Letra Popular

o  terceiro da  série de 3 textos sobre parte do movimento da cultura popular até a relação da produção vernacular brasileira. Essa é uma literatura interativa, clique nos links.

Pintura tipográfica popular urbana,mais um capítulo de resistência da arte.

A forma de expressão visual daquilo que podemos considerar uma das maiores obras da humanidade, a cidade, é repleta de pregnâncias em sua maioria acentuadas, tal como nosso contraste social. A economia, motor que movimenta essa obra, faz as cidades pulsarem, desenhando em cada período a identidade estética vigente – tanto nos estilos gráficos quanto nos meios de produção.

Na urgência desses espaços, o cidadão adapta sua necessidade ao recurso existente. Talvez você veja algum anúncio até terminar essa leitura; bom, essas peças gráficas fazem parte do seu dia-dia. Anúncios, como são chamados, são projetados cada vez mais para performar o conteúdo com o público certo. Uma bela estratégia de ser vista, mas que nem todo mundo pode pagar ou sequer sabe como funciona. Porém, o que não falta são postes com cartazes colados em lambe-lambe, de cartomantes a montadores de móveis, placas improvisadas, muros com  letreiros ou pinturas – das mais rudimentares a elaboradas obras gráficas. A realidade do borracheiro que usa de um conhecimento próprio para escrever em um pneu é a expressiva maioria na sociedade brasileira.

Algumas são as formas de ampliar essa ciência popular para outros negócios: o banner do salão pequeno de bairro, uma placa para no portão informando que ali há uma costureira, professor particular ou até mesmo Chup Chup. Na intenção de comunicar seja qual for sua demanda, o brasileiro “se vira como pode”. Segundo Walker (2001, p. 10), observa-se que as características da linguagem escrita são moldadas por variáveis sociais, econômicas, educacionais e tecnológicas, de acordo com determinada sociedade, linguagem ou tempo.

A sociedade se modifica e, assim, sua economia.

Cena do documentário Praça da Sé (1976)

Se tratando da mudança que a sociedade vem passando, as necessidades vão se tornando mais complexas – como a de se comunicar de forma visual no meio urbano. Assim surge o profissional letrista, ascendente de um conhecimento mais escolarizado sobre as técnicas da pintura, construindo uma hierarquia entre as pinturas de letras amadoras, com trabalhos elaborados que destacam no confronto visual das cidades. Nas regiões mais isoladas do Brasil se observa que as letras feitas por esse pintores também têm suas relevâncias e especificidades, como registra o projeto Letras que Flutuam. Se você se interessar ver esse paralelo entre a pinturas de letras nos centros urbanos e de regiões isoladas, minhas sugestão é conhecer também os Abridores de Letras.

O esforço que o povo faz, especificamente a periferia, de disputar com o erudito, é o que gera a fagulha a de sua ascensão criativa sempre brilhante; em outras palavras, a necessidade de sobreviver. Observamos o que vem das ruas e encontramos o pulso de uma arte efêmera, que comunica e expressa por meio de técnicas e tática populares, passadas de forma humana para outras gerações, um ou grupo ensinando a outro, quando não autodidata. Tal fenômeno é  praticamente resistir às pressões econômicas. Para Dohmann (2007), essa tipografia pode receber o adjetivo de vernacular.

“aquele que surge do intermédio entre a necessidade de transmitir algo e uma carência de conhecimento mais apurado, construída a partir da restrita bagagem cultural de indivíduos que desconhecem os postulados das técnicas acadêmicas e escolarizadas.” Dohmann (2007, p. 38)

Depois desta leitura, sugiro que exercite seu olhar para a rua buscando reparar nas escritas populares que brigam pela sua atenção com a arquitetura, os outdoors e até mesmo com a tela do celular. Sendo tão disputada assim nossa atenção, o pobre de recurso e capital compensa no capricho, criatividade e na experimentação, transmitindo seu conhecimento adquirido em uma rede fraternal.

Tudo isso nos mostra uma beleza sem igual, em contrapartida de uma atmosfera de abandono existente nos grandes centros. Ainda sim, a arte vernacular se torna referência para muitos projetos de design, coletivos, empresas, estratégias de marketing,  pesquisas acadêmicas, textos para revistas, e, claro, para artistas:

Uma boa dica é: Valorize a arte popular, letristas populares, abridorxs de letras. Segue abaixo uma lista com alguns artistas que tem essa corrente como referência para sua pesquisa:

MG Carteles

Carga Máxima

Cumbia  Y Amor 

k.kosugue

Thiago_nevs

Filipe Grimaldi

Fátima Finizola, que enriquece muito esse assunto e foi a primeira pessoa que vi citar “Circularidade Cultural“, já proporciona reflexões sobre o fenômeno tipográfico vernacular:

“Como uma manifestação de design informal, surgida antes mesmo da oficialização da profissão do Brasil e no mundo, os registros dos primeiros artefatos de comunicação urbana elaboradas de forma manual remetem a períodos históricos distante, difíceis de precisar.”
(Finizola, 2011)

“Circularidade Cultural“para Finizola é a troca de experiências permitindo que por vez o erudito se torne popular, e que o popular seja assimilado pela linguagem oficial, se tornando também erudito. Fluxos como esses fazem a humanidade expandir em suas percepções, conecta as experiências e assim seus agentes, caminhando para a unidade que coexista tantas distintas experiências. Eu mesmo me deleito com essa troca:

O Brasil que a maioria dos brasileiros pode tangenciar certamente se fez em extrema criatividade, passada de gerações, em pontos distintos na sua imensidão. Empoderar o povo com tecnologia, conhecimento estratégico e fornecer recursos materiais necessários sejam talvez algumas das ações que as forças da arte vernacular devem buscar para o povo. Contribuir para que a periferia resista é, certamente, uma de suas grandes realizações e potências.

Poder Para o Povo

Viva a Cultura Popular

Viva a Tipografia Popular


Bibliografia de apoio

Sign Painters of Pernambuco: A Brief History of the Origins, Aesthetics and Techniques of their Practice in the Northeast of Brazil

The Iconography of Truck Art in the Brazilian State of Pernambuco

Identificação de padrões na linguagem gráfica verbal, pictórica e esquemática dos letreiramentos populares Identification of patterns in verbal, pictorial and schematic graphic language of popular letterings

Além das Letras: a tipografia vernacular como expressão cultural

Tipografia Vernacular Urbana | Uma análise dos letreiramentos populares

Paisagens tipográficas – lendo as letras nas cidades.  Anna Paula S. Gouveia, André Luiz T. Pereira, Priscila L. Farias, Gabriela G. Barreiros [Senac/SP]


Iury Borel é mineiro com formação acadêmica que coexistiu o erudito e marginal, formou-se ativista gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo. Propulsor e criador de ideias como CinePixo, Oficinas de Tobograffiti e Artefatos da Arte de Rua, que propõem uma visão empírica para mostrar as entrelinhas da arte urbana. Descriminalize a arte.


Galeria: artistas pra seguir na quarentena

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