Aboio: o canto esquecido.

uma série de 3 textos levarão da contextualização do movimento da cultura popular até a relação da produção gráfica vernacular.

Vamos crianças, vamos
Vamos todos aprender
No tesouro que achamos
A receita do bem viver
Vamos criança, vamos
Bem depressa aprender
A receita do bem viver
É preciso conquistar
Com coragem e união
A flor da felicidade
Que deseja, deseja o coração
Vamos crianças, vamos
Vamos todos aprender
No tesouro que achamos
A receita do bem viver
Vamos criança, vamos
Bem depressa aprender
A receita do bem viver
Primeiro a Verdade amar
Amar sempre a Igualdade
Progresso conquistar
Pelo bem, pelo bem da Humanidade

Receita do Bem Viver -MCP (O Movimento de Cultura Popular do Recife (1959-1964).

MCP, pense você em tal sigla carregava a energia de evolução humana além dos tempos e que mantinha um time dos sonhos para qualquer era.  nomes como Paulo Gil Soares, Ariano Suassuna e Paulo Freire, etc.

“os jovens intelectuais que militaram no MCP…. desenvolveram propostas programáticas e ações político-culturais que contribuíram para a percepção de que as classes populares deveriam ser sujeitos da sua história e protagonistas da construção de sua identidade.”

Viva a Cultura Popular

Leonel Albuquerque, Mariene Gouveia, Leda Alves, Maria de Jesus Porto Carreiro (Baccarelli), José Pimentel e Clênio Wanderley (‘O processo do diabo’ / ‘A caseira e a catarina’)
Foto: Reprodução

A guerra travada entre o artesanatoXtecnologia nunca fez sentido se observar que aqueles que lutaram pelo controle social, se dizendo patriotas quando na real, nacionalista, desencontraram da cultura popular brasileira que resiste a 500 anos à opressão dos classistas supremacistas que em carregam a desigualdade social, trata-se da higienização cultural do povo brasileiro.

Jango era um político pró-provo com heranças do Getulismo, estourou o plano Trienal e iniciou um período de intensas brigas com a direita com suas “Reformas Populares”, principalmente agrária, o estopim para o grandes donos de Terra mobilizarem as forças armadas brasileiras. 

Podemos aprender com um recorte muito rico na história da educação e valorização da arte popular no Brasil. O aqui citado MCP, serviu de apoio para uma corrente de intelectuais que defenderam com astúcia os retalhos da cultura, pré-artesanato e a identidade artística brasileira iluminados pela ideologia da educação como direito universal primário nos primeiros anos da década de 1960.

Visto Paulo Freire, um dos coordenadores estratégicos do MCP. Interventores como eles alavancaram a alfabetização nos sertões de Pernambuco implantando uma estrutura educacional  correlacionada com a cultura popular.

Promover e incentivar, com a ajuda de particulares e dos poderes públicos, a educação de crianças e adultos; atender ao objetivo fundamental da educação que é o de desenvolver plenamente todas as virtualidades do ser humano, através da educação integral; proporcionar a elevação do nível cultural do povo, preparando-o para a vida e para o trabalho; colaborar para a melhoria do nível material do povo, através da educação especializada; e formar quadros destinados a interpretar, sistematizar e transmitir os múltiplos aspectos da cultura popular. (MEMORIALDO MCP, 1986, p.23-24).

Abelardo da Hora, comunista e presidente da Sociedade de Arte Moderna de Recife,  foi um dos envolvidos nessa forte união dos setores pela educação. Cresceu como nunca em Recife de Miguel Arraes na década de 1960 as unidades escolares e o consequente aumento de alfabetizados gerou insatisfação aos conservadores da política e sociedade pernambucana, pois vislumbravam a formação de um novo campo eleitoreiro. processo interrompido antes da metade da década pela intervenção militar. 

Charge sobre castelo branco 
“Janc vê o elogio/’. Janc. 1964

Para quem serviam os generais Arthur da Costa e Silva, Castelo Branco e Cordeiro de Farias quando se amotinaram contra a constituição e implantaram o regime militar?  O que havia com as propostas de reformas de Jango? Por que um programa de alfabetização seria tão ofensivo ao progresso militar a ponto de seu imediato encerramento

O Movimento de Cultura Popular do Recife foi extinto com o golpe militar, em março de 1964. Dois tanques de guerra foram estacionados no gramado da sua sede, no Sítio da Trindade. Toda a documentação do Movimento foi queimada, obras de artes destruídas e os profissionais envolvidos foram perseguidos e afastados dos seus cargos.

A intencionalidade do MCP não era apenas ensinar ler e escrever de maneira elementar, mas promover educação conscientizadora para exercício da cidadania.

Em pé, Paulo Freire explica ao presidente João Goulart e a políticos nordestinos a sua pedagogia do oprimido, observado por Miguel Arraes (à sua esquerda) e outras autoridades / Acervo Fórum de Educação de Jovens e Adultos

O respeito pela identidade do pobre (que não podia sequer  votar por ser analfabeto) o fez mergulhar na identidade oprimida e machucada para descobrir o meio ideal de comunicação. A meta era acessar uma esfera de pessoas por vez abandonadas pela evolução que a civilização e o progresso haviam prometido. Paulo Freire abraçou a sabedoria daquele povo que não sabia escrever o nome mas entendia sobre a sobrevivência  em um cenário duro e miserável.

A história é uma verdadeira sábia que nos conta os fatos, deixando pra cada um a interpretação desejada. O ataque sofrido pela educação e a arte em 64 ainda são incalculáveis, talvez um grande efeito ainda hoje, similar o da chamada Bomba de efeito moral que abala o coletivo em função de dispersão, “desnorteando” e provocando contusões graves em quem estiver por perto.  O desmonte de iniciativas que buscavam erradicar a miséria, o anafalbetismo, a segregassão social teve como finalidade calar um povo e deixando assepsiado da sua própria cultura. Não se pode esperar uma política progressista coletiva das gerações nascidas no golpe, pois nada podia se dizer naquelas épocas e assim “nada se aprendia”. 

Não houve no brasil uma força que colocasse o regime militar em xeque, houve na verdade uma entrega lenta para uma cúpula pseudo-democrática. A Cultura Popular foi queimada e enterrada, ou quando não encaixotada e ocultada.

L’Espresso .1964 notícia o cancelamento da exposição “Nordeste do Brasil”

O aparente carma da arte brasileira de evidenciar a riqueza cultural antropofágica como em 22 na semana moderna, na exposição “Nordeste do Brasil” de 60 organizada por Lina Bo Bardi, ou nas obras de Glauber Rocha e Paulo Gil trazem consigo o forte pulso das forças conservadoras que insistem distanciar a realização da massa em se tornar o povo que sabe guiar sua sociedade, o povo que sabe e escolher o que é melhor para o próprio povo.

Poster- Deus e o Diabo na Terra do Sol. 1964  Glauber Rocha
Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi” – divulgação
Planta do térreo e conjunto da exposição ‘Nordeste’ realizada no ‘Museu de Arte Popular do Unhão’ em Salvador, 1963 – acervo Instituto Lina Bo Bardi

A Cultura conservadora tem mostrado que precisa destruir as demais para imperar sem abalos. Tirar do povo a capacidade de autonomia, o senso de julgamento, o orgulho da identidade, são processos que o modelo político vigente adotou para anestesiar a massa e torná-la consequentemente enfraquecida. Para além de ensinar o sertanejo ler e escrever, o MCP ascendeu a consciência de ser participante político com valores. 

Se o design e a arte não caminham juntos à educação que reconheça e valorize a cultura popular, de que servirão? O Brasil é refém de um perverso controle que é brutal com o pobre e toda sua cultura, descriminalizando, ofendendo e atropelando a raiz do povo. 

Minha mãe sempre me dizia que eu deveria encontrar as minhas respostas morais no meu coração, se fosse pro Brasil esse ensinamento teríamos de ouvir o nordeste e aprender com Pernambuco. Temos os melhores modelos educacionais para nós mesmo, temos uma arte que nos ilumina, uma identidade plena que precisa ser vista para ser lembrada, pois não é por que não passa na TV que não existe. Nada por acaso.

Documentário Indicado

MIGUEL ARRAES E OS MOVIMENTOS SOCIAIS EM PE [1950/1960]

e todos outros “linkados” anteriormente

Aboio / Cattle Callers

Bibliografia de apoio

Bardi, Lina Bo, 1914-1992. Tempos de grossura: o design no impasse;

Finizola, 2018. A Tradição do Letreiramento Popular em Pernambuco – origens, forma e prática;

Finizona e Coutinho, 2013. Abridores de Letras de Pernambuco – um mapeamento da gráfica popular;

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Outros acessos 

https://www.revistacontinente.com.br/secoes/lancamento/o-tpn-e-seu-maestro-hermilo-borba-filho


 Iury do Vale Borel é mineiro com formação acadêmica que coexistiu o erudito e marginal, formou-se pichador e desenhista industrial pela Universidade Federal do Espírito Santo, mas prefire resumir como ativista gráfico. Acredita na arte como meio de transformação e empoderamento do ser e de comunidades. Logo que inserido nos movimentos de arte de rua, buscou o relacionamento do dualismo presente em sua trajetória, coexistir o erudita acadêmico com o grafista marginal. Propulsor e criador de ideias como CinePixo, Oficinas de Tobograffiti e Artefatos da Arte de Rua que propõem uma visão empírica para mostrar as entrelinhas da arte urbana. Descriminalize a arte


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