Tramas do tempo, jogo da memória

Detalhes aparentemente insignificantes como os botões de roupas são capazes de evocar e acionar múltiplos botões da memória, como estes, guardados e conservados por minha irmã, Aninha ,durante anos e anos. “Este aqui foi do vestido da tia Mariana”; “já este era de uma peça que fulano adorava usar”; “Nossa! Este aqui…” São botões que, de tão fortemente associados à biografia de homens e mulheres de nossa família, ganharam suas próprias biografias. Cresci vendo-os dentro de um pote no baú de costuras de minha mãe, ao lado da máquina de costura Singer, centenária, comprada de segunda mão pela minha tataravó portuguesa, no início do século XX. 

Esses fragmentos de memórias estão cheios de lembranças de uma época em que nossa mãe, Nair, costurava para ajudar no orçamento da casa e atender às demandas dos moradores da zona rural. Em meio à escassez e à simplicidade da vida na roça, como sabemos, era muito comum comprar tecido para confeccionar roupas em casa e remendá-las ao máximo. Na falta de uma variedade de botões, recorria-se, inclusive, à criatividade para quebrar a monocromia das peças: alguns deles eram revestidos com tecido colorido – como se vê em alguns exemplares da coleção.

Observando o excêntrico hábito de minha irmã de colecionar botões e o carinho dela por aqueles diminutos objetos, bem como a carga simbólica que carregam e as memórias e narrativas que evocam, propus que reuníssemos e expuséssemos aqueles considerados por ela e por minha mãe como os mais emblemáticos. As habilidosas mãos de minha querida sobrinha, Carla Beatriz, traçaram as linhas e retas dos pequenos quadrados em que cada um deles ficaria exposto. De repente, aqueles botões velhos, mas coloridos e diversos, coloriram as tramas de um tecido branco qualquer, sobre o qual se desenhava o tabuleiro de um jogo formado por um arranjo subjetivo de peças.

Acionando as lembranças subjetivas do passado, as memórias dão sentido, sabor, cheiro, sentimentos e cor ao tempo. Elas nos fazem acionar os dramas escondidos por entre as tramas aparentemente vazias, alvas e neutras do tempo. O arranjo e a disposição dos botões no tabuleiro poderiam ser outros, certamente. Mas, por enquanto, deixemos a análise crítica das escolhas possíveis para a história…


Sérgio Augusto Vicente: sou professor de História e historiador, com bacharelado, licenciatura e mestrado em História pela UFJF. Atualmente, curso doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História, vinculado a mesma universidade. Dedico-me a estudar a história social da cultura no Brasil, trajetórias individuais e de grupos, história intelectual, patrimônio cultural, memória e educação.

Moro em Juiz de Fora (MG), onde trabalho no Museu Mariano Procópio. Contudo, mantenho-me umbilicalmente ligado às origens rurais de minha família, num sítio em Simão Pereira (MG), uma espécie de refúgio localizado à margem de uma estrada de terra que liga ao município vizinho de Belmiro Braga (MG). Sítio que se tornou memória afetiva de várias gerações de minha família, desde que meus tataravós portugueses o compraram em 1910. Sempre que posso, escrevo crônicas e poesias, abrangendo temáticas diversas, como memórias, cotidiano, política, etc. 

No ciclismo amador, conecto a necessidade de cuidar da saúde física/mental com todas as áreas de minha vida, a que me dedico com amor e carinho.  Entre um passeio ciclístico e outro, inspiro-me em histórias e memórias do cotidiano e paisagens de Juiz de Fora e região. Na página “Diários de bicicleta”, no Facebook, é possível ter acesso a esses registros


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