A construção da memória e do esquecimento.

Desde a antiguidade, o potencial intelectual do ser humano serviu de objeto de estudo para pensadores como Platão e Aristóteles, e ainda permanece assim  até os dias atuais.  No caso da memória, por exemplo, aspectos relacionados ao armazenamento e recuperação de experiências vividas, se apresenta como uma incógnita. Ao nos depararmos com as dificuldades impostas sob este objeto de pesquisa, podemos observar a existência de uma estrutura complexa que existe na mente humana. Dentro de um ponto de vista mais abrangente, podemos perceber que, na problemática da memória, talvez essa questão esteja muito mais relacionada à reminiscência, por exemplo. 

Paolo Rossi explana sobre memória, esquecimento e história no capítulo 2 de seu livro: O passado, a memória e o esquecimento, onde ele conta que na tradição filosófica e também no senso comum, a memória parece referir-se a uma persistência e uma realidade que de alguma forma está intacta e contínua, de maneira que é possível aproveitar experiências passadas.  Por outro lado, diferente da memória,  a reminiscência seria a capacidade de se recuperar algo que se possuía, mas  foi esquecido. Ou seja, há um esforço de se resgatar algo, conscientemente ou não. 

Já no livro Espaços da recordação, a autora Aleida Assman cita a Virginia Woolf quando afirma que a “memória é inexplicável”, uma vez que a variedade de suas ocorrências não é transdisciplinar somente no fato de não poder ser definido de maneira única por nenhuma área.  Dentro de cada disciplina o fenômeno da memória é contraditório e controverso. Além dessa complexidade de definições de termos sobre a memória em si, há uma necessidade de se entender sobre ela, justamente por causa da amplitude de suas áreas de atuação.  

Nesse sentido, ao se falar em memória, rapidamente surge a associação com o passado, mas a memória  não tem a ver só com o passado, ela tem a ver também com a identidade dos indivíduos, e por esse motivo, com a própria “persistência no futuro”, afirma Rossi, quando exemplifica sua teoria com o filme Blade Runner,de 1982.  

A narrativa do filme citado passa-se em um futuro distópico, em Los Angeles de 

2019, no qual  humanos sintéticos, conhecidos como replicantes, são biotecnologicamente projetados para trabalhar em colônias fora do planeta Terra. Eles são idênticos aos seres humanos  em quase todos os aspectos, diferenciando-se aos naturais por viverem menos e terem uma afetividade menor, e pelo fato de não possuírem  memória. Por esses motivos os humanos são invejados, pois possuir uma vida mais longa e a possibilidade de ter lembranças/ recordações, tendo então a possibilidade de experienciar o sentimento da nostalgia lhes parecia agradável. 

Sob essa ótica, a narrativa demonstra a importância de se refletir sobre esse assunto. Como se pode enxergar uma cultura sem considerar as lembranças do processo que a consolidou? Qual a importância desse processo na vida humana? Esses questionamentos colocam em evidência a necessidade indispensável da memória para a formação da identidade de um indivíduo, bem como de um povo ou nação.  É esse entendimento que faz com que os tribalismos, nacionalismos étnicos dentre outros sejam levados das margens ao centro da formação da história cultural do mundo.  

Segundo autores, citados por  Rossi em seu livro, a história é a interpretação crítica com distanciamento do passado, por outro lado, a memória seria uma participação com viés emotivo, fragmentado, incompleto e normalmente vago em relação ao passado. A história oficial do mundo, sempre foi contada por guerreiros vitoriosos, monarcas poderosos, pessoas ricas em cargos importantes e etc. Os fatos são contados de uma perspectiva, e os acontecimentos “menores”, particulares ou não   são deixados à margem pois a história não foi capaz de lembrar ou não se interessou em lembrar.  

Hoje culturas que sempre foram subjugadas, marginalizadas ou esquecidas têm reivindicado seus lugares de direito na história. Fazem isso pois entendem a importância que a memória tem para que suas culturas se perpetuem e não sejam esquecidas. Suas vozes precisam ser ouvidas.   

Essa dicotomia entre memória e esquecimento, é complexa e apresenta nuances que requerem aprofundamento. Muitas vezes o cérebro descarta algumas memórias e guarda outras sem esforço consciente. Chega-se então, no termo “olvido” como defende Heidegger, que é muito amplo, mas na ciência se reduz ao esquecimento. 

A ambiguidade de lembrar e esquecer é necessária e constante na vida humana, mas o fato de apagar algo da memória e viver como se aquilo nunca tivesse existido é um conceito bem radical. Entretanto, dentro da estrutura política e social, momentos históricos distintos demonstram tentativas institucionais, investidas em forma de censura, para perpetuar e conservar estruturas de poder antes estabelecidas. O texto nomeia como “assassinos da memória” aqueles que  tentam a todo custo sufocar informações e fatos por motivos ideológicos, pessoais ou quaisquer que sejam. 

 Rossi afirma que obras inteiras foram reescritas apagando os nomes de heróis de um período especifico. Livros foram publicados com conclusões diferentes das originais dentre muitas outras ações nesse sentido. Para não dizer que livros foram queimados e tirados das bibliotecas na tentativa de apaga-los da história. Eliminaram inúmeras pessoas e depois tentaram “apagar os apagamentos”, negar os fatos e muitos outros fatos chocantes para impedir a lembrança.  

É possível citar muitos acontecimentos da história recente que os assassinos da memória “trabalharam”, como Ditadura Militar Brasileira, Guerra do Iraque em 2003,  conflitos constantes no Oriente Médio, dentre outros. Entre esse fatos, o texto expõe opiniões sobre o Holocausto, citando relatos de sobreviventes que foram expostos ao mundo, revelando o sadismo de uma raça autoproclamada superior. Pessoas que sobreviveram a esse período histórico, tiveram que lidar com suas próprias memórias e foram impelidos a “aprender a esquecer”, como afirma a historiadora da ciência Yehuda Elkana. 

Sendo assim, de acordo com o autor, é importante observar que a dicotomia  lembrança/esquecimento é uma constante indivisível, uma vez que, ao se falar de memória, necessariamente o tema esquecimento também é citado. Por esse motivo, o texto conclui que nem sempre os atos de esquecer ou se lembrar referem-se somente ao passado, mas também ao futuro. Essa associação é possível, segundo o autor, pois, o futuro é um evento construído “por cima” dessas memórias.


Poliana Vieira Côrtes Lopes é formada em artes pela UFJF, é professora, especializada em restauração e mestranda no PPG de Patrimônio da Fiocruz do Rio de Janeiro e sócia da Instituição Cultural Bodoque Artes e Ofícios.


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