A tirania higienista

Muito tenho dito nesta série de artigos sobre a crise da Covid-19 sobre a imensa possibilidade de que venhamos a sair deste mal melhores do que entramos, sob diversas perspectivas, a julgar por como o ser humano passou por outras situações parecidas em episódios de pandemias anteriores. Isto além da competência do sistema de saúde brasileiro que, ao contrário do que apregoam os incautos e mal intencionados, é um dos mais bem configurados do mundo na atenção ao cidadão, restando-lhe problemas colaterais ao subdesenvolvimento.

Sobre esta questão, falo mais tarde…

O que importa, hoje, é fazer a ponderação daquilo em que podemos sair piores, isto é, de que sequelas sociais pode nos deixar a pandemia de 2020 e como elas se manifestarão num futuro próximo.

Pois bem, com todos enclausurados em suas casas, o recurso imediato de entretenimento, sobretudo para os mais velhos, é a TV, não importa se aberta ou fechada. E, neste contexto, mistura-se a imprescindível prestação de serviços para a informação da sociedade, sobre os cuidados e procedimentos necessários para conter a propagação do vírus, com conteúdos apocalípticos de cientistas prevendo a morte de milhões em rede nacional, além do reforço dos jornais diários (já carentes de reportagens para cobrir o tempo muitas vezes já expandido pelo cancelamento de outras atrações) à compulsão asséptica que já nos toma de assalto.

Se ao princípio a recomendação era a de manter o distanciamento e lavar as mãos, evitando aglomerações e mantendo-se cada um em sua casa, a ordem agora, conforme os jornais, é desinfetar as caixas que se recebe em casa, é não encontrar com o entregador dos sistemas de delivery, é usar lencinhos para pegar em maçanetas etc, repetindo o mantra desse higienismo midiático que vira e mexe estava em voga nos programas matinais “para senhoras”, agora o carro-chefe da programação. 

Já dizia Foucault que a escola, o hospital e a prisão têm origem num mesmo mecanismo, o panóptico, que consiste em apreender, controlar e supervisionar as atividades dos seres humanos para disciplinar os corpos e punir os desviantes. Por isso somos conduzidos ao modelo contemporâneo de escolas, surgido na modernidade, em que nos sentamos em fileiras olhando para um professor em pé: ali estão disciplina, controle e supervisão. Por isso nos consultamos ou somos internados deitados em fileiras de macas cercados por pessoas de roupa branca e máscaras no rosto (sobretudo os mais pobres), supervisionados em consultas particulares diuturnamente pela tirania do corpo são. Por isso, finalmente, o indivíduo sobre o qual a sociedade não tem mais controle, o desviante, deve ser apreendido por algum tempo, ou por tempo indeterminado, para a supervisão na supressão completa de suas liberdades, de modo que o panóptico lhe seja onipresente, isto é, na prisão.

A tirania do disciplinamento e padronização dos corpos pode tomar uma expressão higienista última nesse episódio da Covid-19, em que o simples sujeito que vai ao mercado sem máscaras, por que lhe é desconfortável, pode ser implicado à morte de milhares de pessoas, a despeito do sistema financeiro que não despendeu, até agora, em todo o mundo 1 bilhão para fabricação e compra de equipamentos para atendimento de pacientes graves. A estratégia do capitalismo, repetidamente, é a de transferir ao indivíduo a responsabilidade pelo cuidado coletivo, negligenciando o reduzido poder desta se comparado ao da distribuição (ainda que emergencial) das riquezas por meio do investimento do capital privado no sistema de saúde, que em questão de semanas já não fará distinção entre público e privado.

Há a chance de deixarmos a crise da Covid-19 vigiando-nos uns aos outros ao abrir uma maçaneta, ou fazendo fila no lavabo do restaurante para passar água e sabão nas nossas latinhas, ou ainda substituindo nossos beijos e abraços por frias saudações à distância, sob o argumento de que “a sociedade agora está consciente dos perigos invisíveis”, ou o que quer que seja. 

Enquanto isso, gozando do sucesso em individualizar responsabilidades sobre danos coletivos, o grande capital seguirá capitalizando seus lucros, quiçá com a supervalorização das ações dos setores farmacêutico e de materiais de assepsia.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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