Carta Aberta aos Meus Vizinhos

Pela primeira vez em semanas, desde que nomeamos o elefante na sala, eu tive a capacidade de tocar no assunto sem chorar. Eu disse:

“Você tem certeza que voltar é o melhor, agora? ”

A notícia é que as mortes por COVID lá aumentaram em 37% só na última semana. E a minha felicidade, que já temia encontrar sua ruína no momento em que ela saísse pela porta desse apartamento, se uniu ao receio. Mas não, não é o medo o assunto dessa carta; a felicidade é.

Hoje fazem três meses desde que nos casamos. Fazem quarenta dias desde que partimos de lá e aportamos aqui, neste apartamento, o de número duzentos e dois, que eu chamo de ‘casa’. Mesmo com os problemas diários, com os desequilíbrios de cada uma, com os estresses do trabalho e com algumas poucas discordâncias, a minha felicidade, a cada dia desses quarenta, cresceu exponencialmente.

A felicidade, amigos, é sonora. Ela traz consigo risadas, música, interjeições de prazer, de euforia. Ela tem, sim, seus momentos de silêncio; aqueles em que a gente se comunica só com o olhar, ou se compraz apenas com a existência, com a presença da outra, sem dizer meia palavra. Mas a felicidade é viva. Ela canta, dança, pula, ri.

A felicidade, ela também fala – e quando a palavra símbolo não é suficiente, ela complementa o significado com tons agudos e vozes volumosas. Vocês sabem disso. Não é por nada que “amar em silêncio” se tornou clichê de tristeza, e “gritar para todo mundo ouvir” consiste na epítome do orgulho, do sucesso, da felicidade. Não é algo que eu precise explicar, é convenção. Mas cá estou eu.

Os últimos quarenta dias foram, sem sobra de dúvidas, os melhores que o apartamento duzentos e dois já viveu. A cozinha, os quartos, os banheiros, o corredor e até mesmo as paredes brancas da sala emanam mais carinho. Porém, vocês sempre fazem questão de demonstrar que a nossa felicidade – a minha, a dela, a do cachorro e a de toda a estrutura concreta do apartamento – são um incômodo.

Antes, quando eu estava na escola, eu tinha mania de ouvir tudo o que acontecia nos apartamentos em volta. Bastavam dez minutos olhando o livro de biologia para os meus ouvidos passarem a receber atentamente o som ao redor: as risadas e brigas entre as três mulheres do apartamento de cima; as outras crianças jogando bola na área comum; os sertanejos que acompanhavam as faxinas dominicais da vizinha de porta; os gritos de gol do apartamento de baixo; as conversas animadas entre amigas. Eu reclamava, claro. Às portas do vestibular, toda aquela felicidade me atrapalhava a estudar genética. O tempo, porém, passou; e os livros de biologia já não faziam mais parte da minha rotina, assim como não faziam as rotinas dos apartamentos em volta. Acredito que essa época da minha vida me trouxe alguma compreensão sobre como vocês se sentem.

Adulta, adotei os versos de McCartney como prática; em sendo uma jovem de coração aberto, foram anos apenas “vivendo e deixando viver”. Apartamento é isso, ora: cumprimentar pessoas já na soleira de casa; trocar uma linha de prosa e perguntar como chama esse cachorrinho lindo; receber toques inesperados da campainha e encontrar alguém te alertando que a sua chave ficou para fora; ter paredes menos grossas do que gostaríamos, mas que fazem o wi-fi chegar a mais cômodos da casa; ouvir a vida, que vez ou outra, num fim de semana, toma umas e ri mais alto. E faz um tempo que já não consigo viver tão bem quanto eu costumo deixar viver. Bem, frente ao incômodo de vocês, em alguns dias desses quarenta, senti o agridoce na minha língua se tornar fel; e me vi, em alguns dias desses quarenta, me armando de escudos, prestes a trair a minha própria filosofia.

Relatório de 06.06.2020

  • 23h28 – Socos fortes em uma parede;
  • 23h30 – Conversa em apartamento de cima, por mais de uma hora;
  • 23h32 – Barulho de TV;
  • 23h40 – Descarga;
  • 23h41 – Secador;
  • 23h47 – Motor de secador/microondas no apartamento de cima;
  • 23h48 – Barulho de lata sendo aberta;
  • 23h53 – Objeto metálico caindo no chão;
  • 23h57 – Barulho de louça;
  • 00h04 – Descarga;
  • 00h11 – Bipe de despertador, por mais de um minuto;
  • 01h01 – Descarga;

Meus escudos provam que o duzentos e dois não é um apartamento à parte – é só um, entre os dezesseis do condomínio, que não se cala após as dez da noite. Ora, eu também escuto quando vocês resolvem cozinhar de madrugada, ou quando precisam tomar banho mais tarde, ou quando estão sem sono e decidem conversar. E a vida nos cubículos adjacentes, que nunca foi problema para mim, infelizmente precisou se tornar arsenal de defesa para a minha felicidade. Esse processo me exaure, honestamente. Limitar a vida de cada um de vocês está longe de ser um hobbie meu; inclusive, detesto. Mas é que em todo incômodo, é nítida a falta de empatia pelo que vocês nem cogitam conhecer. Pelas deusas, o quão difícil é imaginar que quem mora do seu lado teve um problema e se compadecer dele, ou perceber a alegria do outro e se comprazer com ela?

As primeiras vezes que ela disse sobre voltar, eu chorei, feito criança pequena que se perde na praia ou no supermercado. Eu já sabia que “se ela for, eu vou sentir saudade”, mas descobri recentemente que, como diz o pagode, “viver sem ela é o meu pior castigo”. Hoje, não chorei; meu receio racional de que ela adoeça foi maior do que o pavor psicológico de voltar a ter um cotidiano sem os sorrisos dela. Mas em todas as vezes, chorando ou não, pensei em vocês, e em como o ego de cada um ficaria satisfeito de poder se deitar às dez sem o receio de a nossa felicidade chegar para lhes incomodar às dez e cinco. Porque, bem, a descarga, o chuveiro, o micro-ondas, eles continuarão sendo acionados, mesmo que eu esteja triste, mesmo que eu esteja sozinha.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.


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