O Meu Amigo Sebá

Passeando pela internet nos últimos dias, deparei-me com adolescentes perguntando uns aos outros com qual idade eles pretendiam casar e ter filhos. Aquilo me fez lembrar do meu amigo Sebá.

Nos conhecemos há exatos dez anos, quando eu era estagiária em uma editora, estava com 21 anos e estava prestes a acabar a faculdade. Ele, cerca de 13 anos mais velho, era uma pessoa maravilhosa, mas não tínhamos nada em comum exceto o fato de que ambos amávamos caranguejo, e assim que surgiu uma linda amizade.

Durante anos, todas as vezes que saímos juntos fomos comer caranguejo, tomar cerveja e conversar sobre a vida. Sempre tivemos hora para chegar, mas nunca para ir embora. Entretanto, por muito tempo, mesmo amando as conversas com Sebá, eu tinha vontade de lhe dar um belo tapa na cara todas as vezes que eu terminava de desabafar sobre a minha vida, porque, inevitavelmente, ele sempre, sempre me olhava, dava um gole na cerveja e dizia: “você ainda é muito jovem, Karina, ainda tem muita coisa para aprender.”.

Aquela frase me tirava do sério e nos levava a longos debates. Enquanto ele tentava argumentar com a sua longa jornada vivida, eu tentava mostrar que, apesar da pouca idade, já havia ganho grande experiência de vida. É fato que todas as vezes Sebá era quem ganhava as discussões, mas eu sempre saia com aquela sensação de “ele não sabe o que eu já passei”. Mas no final das contas, ele tinha toda razão. Eu só percebi isso anos mais tarde e não tive a oportunidade de falar isso pra ele.

A questão é que Sebá casou e, sabe como é, quem vai querer continuar saindo com a amiga pro bar para comer caranguejo e tomar cerveja? Eu entendo! Mas não vou mentir e dizer que não sinto falta. Sebá costumava me falar umas boas verdades, sabe? Daquelas que até ando precisando ouvir. Mas a questão não é essa! A questão é que hoje eu me tornei alguém igual ao Sebá, que olha para os adolescentes e jovens e sente uma vontade imensa de dizer a eles que tudo aquilo é uma grande bobagem.

A diferença é que eu, geralmente, não falo nada, porque eu lembro como é ouvir. Então, por favor, permita-me, em alguma linhas, dizer algumas verdades, queridos adolescentes (lembrando que a adolescência vai até os 24 anos, ok?) e jovens:

Você não vai morrer de amores. Dói, é verdade; mas não mata. Algumas amizades não vão durar para sempre, não importa o quanto você lute. Existem pessoas que não admitem estar erradas, pare de discutir com elas. Você não vai aprender coisas úteis no estágio (exceto em raríssimas exceções), conforme-se e corra atrás. Não existe o emprego dos sonhos (alguns colegas sempre farão o seu dia chato, acostume-se a conviver com eles).

Nem sempre você encontrará líderes pelo caminho, e alguns chefes farão dos seus dias um verdadeiro inferno; mostre a eles que você é melhor que eles. Alguns dos seus amigos vão casar e ter filhos antes de você; aprenda a comemorar com eles cada vitória. Não importa o quanto você planeje, casar, ter filhos, o curso dos sonhos, a vida nunca vai sair como você planeja. Então, meu querido jovem, não adianta sair por aí colocando que você deseja casar aos 23 e ter filhos aos 25, porque, no final das contas, você não tem o controle total da sua vida.

Veja bem, quem diria que hoje, em vez de estar procurando trabalho ou estudando para a faculdade, você estaria aí, em casa, de quarentena, não é mesmo? No final das contas, Sebá tinha razão. Aos 20 e poucos anos, a gente ainda sabe muito pouco da vida.


Karina Mendonça é uma jornalista frustrada, designer cansada e estudante de letras motivada. Desistiu de tentar mudar o mundo e resolveu focar em salvar a próxima geração. 


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