Para os Fortes

Para ler ouvindo Spanish Caravan, The Doors.

Com esse sorriso lindo que você tem, me responde sobre alegrias, gozos e dores sempre com esse mesmo semblante leve. Uma doçura na voz quando me fala sobre Winnicot, educação, crianças ou desabafos da vida, de amores de amigas de amigos e de como as pessoas se portam no trânsito.

Você logo e simpaticamente pergunta sobre se percebo que tenho algum vício de linguagem e o que eu acho disso. Fico sem entender, e logo você diz: “vou te passar um contexto”. A verdade é que me perco porque percebo que eu adoro a palavra contexto. É uma das minhas palavras preferidas, e eu nem sei o que está no dicionário, mas acho que carrega dentro de si um mundo. Todo um contexto. Como se para contextualizar, fosse necessário criar um cenário inteiro e transformá-lo em palavras para que o ouvinte, leitor, amigo, possa imaginar não só a história, mas que seja trazido para dentro dela, para que seja uma experiência tão vívida quanto se poderia ser.

Sentamos ora no chão, ora no sofá laranja saturado com um dos assentos comido pela cachorra média amarelada (também saturada) que – pode parecer mentira mas – sorri quando está feliz, e que habita comigo no apartamento e na alma, com quem divido a cama todas as noites nos últimos anos e me acompanha emocionalmente nos altos e nos baixos sempre me acolhendo. Ainda no meio da tarde de um dia de semana, esperávamos aquela gota e meia de LSD fazer efeito – porque afinal achávamos que só meia não daria nada –, com frutas e castanhas esperando caso sentíssemos necessidade de experimentar também o sentido aflorado do paladar.

Eis que interrompo seu pensamento como sempre, pedindo perdão por interromper, o que faço apenas para poder novamente ver seu sorriso doce nascer no seu rosto – sempre tão transformado e também sempre o mesmo -, porque sei que você sempre perdoa, tamanho coração que tem. É que preciso te contar sobre o quão profunda é a palavra contexto, e como já tinha me dado conta disso outras vezes mas nunca tinha estado com você pra poder compartilhar, aquilo se tornou urgente – porque sei que há espaço-tempo-palavra entre nós para que eu finalmente me faça entender e como é redentor me fazer entender sobre a importância da palavra “contexto”.

Logo me satisfaço por me fazer entender e peço para que você siga suas divagações anteriores à interrupção. Sabia que isso ia acontecer de você não lembrar onde estava, e tentamos em conjunto refazer os passos do pensamento. Em vão. Vida que segue.

O tempo dá a impressão de estar sendo distorcido – e nós a recebemos, a impressão, de braços abertos. Logo pergunto se você acha que exageramos em termos adicionado uma gota à meia que já havíamos ingerido, mas logo sou dissuadido por seu argumento ilógico sobre como é aniversário de morte do Jim Morrison e que por isso estava tudo bem.

Eu, que sou místico e te carrego junto pra dentro do misticismo, tento descrever minha sensação que é de estar jorrando não só sangue mas prana para dentro do meu terceiro olho – que depois viria a descobrir o nome Sânscrito Ajna –, e dessa vez sinto que fui longe demais e não vou conseguir me fazer entender. E quanto mais jorra, mais o tempo parece se distorcer, e meu eu se dissolve no espaço enquanto volto a me deitar no chão e ter a certeza de que: chão, brubi, você, eu, deus, demônios, somos um só. E perco por um minuto ou por dez anos a potência de dizer. É tudo um único oceano.

E eu penso depois, sempre, como é prazeroso poder dividir silêncios. Quero sempre te dizer desses prazeres que dividimos, e você, brilhante, constata que o silêncio é apenas a ausência, e como pode ser prazeroso ou angustiante dependendo de com quem dividimos – inclusive como pode ser prazeroso ou angustiante dividirmos o silêncio consigo próprio. Novamente me perco em apreço sobre quão delicadamente você vai até o fundo e como damos espaço e carinho para que possamos tanto nos aprofundar.

– Vício de linguagem! Volta. Me contextualiza de novo.

E navegamos novamente mar adentro para mergulhar nesse emaranhado de conceitos e símbolos que celebramos sempre poder compartilhar.

Entre um papo e outro no tecido-tempo rasgado que abrimos com apenas essa gota e meia e muito peito-aberto, me desando a falar sobre como acho lindos os apostos. E é dessas palavras que não sei se falamos “apôstos” ou “apóstos” e prefiro sempre a inflexão aberta do acento agudo – o que causa humor não intencional, mas que vejo nos seus olhos.

Nesse emaranhado calmo-furioso de pensamentos-fluxos-trechos-poemas, constato que nada parece nos irritar. Logo digo que apenas o que me irrita são os caretas. Você sempre delicadamente me abrindo pelas arestas me mostra que há careta em mim e que é por isso que me irrita. Logo entenderia que eles, os caretas, pararam de me irritar por saber que há isso dentro de mim mas também por não mais conviver com eles.
Exceto os da família, mas que também aprendi – com você – a ironizar. O que gasta pensamento, mas economiza coração.

Sem nem piscar os olhos, reparamos entre um silêncio compartilhado e outra gargalhada que já é noite faz tempo. Logo, você começa a colocar a meia e já sei que é o começo do fim e que, logo, o tecido outrora rasgado rapidamente começa a se auto-costurar.

Em breve, sei que você vai embora, e a costura que praticamos firma mais a corda invisível que une um peito ao outro.


Mateus Mecunhe é um rapaz, 30 anos, se encontrando entre yoga e programação (que são muito mais parecidos do que se pensa).


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