Sobre Ser

Me recordo do dia em que li Bauman pela primeira vez. Como boa universitária, estabeleci uma breve biografia e, com marca textos e canetas, fui rabiscando as folhas na busca do objetivo, problema e argumento central de sua reflexão. Nessa leitura metódica (que é significativa para minha absorção), fui, ao contrário de digerir, sendo digerida pelo seu conceito chave – a saber, o de “modernidade líquida”. Digo isso pois me reconheci nesse emaranhado de dissolução social.

O processo de reconhecimento chegou acompanhado de memórias que, inflamadas, me retornavam a crença gênese de minha vida: a fé que nutri já havia me alertado, antes de Bauman, Certeau – com o seu não-dito e lugar de fala – , antes até mesmo de Orr, Kuyper, Dooyeweerd (esses últimos três são autores teólogos cristãos que se debruçaram em suas respectivas temporalidades a pensar Cosmovisão cristã), enfim. Neste mesmo movimento, estive recheada de experiências que tinham por necessidade dialogar com todos os âmbitos que coloco os meus pés. Eu PRECISAVA expandir minha concepção sobre integralidade.

Observando as potencialidades do que chamei de ser integral , vasculhei, para além do campo teórico, indivíduos que, mesmo submergidos em seu tempo, corresponderam ao espaço uma atuação e narrativa que contemplava tudo aquilo que os formava enquanto tal. Encontrei essa biografia aqui:

– “The life of Martin Luther King Jr. was painfully short but joyously valuable. Using non-violent direct action and the principles of Christian love, King became the most influential pioneer of the civil rights movement in the United States of America. A husband, father, pastor, and leader, King preached a message of hope by taking to the streets and changing the world.”

(Martin Luther King Jr. A Life from beginning to end)

Se um dia King foi uma figura desconhecida para mim, não me lembro. Mas ao analisá-lo intencionalmente pelo prisma da integralidade – ou seja, de sua atuação que correspondia a tudo o que o formava -, emancipei-me da dissolução líquida que tanto me preocupava. A compartimentalização excessiva entrou em pane, atingindo junto com ela tudo aquilo que me fazia compartimentalizar: a ideia de profissionalismo, aceitação, etc.

A demanda pela novidade sempre partirá de um vislumbre social idealizado por nós. Às vezes, vem acompanhado de certa esperança que, ainda que utópica, não é esvaziada de sentido e função; no entanto, quando essa característica atinge um movimento e atitude cíclica de descarte/consumo (sobretudo quando em diálogo com o capitalismo, passando a desaguar nos grandes centros econômicos a partir da linguagem da tecnologia, moda, etc.), compreende-se a fragmentação do ser humano. Apenas fragmentado, ele pode alimentar absurdos. Quando se dispõe a sua integralidade, o ser humano é confrontado por sua própria trajetória.

Assim, abracei o que sou integralmente. Cristã, historiadora em formação, líder de adoração em uma comunidade de fé, social democrata, feminista, enfim. Plural.


Gyovana Machado é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja.


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