Deus é brasileiro, o papa é argentino, e uns messias…

“Se Deus existe, ele é brasileiro”. Todo mundo já ouviu essa frase em algum momento da vida; mas se Ele é brasileiro, porque temos um papa argentino?!

Eu não resisto a esse pensamento. Talvez pela paixão que tenho pelo futebol, eu não consiga desvincular essa situação como desastrosa. Óbvio que o Papa argentino é pop e tem se mostrado um referencial de como a espiritualidade é capaz, ainda, de ser relevante no mundo.

Penso imediatamente na relação com “American Gods” ou “Deuses Americanos”, que retrata o conflito entre os deuses antigos e os novos, fruto dos antigos que criaram os homens. Ou seja, do homem, que vem do divino, surge algo novo, algo divino.

Fato é que o Papa Francisco entra em cena em um momento histórico onde a instituição se encontra desmoralizada, ruída, mergulhada em escândalos. Onde cada mergulho é um flash na cara de algum integrante da alta cúpula da igreja.

Mas isso não é uma exclusividade da Igreja Católica. As principais religiões do mundo vivenciam a morte de suas crenças e a redução de seu crescimento, o que consequentemente culmina em decadência de suas influências e de suas forças diante da sociedade. Por outro lado, esse fenômeno decadente das religiões, não anula o crescente fanatismo de seus atos; ou seja, quando o calo aperta, a relação passa a ser pela dor (na maioria das vezes).

A prova de que o fanatismo é uma reação à decadência é a existência de projetos messiânicos que tentaram, baseados no cristianismo, criar força para influenciar, dominar, e alimentar suas vaidades. Esse será nosso objeto de análise por hoje.

Antes de dar sequência, quero aqui fazer um adendo: sou cristão desde berço, questionei minha fé, me percebi cético, me reencontrei no amor às pessoas, e hoje sigo a fé cristã, mas entendo que a minha fé está longe da fé que se vive em alguns palanques e prédios.
Esse texto, então, é uma crítica não a crença pura de cada indivíduo, mas um exemplo de como a vaidade, a ganância e a soberba podem arruinar vidas, mesmo que estas estejam travestidas de religiosidade, de amor e de boas obras.

Sendo assim, voltemos ao raciocínio anterior: diversas foram as vezes em que líderes religiosos surgiram com soluções para as mazelas de sua época. Fossem elas a cura para a peste, o alívio pleno da fome e da pobreza ou o convite a um amor puro, verdadeiro e eterno, nesses contextos, os “messias” sempre surgiram.

Alguns, de fato, vieram e mudaram a maneira como o divino interage com mundo. Eles causaram mudanças apoteóticas. Seus escritos transformaram pessoas, influenciaram o pensamento crítico, a auto-estima e a valorização do homem como sagrado. No entanto, em maior força, vez ou outra encontramos na história “homens santos” que conduziram os seus semelhantes, (entenda como subalternos), ao ato mais banal possível: a perda da sua humanidade.

O que estamos dizendo aqui é que não é de hoje que os messias surgem como o que temos em nosso (DES)governo… São invejosos e acreditam que possuem a razão, a verdade, o conhecimento pleno. Eles possuem a solução final.

Com a desculpa de “ser um mensageiro”, Jim Jones promoveu a criação de uma “cidade santa” onde todos seriam iguais, onde não haveria fome nem doenças; no entanto, o que seus seguidores tiveram foi a privação do resto de suas vidas em um “suicídio” ou assassinato em massa de quase mil pessoas em Jonestown, além de diversas outras mortes envolvidas na trajetória do líder.

Marshall Applewhite também conduziu diversas pessoas na crença de que seus corpos eram meros receptáculos. Numa mistura de crenças, prometeu libertar as pessoas das desigualdades terrenas as quais suas almas estavam fadadas a experimentar pois era dito que o corpo humano era um “receptáculo ou veículo” por onde as almas evoluídas pudessem entrar e sair, levando seus seguidores a compreender que era necessário evoluir o espiritual e abrir mão de todos os vínculos terrenos. Tal compreensão conduziu seus liderados a um suicídio coletivo no anseio de que uma nave espacial os levaria da terra para o novo lugar.

Mais outro “messiasse faz presente, afetando não só a vida de seus seguidores, mas tentando conduzir um ataque contra um estado democrático (algo familiar?!). Seu nome, Shoko Asahara. Asahara assume a posição de líder da seita Verdade Suprema e conquista o reconhecimento do governo japonês como grupo religioso. A partir desse ponto, a seita ganhou força, dinheiro e influência na televisão japonesa.

Andando em carros luxuosos, começou a divulgar suas teorias apocalípticas misturadas ao budismo e outras concepções religiosas através de desenhos animados na televisão e mangás, sempre enfatizando a proximidade da terceira guerra mundial e a busca por uma verdade final para a sobrevivência no fim do mundo. Acontece que o medo da guerra nuclear foi diminuindo com a dissolução da união soviética, o que fez com que a percepção deste inimigo comum deixasse de existir. Em sua decadência, a seita parte para a força e realiza dois ataques com Gás Sarin (o mesmo criado pelos nazistas) contra a população japonesa, sendo o primeiro ataque em 1994 e o segundo nos metrôs de Tóquio em 1995.

Todos os referenciais citados alegavam uma vocação messiânica (heróica).

Entramos então em outro aspecto, a questão do mito, e como isso tem se tornado uma cultura maior através dos séculos e em especial, em nosso milênio, o terreno parece incrivelmente fértil para o nascimento de novos “mitos ou messias”.

De acordo com Marilena Chaui,

Para que o mito sobreviva, é necessário o sacrifício, que ordena nossa visão de mundo. Em várias sociedades, o sacrifício de vidas humanas mantinha as relações com a divindade, com o objetivo de aplacar a ira do supremo. Os hebreus, de acordo com o Velho Testamento, ofereciam em sacrifício o melhor de suas criações, geralmente uma ovelha ou cordeiro, porque eram as vítimas perfeitas – as que não reagiam ao sacrifício, daí a expressão “bode expiatório” (aquele que paga pela culpa do outro). A repetição do sacrifício dá origem ao ritual, que é o mito tornado ação. Com a repetição do ritual, nasce a religião.

Sendo assim, temos a ascensão ao bolsonarismo como um movimento messiânico no brazil. O Clássico presidente de uma nação do terceiro mundo que sempre lambe botas do presidente estadunidense nos filmes de ação dos anos 80-90 ao estilo Braddock, Rambo, Soldado Universal entre outros.

Enquanto candidato à presidência, um tal mito passou por um período de risco de vida em um dia de campanha eleitoral, foi atacado e, mesmo estando sob cuidados médicos que o impediam de ir a debates, tem sua dignidade contestada por todos – o que só aumenta a carga messiânica que parece ser destinada a ele por “deus”. Sua base eleitoral cresce, e passa a receber apoio dos “profetas” midiáticos ao buscar refúgio, orientação e consolo,  o legitimando como servo de algo maior, da moral e dos bons costumes. Um simples homem se torna um mártir ambulante. Mas não se esqueçam dos casos anteriormente mencionados: um verdadeiro messias suporta seus fardos, não revida e continua dando a sua vida pela sua crença, sem colocar a vida de outros na “linha de fogo”.

A exemplo disso temos Gandhi, que desafiou uma das maiores forças imperialistas da história, colocando a si mesmo na linha de frente, e não expondo os seus semelhantes. Gandhi assumiu em sua atitude a compreensão de que cada ser humano era seu semelhante e desenvolveu sua satyagraha (Força da Verdade) como combustível para sua rebeldia civil sem violência. Num contexto da África do Sul, lutou para que os casamentos de outras religiões além do cristianismo fosse aceito pela sociedade, criou vínculo com Leon Tolstói, Protr Kropotkin, Charles Freer, além de beber dos ideais de Henry Thoreau. Criou forças enquanto apanhava, era preso e humilhado, sem jamais revidar.

Gandhi mudou a história da África do Sul, mas também transformou sua terra natal, a Índia. Assumiu a culpa por erros dos seus pares, chamou a responsabilidade e dedicou a vida pela liberdade de todos em sua nação.

Outros nomes, como Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Martin Luther King, também foram messias/mitos que transformaram suas nações, se esforçaram pelo bem comum. Essas são histórias que abordarei em uma série chamada “Mitos de Verdade”.

Quero encerrar esse texto compartilhando a respeito de um MITO-MESSIAS, um ser que vive em outra realidade, uma criança em seu “fantástico mundo“. Não, ele não luta por seus semelhantes, luta apenas por aqueles que se submetem a sua visão de mundo, sua crença. Opta por expor todos os seus “devidos semelhantes” a um vírus que tem paralisado até às nações mais poderosas, desfigurado uma sociedade, construindo uma rede de mentiras e colocando como vítima.

Um mito aceita seu destino de martírio, entrega sua vida e não aceita receber nada em troca; sofre humilhações e apenas entrega a outra face; vê o sofrimento ao seu lado e se compadece; chora; se desespera em aliviar o sofrimento e trazer justiça aos outros antes de buscar qualquer benefício. Esse mito, ele ainda não se encontra em nossa realidade, não aparece nos dias de hoje.

Desconfie de um messias que não se importa com os que ficam pelo caminho, com aqueles que perdem a vida. Desconfie de alguém que prefira alimentar os seus pupilos ao invés de alimentar a multidão.

Um verdadeiro MITO-MESSIAS nunca se reconhece como um escolhido; alguém assim só tem potencial para trazer desilusão, caos e destruição de tudo que é divino, de tudo que faz Deus ser brasileiro, o papa ser argentino. Um messias não busca a destruição. Nem te convence que é bom mandar matar e ainda celebrar a morte do assaltante como um ato bondoso.


Kariston França é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.


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