Histórias que nos contam sobre o que vivemos

Muitos traumas traremos dessa pandemia que já ceifou mais de 20 mil vidas brasileiras. Esses números, que representam pessoas e, portanto, afetos, são agravados pelas escolhas genocidas de um governo alçado ao poder por um sistema e um conjunto de decisões políticas de exceção tomadas desde o golpe de 2016. Muito provavelmente, daqui por diante será um longo período em que deveremos superar a chaga do ceticismo político cada vez mais agravado, o que fará com que o atual sistema dê passos cada vez mais largos em direção ao seu colapso. Por outro lado, o impacto dos dias em que vivemos nas relações sociais ainda são imensuráveis, não sabendo qualquer psicólogo, antropólogo ou pesquisador em área adjacente explicar se o medo da contaminação por organismos invisíveis afetará a forma como trocamos afetos.

Fato é que outros graves acontecimentos envolvendo cataclismas políticos ou a morte de dezenas de milhares de pessoas já destruíram, outras vezes, as relações políticas e pessoais de povos assim marcados.

Especializada em contar a memória dos povos eslavos que integraram a União Soviética, a escritora Svetlana Aleksijevich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, conta em “O Fim do Homem Soviético” que, após a queda do socialismo real do leste europeu, os cidadãos desses regimes – sobretudo o mais autoritário e distante deles, o soviético – encontraram-se numa Europa à qual não pertenciam, e igualmente já não estavam mais sob a tutela do Partido Comunista, sob a qual nem queriam estar.

Portanto, uma identidade própria foi criada a partir daí, que resultou no nacionalismo russo liderado por Vladimir Putin, equidistante em relação às democracias europeias ocidentais e ao Governo socialista. Ao povo, foi legado um conjunto de relações interpessoais marcadas pelo esvaziamento do paradigma da solidariedade do regime anterior, sem igualmente a liberdade e a individualidade ocidentais. O russo é um europeu sem ser, que vive uma existência do passado no presente e não vê plenamente seus direitos nem suas liberdades conquistadas.

Outra autora, Chimamanda Ngozi Adichie, rememora em “Meio Sol Amarelo” a cisão ocorrida na Nigéria nos anos 1960, quando o povo haussá do Norte do país exterminou a parte da etnia minoritária ibo, do Sudeste, que vivia nas terras haussás. Ante o silêncio dos iorubás, do Sudoeste, outro dos três principais povos nigerianos, os ibos declararam uma guerra de independência para criação do estado do Biafra, apoiado pelas petroleiras francesas que tinham interesse em negociar melhores preços pelo petróleo local. O resultado de dez anos de conflito fratricida foi um país em que, até hoje, as relações norte-sul são marcadas pelo medo, não se aproximando ibos e iurobás dos haussás. Muitos desses, por sua vez, organizam-se não em torno do Estado, mas de organizações de base islâmica e, por vezes, fundamentalista e terrorista, como o Al- Shabab e o Boko Haram.

Duas histórias para contar que o trauma, seja pela desorientação política, seja pela marca da morte na vida das pessoas, é responsável por criar um conjunto de novas relações sociais, as quais modificam o cotidiano de um país. No Brasil, ambos os transtornos ocorrem de forma concomitante, um agravando o outro, de modo que a incerteza para os anos 2020 no Brasil pode se tornar apenas comparável à da Alemanha no pós Primeira Guerra, gripe espanhola e crise econômica de 1929, que da completa desorientação social e política resultou na ascensão do nazismo.

Para tal reflexão, é recomendável o filme “O Ovo da Serpente”, do cineasta sueco Ingmar Bergman. Nele, conta-se a história de um artista americano que vai à Alemanha em busca do irmão e presencia a falência da sociedade local, ao mesmo tempo em que a ascensão de Hitler é contada, sem ser mostrada, pelas palavras das personagens que o protagonista encontra no seu caminho. Tal linguagem incita no expectador a reflexão sobre o sentimento alemão que gestou o nacionalismo autoritário e genocida.

Seja pelas letras ou pelas imagens, a narrativa constitui ferramenta, assim como a história, para reflexão do presente e construção do futuro. Que os exemplos de perda identitária e desorientação nacional, de violência fratricida e de desespero pela escassez e fome nos permitam pensar caminhos para o Brasil que evitem as experiências ruins já vividas, ainda que sempre nos possa escapar a outra realidade, ainda não experimentada.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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