26. Mal-Estar na Memória


Não sei como me convenci a escrever esse conto. Meus dedos me doem muito. A velhice já não me deixa mais em paz. A vantagem é que ainda não preciso de ninguém para trocar minhas fraldas geriátricas, não obstante ainda não as use. O Tempo me consome a cada segundo de meus minutos, não tenho punho nem para forçar o lápis contra o papel, muito menos para girá-lo dentro de um afiado apontador. Eu não gosto de computador. Essas tecnologias não me atraem. Além do mais, a única energia que se consome quando escrevo é a minha. Fico satisfeito com isso, e o meu bolso também. Eu não sou um velho sovina, apenas me previno para os tempos difíceis que a vida nos impõe. Tendo essa virtude, quem sabe consigam me comprar um caixão polpudo e bem resistente. Acaso me recrimine, é porque nunca sonhou sendo corroído pelos vermes que estão me esperando lá, sob a terra. Um caixão firme me manterá mais tempo carne e menos ossos, porque inevitavelmente passados alguns anos serei apenas uma ossada sorridente.

Falemos de coisas mais palatáveis, afinal de contas a Morte já se regozija muito com as nossas angústias diárias em torno Dela. Nunca fui muito academicista em minha vida, acho certas formalidades e algumas linguagens em torno da rigidez acadêmica um tanto quanto exageradas. Minha formação vem dos livros, e as minhas ideias também. Sempre que me surge algo original a ser dito, escrevo em um caderninho vermelho que tenho, chamo-o de “caderno de apontamentos para futuras manifestações artísticas”. À medida que vou lendo uma coisa aqui e outra ali, risco algumas de minhas ideias originais, pois percebo que ela não é tão original assim. Pois bem, há alguns anos estava em uma palestra na qual se discutia algumas questões em torno das teorias de Sigmund Freud. Modéstia à parte, já li bastante coisa dele. Veio-me à cabeça um fato interessante (e ao mesmo tempo estranho, ou unheimlich) que aconteceu em minha infância. O caso exige concentração e austeridade; me ausentarei de minhas incursões, pelo menos até o final desta história.

Cidade do interior. Domingo. Manhã clara e benfazeja (como diriam os poetas). Fui acordado por meu pai. Senti-me aliviado, estava tendo um pesadelo medonho. Lembro-me que suava muito.

– Acorde. – disse meu pai. – Te espero na cozinha.

Levantei-me, esfreguei os olhos com força para ver se desanuviava completamente aquelas impressões do pesadelo. Menino de 10 anos com vontade de dormir. Para meu pai, não existia isso. Somente o ar e a beleza da manhã que deviam ser aproveitados ao máximo. Fiz minha higiene e segui o cheiro do café. Meu pai estava circunspecto, não obstante sereno. Arrastava os chinelos, ainda com aquela preguiça me solapando. Meu pai, com uma xícara de café na mão, soprando o seu conteúdo, diz gravemente:

– Vá ao meu consultório. Pegue a máquina que está lá na estante.

– Pra quê? – disse eu.

– Apenas faça.

Fui até lá sonambulando e voltei com a máquina de escrever a me pesar. Já não arrastava mais os chinelos.

– Coloque-a aí em cima da mesa.

Obedeci.

– Agora pegue uma folha em branco e coloque na máquina.

– O que que foi, pai? Por que essa cara?

– Meu filho… venha, tome café.

Ele foi ao fogão, fritou um belo ovo para mim.

Gosto de ovos fritos com gemas duras. Tomei café e comi pão com ovo. Estava delicioso. Já podia segurar com firmeza os chinelos nos meus pés.

– Você está aprendendo a datilografar, não está?

– Tô…

– Isso é bom, meu filho, muito bom.

Ficamos calados bebendo café. Meu coração estava a mil. O relógio da sala pendulava com calma.

– Eu vou me matar.

Tic-tac, tic-tac…

– E preciso da sua ajuda.

Meus olhos tremeram. Só conseguia olhar para a máquina de escrever.

– Vou me jogar na frente do primeiro carro que encontrar na rua. Só restará um corpo caído no chão. Antes quero deixar uma carta datilografada por você e assinada por mim. Ande! Vá até lá e escreva. Vou cantar as pedras. – disse num misto de ironia com sarcasmo. – Você não me ouviu?

Fui até a máquina, sentei-me à sua frente. Meus olhos já não tremiam.

– Escreve aí: “Eu, Lúcio Fernando Viera…”

À medida que ia escrevendo, perdia uma parte de meu pai. A cada letra, a cada palavra que surgia no papel branco, lá se ia braço, perna, orelha, olhos, tronco dele. Ele exauria pouco a pouco, assim como as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Assim que terminou de ditar, cobrou-me o papel e o assinou com sua caneta de ouro e suas inicias LFV.

Fomos à rua. Como já havia dito, cidade do interior, pouco movimento, principalmente aos domingos de manhã. Apenas o cantar dos galos e o sarará dos passarinhos. Alguns minutos já haviam se passado quando avistamos um carro vindo pela rua. Estava a quarenta por hora.

– Não, esse não, eu preciso de um caminhão. Se me jogar na frente desse, o máximo que me acontece é quebrar alguma parte do corpo. Darei mais trabalho do que se estivesse morto. Assim eu não quero.

Passamos por uma mercearia. Nela havia pão. Meu pai comprou alguns. Parleou bastante com o dono, parecia ser seu paciente. Acho que sofria de diabetes. Ao voltarmos, avistamos um caminhão seguindo pela rua. Tive ânsias de vômito. Ele parou uns cinco metros antes de passar por nós. Meu pai olhou para mim e deu o seu sorriso mais alvo. Ao chegarmos em casa, tomamos outro café, agora com pão fresco. Disse-me, limpando a boca suja de margarina:

– Quer saber de uma coisa? Rasgue aquela carta. Não quero mais morrer. Deixarei que o destino se incumba disso.

Corri à gaveta onde havia guardado o papel e o rasguei em pedacinhos. Não satisfeito, joguei os fragmentos na privada e dei descarga.

Olhei para o meu pai. Nunca o tinha visto tão bonito. Tive uma sensação estranha, parecia estar vendo um fantasma. Estava de preto, vestido de luto. Abracei-o forte, feliz e comovido. Sentia suas carnes e pressentia seus ossos. Mas para mim ele era um espectro.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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