O que a natureza me ensinou sobre aceitar a transitoriedade da vida

Morar em um sítio afastado da cidade grande, possui os seus benefícios. Apesar de algumas facilidades, que encontramos nos grandes centros urbanos, não estarem na lista; viver perto da natureza é um constante processo de aprendizado. 

Atualmente vivo em um sítio a 113km de distância de São Paulo. Tenho a sorte de não só viver em meio à natureza, mas também de ter um trabalho que me possibilita o home office, o que torna a experiência e convívio ainda mais íntimos. 

É engraçado notar como desenvolvemos habilidades e passamos a lidar com mais desenvoltura com o ambiente em que vivemos, depois de um certo tempo imersos nele. 

Depois de quase 20 anos morando em um sítio com a mata fazendo borda, não aprendi somente a sentir o cheiro da chuva se aproximando, saber quando chega o outono observando a mudança da luz do sol durante as tardes ou quando plantar rabanetes na horta. Também aprendi a decifrar algumas linguagens e processos, algumas lições sobre a vida que a natureza conta através dos seus signos. 

Uma das lições que estou recebendo no momento é sobre a imperfeição e a importância de aceitar a transitoriedade da vida. E gostaria de compartilhar com você.

Sou uma pessoa que gosta de entender as coisas, daquele tipo de gente que se sente confortável e segura tendo respostas para tudo. Gosto de planejar, ter metas, sentir que estou indo de um ponto A até ao ponto B. 

Mudanças, imprevisibilidade, “dar um jeitinho”, esperar para ver como as coisas se desenrolam; esses tipos de situações sempre me deixam estressada e com a ansiedade apitando. No entanto, quanto mais eu tento evita-las mais eu sofro.

Foi aí, de uns tempos para cá, que percebi que preciso encontrar um equilíbrio. Compreender que as mudanças existem e passar a encarar a minha impotência em relação a muitas coisas não como algo a ser evitado e temido, mas como um processo natural da vida. E tudo isso começou com bambus.

Durante a temporada de chuvas fortes, normalmente no verão, é comum que as árvores sofram danos por conta da força do vento. Algumas perdem galhos inteiros, flores e folhas caem aos montes ou até mesmo, no pior dos casos, há árvores que tombam.

O vento é um fenômeno natural instável e com variações aleatórias de velocidade e intensidade. E se pararmos para pensar a vida é muito parecido com o vento, instável e cheia de variações. 

Na botânica há algo chamado de plasticidade fenotípica das espécies, que em resumo é a capacidade das árvores de se adaptarem às condições ambientais sem sofrerem danos em suas estruturas. Não sou especialista na área, mas li alguns artigos que explicam que as árvores com plasticidade elevada são mais resistentes aos ventos fortes. Essas árvores tendem a possuir mais estabilidade sob condições adversas, elas se ajustam às alterações do ambiente. 

Bambus não são árvores, na verdade são gramíneas, –  isso mesmo, grama -, apesar de terem o tamanho de uma árvore as características são diferentes, já vou chegar neles.  

Durante uma tarde tempestuosa de março, eu estava olhando pela janela da cozinha de casa e fiquei observando a reação das plantas que crescem aqui no sítio. O vento incidia forte em direção às árvores. Muitas delas estavam rígidas, como se estivessem enfrentando com o máximo de força contra as investidas da tempestade. No entanto, elas pareciam estar sofrendo na tentativa de não serem afetadas. 

Por outro lado, em um outro canto do terreno, os bambus, diferente da maioria das árvores, dançavam ao vento. Eles pareciam suscetíveis, aceitando as rajadas e tombando de um lado para o outro, praticamente entregues. E eu vi uma beleza frágil e ao mesmo tempo potente neles. Os bambus surgiam como bailarinos que se adaptavam e faziam par com o vento, era uma dança de extremos, uma dança em meio aos caos

A tempestade daquele dia durou até a madrugada. Na manhã seguinte, uma árvore tinha tombado e outras haviam perdido os galhos. Me dirigi até os bambus e observei que eles estavam intactos, tirando algumas folhas que forravam o chão, a estrutura não havia sofrido dano algum. Foi alí que eu aprendi uma lição. 

Os bambus possuem a característica de se moverem com o vento e de não irem contra ele, são flexíveis. Por outro lado, eles possuem uma raiz forte. Li certa vez que se olharmos para o tamanho de um bambu podemos comparar a mesma medida do tronco para o tamanho da raiz que está escondida sob a terra. Em resumo, eles estão bem fincados e possuem uma estrutura que os mantem firmes. No entanto, as raízes fortes não os impedem de serem adaptáveis e flexíveis. Eles não lutam para permanecerem firmes em si mesmos.

Nós temos a tendência errada de achar que é a estabilidade é algo a ser conquistado a qualquer custo. Acreditamos que as certezas trazem tranquilidade e que quanto mais respostas tivermos, mais estaremos seguros e felizes. Criamos, então, regras para os nossos relacionamentos, cronogramas para as nossas rotinas, metas para as nossas vidas e objetivos a longo prazo. Tentamos seguir as nossas certezas à risca. Varremos para debaixo do tapete qualquer situação que nos tire da zona de conforto. Resistimos bravamente aos ventos e buscamos uma solução e solidez para tudo. 

No entanto qualquer sensação de segurança é precária, pois a vida é isso, mudança e imperfeição. 

Bem, não estou dizendo que não é importante termos algumas seguranças, como: um trabalho, uma casa para morar, comida todos os dias, relacionamentos saudáveis  e por aí vai. Na verdade, é importante, até mesmo para a nossa saúde física e emocional. Objetivos e sonhos também são importantes, pois nos ajudam a ter um foco. No entanto, o pensamento que tudo está ganho, que sempre teremos o que temos hoje ou que conseguiremos chegar a determinado objetivo com 100% de acerto, é uma ilusão. 

As tempestades e os ventos surgem de forma súbita e incontrolável para lembrar-nos que a única constância da vida é a mudança. 

Uma doença, ser demitido, a perda de uma pessoa amada, uma crise mundial, um plano pessoal que acabou dando errado e um acidente por exemplo, são choques consideráveis e na maioria das vezes não temos o controle destes. 

Quando as mudanças surgem é normal sentirmos uma angústia inicial. No entanto o desespero se instala de vez a partir do momento em que passamos a enfrentar a tempestade com resistência. Quando tentamos segurar em vão aquilo que está escorrendo pelas nossas mãos. Criamos, então, uma rigidez interna que provoca o atrito com as mudanças. São como as árvores que batem de frente com o vento, elas acabam tombando por não se adaptarem. 

Estou aprendendo que é preciso aceitar as mudanças com mais resiliência, assim como os bambus aceitam a ação do vento. O que não quer dizer necessariamente que precisamos concordar com tudo o que acontece. É compreensível ficarmos chateados, frustrados e tristes. 

No entanto, quando as mudanças ocorrem é preciso ser realista ao que está acontecendo com as nossas vidas naquele momento. Entender que há forças incontroláveis e nós podemos escolher entre resistir e sofrer em demasia pelo fato de elas aconteceram, ou resistir sim, na nossa estrutura pessoal, como o bambu que fica firme na terra por conta das suas raízes longas, mas deixar o tronco flexível ao tempo. 

É preciso parar de lutar e conscientizar-se. Bem, estou aqui e estou enfrentando isto. Independente de qual seja o vento que a vida soprou, não o ignoro, reconheço, irei aprender algo e terei um papel ativo em decidir como será depois. 

Eu sei, parece fácil falar e difícil de fazer. Concordo, é muito difícil encarar o transitório e imperfeito com serenidade. Mas, por outro lado, pensar o contrário  – que nada irá mudar – é contar uma grande mentira para nós mesmos. E por mais que não consigamos mudar as nossas percepções de uma hora para a outra, é preciso colocar em prática o exercício de abraçar a impotência. 

Estou aprendendo com o meu jardim que nem sempre preciso encarar a vida como uma prova de resistência ou uma agenda cheia de tarefas que precisam ser cumpridas ao pé da letra. Isso não me fará mais segura e feliz. Eu também posso encontrar paz em uma dança solitária com as incertezas, em uma página em branco que se mantêm em aberto todas as manhãs. Aceitar que eu não sei de tudo. O que tenho hoje, amanhã poderei não ter mais. Que os meus planos podem mudar de acordo com o vai e vem da vida. Por isso que preciso desenvolver a minha capacidade de adaptação e resiliência para permanecer inteira. Como os bambus. 

Por mais que incomode o vento irá passar, de uma forma ou de outra, mas a pergunta que fica é: o quanto deixaremos ele levar de nós? 


Hadassah Sorvillo é amante das palavras e da natureza. Formada em publicidade e gastronomia, equilibra seus dias na rotina como freelancer de conteúdos digital e cozinheira. Também compartilha receitas e descobertas culinárias no temperodahady.com


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