As Mulheres de Viola

A realidade dos personagens de Viola Davis

Uma mulher negra, com tudo para não ser levada a sério por uma sociedade em peso racista, machista e sexista. A realidade de Viola Davis se moldou em cima da formosura de uma grande mulher, revolucionária, mãe e atriz – adjetivos esses que várias mulheres anônimas trilharam, trilham e trilharão de modos únicos. Suas personagens são construídas de um suor de anos de trabalho duro, afirmando suas qualidades – que foram subjugadas por sua cor de pele, seus traços, seu cabelo, seu gênero. Mesmo hoje, aos cinquenta e quatro anos, seu brilho vem em abundância. Um prêmio atrás do outro, um reconhecimento de anos. No entanto, o que temos de Viola em suas personagens e o que temos de personagens na Viola?

A construção das narrativas vem se alterando ao longo das décadas, sim, isso é um fato. Porém, as mulheres negras só agora estão deixando os papeis mais simplórios do cinema para ocupar cargos de destaque ocupados por suma maioria branca. Nossas atrizes negras estão sendo evidenciadas cada vez mais. Mas como isso interfere na nossa forma de consumir uma história? Basicamente, ganhamos com isso. Uma sociedade mais tolerante e resistente aos extremismos que ouvimos e vemos até mesmo nos tempos de hoje, pois o acesso ao conhecimento e cultura se expandiram como nunca nos últimos 30 anos e a previsão é de que esse crescente se mantenha.

Mulheres superpoderosas

As personagens de Viola Davis sofreram com o tempo e o valor do reconhecimento mercadológico. Este, por sua vez, adveio do esforço de outras mulheres que também foram revolucionárias como Zoë Saldaña, Octavia Spencer, Whoopi Goldberg  – que fizeram um grande barulho com qualidade e, mesmo quando sem intenção, com rebeldia.

Além dessas, muitas outras:  Hattie McDaniel, Josephine Baker, Ruth de Souza e tantas mais. Atrizes, cantoras, mães, trabalhadoras e donas de casa, da parte mais rica até a parte mais pobre deste mundo, fazem parte deste movimento há décadas. Mas o que essas mulheres têm em comum umas com as outras? Não só a beleza – que aqui se aplicam, sim, os padrões da moda -, mas também histórias, sonhos e um mundo para conquistar todos os dias.

As mulheres negras sempre tiveram problemas maiores que os detalhes sobre roupas e maquiagem de muitas de suas contemporâneas brancas em diversos momentos históricos. Existe muita luta, mas daquelas que levam à vitória. Muito ainda há de ser feito, mas mesmo assim, temos a oportunidade viver em um tempo no qual essas conquistas são visíveis. E não só podemos ver, como também podemos apoiar; não precisamos ser negros para saber que a luta carece de parceiros dos mais diferentes tons para pararmos esse racismo que afeta a todos em nossa sociedade.

Viola e Suas várias facetas

Viola deixa em seus personagens uma marca única, traçada por uma linha tênue entre sua vida pessoal, não pública, e sua forma de enxergar o mundo como atriz, tantas vezes publicizada por ela. Sendo assim, mesmo como a ideia pré-disposta pelos roteiristas e diretores, ela se arrisca para extrair o melhor de seus papeis e, com honestidade e com sabedoria, replicar suas experiências pessoais na trama, se expressar como mulher negra em seus papeis e legitimar seu lugar pelo ponto de vista da qualidade do seu trabalho, se encarregando de trazer nele alto nível de engajamento social. Em uma conversa com Tom Hanks para a revista Variety, Viola diz:

“… Há um medo, penso eu, de lutar pela sua vida. É assim que eu chamo, sabe?! Quando um pai morre, eu não sei, divórcio. Sempre que você esteve nesses momentos na vida, quando sente que a próxima parada é a morte. Esse é o lugar assustador para estar. A única vez que você pode ir até lá é se alguém te chuta trás e eles estão realmente te chutando para dentro daquele lugar.” 

Viola Davis, de forma empírica, constrói seus personagens em cima de caracteres existentes nas mulheres lutadoras, dentro dela mesma, lutando pela própria sobrevivência. Viola consegue explorar as virtudes e fraquezas da psique humana vista e vivida por um ponto de vista único, por ela e sua família, e também adereçar a problemas culturais e sociais de tamanhos catastróficos.

Essas vivências, que não são totalmente consumidas em vida real, são respeitadas em sua encenação realística da subjetividade dos personagens. Dessa forma, Viola traz uma vivência duplamente real e transformadora para si e para todos que veem seu trabalho nas telas das várias mídias em que ela se encontra.

Presente, passado e futuro

Em 1940, a saga das mulheres negras por espaço no audiovisual começa a aparecer nas mídias. Neste ano, foi concedido o primeiro Oscar da história a uma atriz negra – Hattie McDaniel, atriz coadjuvante em ‘…E o vento levou’. Hoje, oitenta anos depois, algumas lutas mudaram, mas a maioria delas – como essa – ainda continuam. A própria Viola Davis conta que passou fome, sofreu com o racismo e que sua qualidade artística foi posta a prova mais vezes do que se pode contar.

Ainda assim, apesar de terem o mundo contra si, elas chegaram lá. A palavra que mais descreve essas mulheres que aqui me refiro; a todas que lutaram, lutam e ainda lutarão, essa palavra é ‘resiliência’, a persistência de acreditar naquilo que se acredita mesmo quando tudo parece perdido. Uma força que vai além da realidade.

Viola Davis também fez história por ser a primeira mulher negra a ganhar um Oscar (atriz coadjuvante, por ‘Um Limite entre Nós’), um Emmy (melhor atriz em série dramática, por ‘How To Get Away With Murder’) e dois Tony. Isso é resultado direto da forma única como a atriz leva seus personagens, desde de seus papeis como empregada até uma advogada bem-sucedida; isto é, servindo atuação de alto nível técnico, e com a sensibilidade que só uma mulher com vivência poderia trazer.

Viola conta que o erro sempre rodeou sua cabeça, mas o medo de errar era menor do que o medo de dar certo. E não só vencer a si mesma, se proporcionar uma grande vitória; vencer uma opressão social sistêmica. Saber que suas vitórias, enquanto dependendo de si própria, de sua garra, poderiam mudar todo o contexto de uma vida ou talvez de várias. 

As mulheres de Viola, suas personagens, suas facetas; elas são um mix de inspirações e experiências da vida real da sua atriz, que transcende os textos e se perpetua nas mais variadas telas e nas mais formosas formas de ser Viola.

Uma mulher. Negra. Que se deu o direito de sair do anonimato, quando o que a sociedade faz é tentar silenciá-la, para falar de seus sonhos, medos e fraquezas. Que entendeu que o mundo era o seu lugar e não deixou que as dificuldades do início de sua vida nem as negações que enfrentou a desanimassem de buscar a vida que quis como atriz, mãe e todas as coisas que ela quiser ser neste mundo. Talvez um dia, quando Viola se despedir deste mundo, ela consiga também o mais lindo dos feitos humanos: sua transcendência.  


Ezidras Farinazzo é professor, mestrando em Artes, Cultura e Linguagem na UFJF e Co-Founder do estúdio de animação El Torito Studios.


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