A live sou eu.

Existem perguntas que se acumulam quando entramos em silêncio. Daí a alta demanda por uma resposta a elas. O erro, no entanto, nunca estará na tentativa de responder a essas perguntas, mas no fato de que, assim como elas – as perguntas – demoraram para se efetivar e serem construídas, as respostas certamente também deverão demandar tempo de reflexão. 

A ideia de que algo de grande magnitude pode ser resolvido em minutos desconstrói ainda mais o ser humano da pós modernidade, que já não se sente obrigado a pensar em alternativas que dialogam com suas necessidades; afinal, existem pessoas, robôs – e talvez aliens – disparando procedimentos mágicos que, como massas prontas de bolo, serão misturas num indivíduo -complexo por natureza- e após um tempinho de forno, sairão belas, fofinhas e com cheiro de lar. Balela. 

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente a morte”, já diria Zygmunt Bauman. E eu concordo. Em tempos de quarentena, as famosas “lives” borbulham informação de todo tipo, de toda forma, de todo segmento, altura e profundidade, e esse texto não é uma crítica a esse movimento – afinal, se relacionar, mesmo que a opção seja virtual, é uma demanda humana. Esse texto, sim, é um ponto de reflexão sobre o gigante coador de todos os problemas (existenciais, filosóficos, teológicos, religiosos, políticos, econômicos) do mundo que essa ferramenta tem se tornado nas mãos de uns e outros. 

Queremos ser os mais rápidos, os com maior aptidão e com melhor argumentação – não que essa última signifique o uso de ferramentas teóricas -, mas importa que nos posicionemos, segundo quem? Não tem; é legal ver essa corrida de ego, mas ao mesmo tempo, cabeças rolam, e elas representam os cancelados desse reino construído e alimentado sobretudo nesse período de COVID – 19. Visibilidade então, se torna um impulso para, literalmente, dois destinos: fada sensata ou cancelada. 

O boom das lives (e digo de situações específicas onde tenta se ofertar um conteúdo que não se domina e nem ao menos oferece mecanismos justos de análise, como por exemplo jornais, dados, sites oficiais, enfim) demonstra toda essa necessidade suscitada acima; no entanto, ele fala também de uma necessidade vinculada à própria existência, que se desdobra, ainda, na ideia de silêncio e no que se concebe sobre ele. 

O saber é plural, basta lermos as obras de Paulo Freire para concluirmos isso com o autor. Todavia, não é nesse aspecto que analiso o saber, pois, indo ainda mais fundo: o que é ou, o que constitui o saber? Ele parte da identificação e troca, sendo, portanto, antes de mais nada, uma experiência. Quando recortamos o fenômeno das lives e analisamos, vemos que a necessidade de uma resposta a nível “fada sensata” não diz de um conhecer prévio, mas de uma associação rasa e que pouco dialoga com o seu entorno mas se constitui como uma fórmula mágica que, em teoria, deveria auxiliar todos os viventes da terra. Penso em dois pontos quando vejo algo assim: primeiro, o senso crítico das pessoas irá excluir essa possibilidade absurda; segundo, o senso crítico foi cooptado no palco político, portanto, alguns abriram mão dele. Alguns irão consumir o absurdo. 

Mediante a isso, penso: a live sou eu. Ela revela quem eu quero ser, mesmo quando não há um currículo que me possibilite a tal cargo. Alguns tentam pela força da adesão e reconhecimento público, outros pela distorção do conhecimento, outros falando com palavras inacessíveis no vocabulário popular mas que no final não fazem bulhufas de sentido (mas ainda assim taxados como sábios, inteligentes, pessoas fora da bolha, etc). Alguns são um pouco de tudo isso, também. Mas há um lado positivo em pensar que, quem se mantém vivo e vivendo ao dizer não as balelas virtuais, sou eu. Faça live sim, se você quiser, mas faça consciente de que você transborda a qualquer achismo e “diquinha sensata” da quarentena.


Gyovana Machado é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja.


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