25. O arrependimento, ainda que tardio


Eu não acredito em aplicativos de namoro. Quer dizer, não acreditava. Até bem pouco tempo atrás, eu não acreditava. Mas aí veio essa pandemia, veio o distanciamento social, as pessoas com medo de saírem de casa; e assim, tive que me adaptar. Meu pai faleceu um mês após o aparecimento da COVID-19 no Brasil, vítima da doença. Eu não pude acreditar naquilo, não conseguia imaginar que uma pessoa como ele poderia vir a falecer dessa doença que imaginara que fosse uma pequena gripe. O nosso presidente da República havia dito que o novo coronavírus não era letal. Eu acreditei. Começo a duvidar que ele tenha condições de governar nosso país. Tantas mortes espalhadas pelo mundo, estados em condições de calamidade, o país mergulhado numa crise sanitária sem precedentes, e ele preocupado em armar a população, em se enfiar no meio do povo gerando aglomeração. Fui um entusiasta de sua candidatura, achava que ele poderia resolver. E agora me pego órfão de pai e de mãe, falecida há 5 anos, e flertando com uma garota de esquerda no Tinder. Não sei o que me levou a fazer isso. Acho que me comoveu profundamente o fato de a mensagem de apresentação dela no aplicativo ter uma frase da carta de suicídio de Flávio Migliaccio: “A humanidade não deu certo”.

Quando fiquei sabendo da morte de um ator de 85 anos, que comete suicídio com uma carta tão forte quanto a que foi publicada, tive uma sensação horrorosa. Os segundos se tornaram mais longos, sentia o sangue correr pelo meu coração, tentando entender como uma pessoa nesta idade pode vir a fazer isso. Será que estamos realmente deixando de ser sensíveis às causas humanas? Estava em meu apartamento de quarto e sala, sozinho como sempre, comendo uma sobremesa num pequeno pote de aço inox, deixando-o sobre a mesa da sala assim que soube da notícia. Estava atônito, e olhei para minha imagem refletida e invertida na lateral do pote. Era como eu me encontrava; estava sensível. Havia perdido meu pai há quase dois meses. Era muito triste tudo aquilo, muito triste. E a mensagem continuava: “Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje!”.

Estava tão carente, tão necessitado de um ombro amigo (e, quem sabe, algo mais) que não resisti e baixei o aplicativo no meu celular. E encontrei a Ana, cabelo de fogo, boca carnuda, olhar expressivo, vivo e ardente, como aquelas mulheres que não têm medo de ir à luta, que encaram a vida de peito aberto. Já conversamos bastante, trocamos fotos. Ela é muito inteligente, mas muito defensora das ideologias de esquerda. Detesta o presidente. Eu fico calado. Não quero promover a discórdia com ela. Estou curtindo ela. E, ao mesmo tempo, não estou muito mais à vontade defendendo as ideias do nosso presidente. Ana é escritora, defensora fervorosa da cultura nacional, da diversidade brasileira. Acho que estou gostando dela, pois me peguei apagando postagens antigas em defesa do nosso presidente. Acho que ele está merecendo também. E eu quero ser feliz. Hoje o medo de perdê-la é maior. Perder o que eu ainda nem tenho! Vejam só o quanto esta quarentena não está me fazendo bem. Enfim, prefiro uma Ana na mão do que dois presidentes voando.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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