Atômica – Bissexual e Protagonista no Cinema

A construção de personagem além do estado de aparência.

Começo dizendo que a bissexualidade é uma orientação sexual válida – o que é necessário, visto que ela só passou a fazer parte oficialmente da sigla LGBT+ em 2005 e ainda é amplamente invalidada. Com isso em mente, argumento que personagens bissexuais são um ponto de partida tão bom quanto personagens que expressam qualquer outra orientação para falarmos de outras formas de representatividade no cinema, ainda mais quando o personagem é uma mulher bissexual.

Pensamos sempre em grandes arcos dramáticos e muitos adjetivos quando estamos criando um personagem, isso é fato. Mas o que a sexualidade pode falar sobre este personagem? O que sua representação visual e sentimental fará com o espectador? Para refletir sobre isso, utilizarei o exemplo do filme Atomic Blode (2017) e sua protagonista.

Antes de continuar a leitura, recomendo assistir ao trailer para evitar spoilers:

Em Atômica, temos uma construção de personagem muito complexa emocionalmente – uma personagem esférica. Uma espiã, de personalidade forte, heroína de si mesma (como muitas mulheres reais), cuja sexualidade vai sendo trabalhada ao longo da narrativa. Por uma boa parte do filme, temos uma sensação de que ela é heterossexual (pressuposto gerado pelas bases compulsoriamente heterossexuais em que vivemos), através de um arco emocional muito equilibrado. Ela é construída nos parâmetros de uma personalidade sedutora, altamente sexualizada. Lidando com seus amores e frustrações em meio a uma guerra, Atômica mostra uma atitude para cada lado de sua bissexualidade que não se vê e nem se entrega em porcentagem. Atingindo diretamente seu jeito de ser e agir, a atriz Charlize Theron consegue de forma sutil mostrar essas diferenças/surpresas ao espectador com uma atuação convincente e muito bem preparada, o que faz de Atômica um filme envolvente.

Mas como a sexualidade de uma personagem, de forma tão subjetiva, pode ser decisiva para a história do filme? Ora, a forma que o personagem se dirige ao mundo (aqui me refiro ao mundo criado) vem de seu interior, que é gerado pelo seu criador “Deus” (dono da história e todos os seus acontecimentos), movendo assim toda a história não apenas pela sua sexualidade mas pelas hipóteses mil geradas por uma característica que transcende o ser psicológico e imaterial. Esse personagem se expressa e age a partir de sentimentos e emoções; portanto, todas as informações psicológicas de um personagem interferem em sua caracterização, em suas motivações e em suas ações, consequentemente mudando os rumos da narrativa, suas estéticas e a própria forma absorção da história pelo espectador.

A Importância de Mulheres Bissexuais no Cinema

A bissexualidade é uma das letras mais apagadas no meio LGBT+ por ser mal interpretados tanto em seu próprio meio quanto também fora dele. Sua invisibilidade se agrava com a ausência de representações, e casos como Atômica servem como ferramenta para tornar essa letra mais visível.

É importante ressaltar que, apesar de ser uma representação, o que é positivo, a representação bissexual construída em Atômica ainda não é a ideal. Alguns dos estereótipos construídos em cima da identidade bi são as questões da hiperssexualização e sedução – que são partes exploradas na personagem, mas não chegam nem perto de serem características aplicáveis a todas as pessoas bissexuais.

Atômica serve à representatividade bi, e também serve à representação feminina no sentido de construir uma personagem forte e independente. A própria Charlize Theron afirma, em entrevista sobre o filme ao ‘Now, This’:

“This is really what women are. We are more interesting then I think cinema sometimes allows us to be.” 

Uma personagem como Atômica reforça a importância de mulheres protagonistas e suas diferenças perante os demais filmes que caem em representações heteronormativas. Sua existência também contribui para a construção de novos laços entre criador e espectador, gerados por um simulacro de identificação – que é responsável por estimular a busca por novos caminhos de se criar personagens que trazem sua sexualidade enquanto traço presente, mas que não reduz ou define uma personalidade. Personagens em que sua sexualidade agregue valor a uma representação esférica, com todas essas formas de se expressar, agir e interagir com seu espectador – seja ele representado ou não por elas.


Ezidras Farinazzo é professor, mestrando em Artes, Cultura e Linguagem na UFJF e Co-Founder do estúdio de animação El Torito Studios.


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