Sobre resistência.

Entrevistado: Sr. Cacique Urutau.

Entrevistador: Bruno Kaiuca.

Data: 29/03/2020.

Local: Aldeia Maracanã/Rio de Janeiro

Ouça a entrevista completa

1. Bruno Função na Aldeia Maracanã

Resposta. Cacique.

2. B. Como o novo Coronavírus alterou a rotina, e economicamente, você e sua aldeia?

R. Nos pegou de surpresa. Nós tínhamos toda uma programação. Nós estávamos fazendo, todo final de semana, eventos para angariar fundos. A gente sobrevive exclusivamente através do artesanato de arte que nós produzimos aqui na Aldeia; então com o trancamento das escolas, das organizações, das universidades, a principal forma de ganhar dinheiro, de sustento, foi drasticamente fechada, foi, por completo. Em relação ao isolamento, vem a piorar, por que não é possível sair para venda, nem sequer dá para sair. Nós estamos produzindo internamente, mas como fazer o escoamento? Isso não tem como. Isso afetou diretamente.

Quem tem salário, pessoas comuns, podem ficar [isolados] por um tempo e vai receber, com juros. Mas, no nosso caso não, no nosso caso foi completamente vedado toda a forma, a única forma, de ganhar dinheiro do sustento. Estamos sobrevivendo com a ajuda de amigos; são muitos amigos, as pessoas das universidades, professores, pesquisadores, estudantes que participavam das atividades contínuas da Aldeia Maracanã, estão se mobilizando. A gente consegue comprar o básico para a sobrevivência.

Já era precário, a Aldeia Maracanã, depois da retomada de 2016. O Estado, para justificar a violência, a truculência contra nós, populações originárias, moradores da Aldeia Maracanã, que aconteceu dois megaeventos: Copa (2014) e Olimpíadas (2016), então foi aquela guerra, aquela truculência. Na retomada de 2016, isso aqui era tudo concreto, asfalto e retirada toda vegetação, todas as árvores centenárias que aqui tinha. Como você vê, já era estacionamento, então a partir daí nós começamos a comprar água, ficamos sem água, sem luz, sem sistema de esgoto. Tivemos que nos adaptar a tudo isso, nos adaptar a toda essa precariedade, essa falta de estrutura básica para sobreviver. Mas é a resistência, temos que resistir, e aos poucos fomos moldando, refazendo com a ajuda de muitas organizações.

Compramos uma caixa d’água, aí passamos a comprar água, já que o Estado nos tirou a água. E começamos a cavar um sistema de esgoto, alguma água fluvial. E a água potável, a gente compra.

3.B. Toda a história de vocês é importante, mas gostaria que focasse no momento atual.

R. Toda essa questão, essa praga dessa pandemia, piorou tudo, mas nem assim nós desistimos. Se a gente desistir, o Estado vem e assume. É o que o Estado quer. Certamente com confinamento a gente até evita de receber pessoas que não estão frequentemente por aqui. E o medo né, o Estado nos causou medo, mas realmente é um vírus muito cruel, muito fatal. O Brasil ainda não está preparado.

4.B. O Senhor tem quanto anos?

R. 60 anos.

5.B. E que tipo de ajuda vocês precisam no momento, pontualmente?

R. Como aqui são famílias – nós temos 5 famílias, embora só 3 tenham filhos, algumas famílias são casais, outras etnias, enfim; todas produzem arte. Uma coisa bacana que a gente tá vendo, não fizemos ainda, é como escoar essa produção via satélite, via internet, sem ter que sair da Aldeia Maracanã. Então aí entrou um grupo de professores, amigos nossos, parceiros, pessoas que já nos ajudavam, que estamos vendo essa questão de vendas por internet, sem ter sair daqui. A produção existe, nós temos arte, não paramos, a gente continua produzindo nossa arte. A única coisa é o trabalho nas escolas, levar a arte para vender para professores, estudantes e pesquisadores. Nesse momento, estamos vendo a situação de como vender sem precisar sair daqui. Então isso [vender via internet] é uma coisa boa, que os professores estão simpatizando, até alguns estão comprando, sendo solidários, sabendo que não podemos sair daqui e todas as organizações estão fechadas, todo o comércio, praticamente, e estão vendo essa ferramenta de venda pela internet pra ver se minimiza um pouco a falta das organizações, das escolas.

6.B. Mas pontualmente, o que tem precisado? Comida? Material de Limpeza?

R. Nós temos feito compras grandes, principalmente de comida, material de limpeza e material de higiene pessoal. Na Aldeia, como você vê, é muita poeira, é muito insalubre devido estar aberto, o asfalto, pó. Isso já ajuda contrário à nossa saúde, porque respirar esse pó o tempo todo é cruel. Ao mesmo tempo, como você vê aqui, é um ar fluente, direto, é aberto, não tem ambientes fechados. A própria cozinha é toda aberta. Diferente do confinamento em apartamentos. Fazemos compras aqui do grosso, material diariamente que a gente come, arroz e feijão, café e açúcar, o básico.

7.B. Vocês recebem doações, elas diminuíram?

R. Diminuíram, mas o apoio externo via internet deixou as das pessoas que estão em casa mais atentas com a Aldeia Maracanã.

8.B. Vocês esperam alguma coisa do poder público, nesse momento? Vocês devem ter visto que foi liberado uma verba para famílias com filhos, de até 1.200,00 reais, e de 600 reais, em outros casos,.

R. É, eu até cheguei a ver na televisão. Agora, outra coisa é como isso vai chegar.

9.B. E isso é suficiente?

R. Não, não é. Porque a gente tem despesas, também. Apesar de não ter luz, a gente tem que usar a ferramenta de comunicação para venda do artesanato, para negociação, para entregar um artesanato, uma coisa assim. Então a comunicação, a gente tem que ter isso, e tem um custo. Água, esses custos todos, a gente tem que arcar. Tem alguns apoiadores, que asseguram parte dessa água, mas água é caro de a gente comprar. A gente tem duas caixas, além de vários galões pequenos, mas essa verba que o governo vai oferecer, por dois ou três meses só, não vai suprir, porque o vazio desses meses que vão vir agora, as pessoas vão ficar temerosas. Até mesmo de voltar às atividades, de começar a vender a nossa própria arte. Então acho que vai demorar bastante tempo [pra tudo se organizar] com o que o governo oferecer e a gente está vendo como, os parentes todos aqui não têm uma renda, como eles podem se beneficiar desse auxílio que o governo ofereceu.

10.B. Vocês, durante essa pandemia, vocês costumam sair de dia pra trabalhar, ou fazer compras, ou outras atividades?

R. Não, travou completamente. Venda fora, em outros lugares, não dá mais. É só compra. Está todo mundo de quarentena. Só quando acaba os produtos alimentícios [é que as pessoas saem]. E quando sai, sai uma, duas pessoas no máximo quando o peso é muito grande, porque não tendo condução, nós vamos ao mercado e outros lugares a pé.

11.B. E vocês fazem isso justamente com o temor de trazer para a aldeia a contaminação.

R. Medo da contaminação. A gente sabe que vai ser muito perigoso para nós. [A gente toma] Todo cuidado, de sair apenas por necessidade para compra de alimentos. Tanto que nós mantemos os portões fechados.

12. B. Bom, se o senhor quiser falar mais alguma coisa que você ache importante, sinta-se livre.

R. De tudo o que o Brasil deixou a desejar, e que outros países se adiantaram, e protegeram a sua população, infelizmente, os países que estão no epicentro mais forte da pandemia, o Brasil teve o alerta para sua população, mas o governo nacional não falou nada sobre os povos originários.

13.B. Como o senhor vê a postura do presidente nesse momento e essa indicação sobre voltar à normalidade contra os outros países?

R. É um governo genocida. Os outros governos, Lula e Dilma, não foram bons para a questão indígena, mas no entanto não mexeram na nossa questão principal que é a terra, nossa territoriedade. Mas esse governo nacional, ele ataca diretamente. Estive diretamente no Maranhão, há dois meses atrás, onde está havendo um dos maiores conflitos e assassinatos dos meus parentes Guajajara; e o Estado Nacional, o simples fato de o governo do Brasil, do presidente falar que vai abrir mineração, agronegócio em terras indígenas já é o suficiente pros grileiros e latifundiários entrarem sem medo, mesmo sem nada decretado oficial, só o fato de ele dizer que vai abrir, isso já é cruel para nós.

14.B. Mas a postura dele, de ir à televisão, e minimizar a pandemia, como o senhor vê?

R. É o típico governo genocida. Em primeiro lugar, ele está pensando sobre produtividade, mas a saúde da população, e principalmente o nosso caso, ele nem tocou nesse assunto de proteger o mais vulneráveis, que somos nós, a população dos caiçaras e quilombolas, ele nem tocou nesse assunto. Nenhuma vírgula sobre isso. E no entanto, somos a população mais vulnerável. Qualquer gripe, nós temos populações isoladas, são 60 grupos ou em semi estado de isolamento. Então somos muito vulneráveis. Se uma gripe comum for passada para um indígena, praticamente você extermina um população, imagina um vírus cruel desse. E o governo que agora está começando a fechar as fonteiras e todos os aeroportos, e os pesquisadores que chegam nas reservas indígenas, próximos de populações isoladas. É um estado genocida, que quer acabar de exterminar as populações originárias.

Quero denunciar, no caso da Aldeia Maracanã, é o descaso do Estado Federal, do nosso único patrimônio. Se temos o templo indígena, como as outras facções religiosas. Esse aqui é o único.

Todas as igrejas estão preservadas, e nosso único patrimônio, o Estado Federal e o Iphan não tombou. 2013 conseguimos um tombamento precário. Então é uma situação de abandono, que temos aqui, o retrato de como o Estado tem tratado nossas questões indígenas ao longo desses 522 anos, é o retrato dos povos originários. Estamos tentando revitalizar sem verbas e que essa matéria sirva de alerta para que o mundo saiba o que o Estado está fazendo com as populações originárias.


Bruno Kaiuca é curitibano já trabalhou como repórter fotográfico do JB e d’O Globo. Atualmente, trabalha como fotógrafo freelancer.


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