24. O Reverso do Vírus


Leu outro dia em uma matéria num site desses que gargalhar produz mais rugas que chorar. Ficou pensando: mesmo feliz, você se ferra de qualquer jeito. A vida é isso. Um poço de contradições. Ela nos ensina que não podemos medí-la com régua e compasso. Não é uma ciência exata, não nos proporciona a sensação racional de quem tem o controle sobre si mesmo e sobre tudo que o cerca. E assim ele vem refletindo sobre si mesmo, como uma grande gargalhada rugosa na cara. Já estava há oito semanas isolado do mundo, ele e sua esposa, ouvindo os noticiários aterradores sobre a tal COVID-19, sem poder ver amigos, parentes, colegas de trabalho, em regime de home office, assim como sua mulher. Dessa forma, viviam um pelo outro, um para o outro, intercalados com seus pequenos afazeres diários e suas rotinas cotidianas: lavar vasilhas e roupas, arrumar a casa, fazer comida, beber, comer, trabalhar, estudar, ler e dormir. Comer aqui, na linguagem mais chula e usual, em seu amplo sentido. Se é que me entendem! Ao mesmo tempo em que dia a dia se entendiam mais e mais, o coitado do homem vivia um grande e complexo dilema: como sobreviver nessa distância social tendo uma amante? Pois é… o pobre rapaz possuía uma amante. E o pior de tudo, era que ele começava a se apaixonar por ela quando a quarentena foi implantada em sua cidade. Como ela era linda! Como era gostosa! Boa de cama! Um vulcão que eclodia em suas entranhas. E ele gostava disso, desse frisson, desse tumulto interior. Seus amigos, seus irmãos, seus pais, suas tias e seus tios eram encantados por sua esposa. Também linda! Também gostosa! Também boa de cama (se fosse, claro, estimulada a isso, uma vez que sua tradição religiosa a fez recatada o suficiente para achar um papai-mamãe o bastante para os prazeres carnais)! A quarentena então chegou e, com ela, o confinamento. E as mensagens de texto via redes sociais não pararam na primeira semana entre homem e amante. Ao mesmo tempo, ele e esposa interagiam, se conheciam, viviam realmente o dia a dia em sua mais intensa filigrana, com todas as nuances e detalhes que é viver consigo mesmo. Quase que um intensivo de si para si, só que na presença de outra pessoa. Casaram-se havia um pouco mais de um ano. E aquela era uma oportunidade única de se entrelaçarem de fato, sem perderem o foco um do outro e de si mesmos. Assim, ele começou a perceber os detalhes que a cobriam, no rosto que se iluminava num sorriso, em seus cabelos sedosos e cheirosos, em sua pele rija e macia, na sua inteligência genuína e ingênua, daquela de crianças-prodígio que não sabem o que fazem e transformam em espontaneidade a atmosfera que as envolve. E com a amante era o frenesi de um falo, a languidez de uma glande, os sensuais lábios que guardam o fruto proibido, sendo preenchido por tórridas conversas e trocas de imagens. Ah… que sensação agradável. Ter duas. As duas em uma, num consórcio perfeito com sua consciência. Mas as semanas se preencheram, os dias se tornavam noites e as noites viraram berços de Eros. E a esposa virou-se do avesso, se tornou arremedo de messalina, dançando nas regiões erógenas do cérebro do marido, trancafiando-o em suas tenras e grossas coxas de cor terracota. Dessa forma, a amante perdeu espaço em seus laços afetivos, porque foram todos preenchidos pela sua deusa de ébano, que era assim que ele a chamava depois da quinta semana reclusos em seus círculos viciosos de convivência. E, neste momento, neste exato momento em que pensa sobre rugas e risos, também pensa no vírus e, inadvertidamente, assim como gargalhar produz rugas (algo culturalmente negativo), a COVID-19 salvou seu casamento, num processo invertido que transforma algo ruim em um fato positivo. Pega seu celular, dispensa a amante e a bloqueia de todas as redes sociais que os ligam. Porque já não é mais necessária essa corrida em busca de mais, sua esposa já é tudo que ele precisa que seja. Levanta da cama, vai até a cozinha, de onde exala um cheiro delicioso de café, abraça a sua mulher com as mãos enfiadas em suas nádegas e lhe dá um beijo. E pensa: é ali que ele deve estar, senão para sempre, pelo menos enquanto durar a vida.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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