências, orientações ideológicas, culturas políticas, etc. Todo mediador é, sem dúvida, um criador interessado em transitar por distintos espaços sociais, costurando uma teia de relações suficientemente porosa para absorver e “deglutir” influências mais diversas possíveis. Cabe ao historiador desconfiar e desconstruir todo e qualquer tipo de classificação rígida e categórica que impede o mediador cultural de ser considerado um intelectual. E, assim, encerro com uma frase do historiador da arte Jorge Coli, no livro dedicado à desmistificação do olhar modernista sobre a pintura histórica brasileira oitocentista: “o olhar que interroga é sempre mais fecundo que o conceito que define”.[5]

Para conhecer mais o conceito de “intelectual mediador”, conferir o seguinte livro: GOMES, Ângela de Castro; HANSEN, Patrícia Santos. Apresentação – Intelectuais, mediação cultural e projetos políticos: uma introdução para a delimitação do objeto de estudo. In: ______ (orgs.). Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 7-37.


[1] GOMES, Ângela de Castro; HANSEN, Patrícia Santos. Apresentação – Intelectuais, mediação cultural e projetos políticos: uma introdução para a delimitação do objeto de estudo. In: ______ (orgs.). Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 17.

[2] SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: RÉMOND, René. (org.). Por uma história política. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p. 231-262.

[3] MARZANO, Andrea. “Scenas Cômicas”: Francisco Correa Vasquez e a identidade do ator teatral. In: CHALHOUB, S.; NEVES, Margarida; PEREIRA, Leonardo A. de M. (orgs.). História em cousas miúdas: capítulos de história social da crônica no Brasil. Campinas: Unicamp, 2005. p. 353.

[4] GOMES, op. cit., p. 25.

[5] COLLI, Jorge. Como estudar a arte brasileira do século XIX? São Paulo: Ed. Senac, 2005. p. 11.


Sérgio Augusto Vicente: sou professor de História e historiador, com bacharelado, licenciatura e mestrado em História pela UFJF. Atualmente, curso doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História, vinculado a mesma universidade. Dedico-me a estudar a história social da cultura no Brasil, trajetórias individuais e de grupos, história intelectual, patrimônio cultural, memória e educação.

Moro em Juiz de Fora (MG), onde trabalho no Museu Mariano Procópio. Contudo, mantenho-me umbilicalmente ligado às origens rurais de minha família, num sítio em Simão Pereira (MG), uma espécie de refúgio localizado à margem de uma estrada de terra que liga ao município vizinho de Belmiro Braga (MG). Sítio que se tornou memória afetiva de várias gerações de minha família, desde que meus tataravós portugueses o compraram em 1910. Sempre que posso, escrevo crônicas e poesias, abrangendo temáticas diversas, como memórias, cotidiano, política, etc. 

No ciclismo amador, conecto a necessidade de cuidar da saúde física/mental com todas as áreas de minha vida, a que me dedico com amor e carinho.  Entre um passeio ciclístico e outro, inspiro-me em histórias e memórias do cotidiano e paisagens de Juiz de Fora e região. Na página “Diários de bicicleta”, no Facebook, é possível ter acesso a esses registros.


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