21. Nasce uma borboleta

… o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.
Clarice Lispector

O sino da igreja tocava. O vento se encarregava de tocá-lo onde houvesse fiéis dispostos a expiarem diante do santo repique. Meu lar e minha família se encontram a duas quadras da igreja. Porém, o que mais me deixa absorto são os badalos do sino, pois esses me fazem lembrar de um episódio não muito distante no tempo. Quero me liberar dessa lembrança, por isso a conto aqui para quem se interessar.

Morava em cidade pequena, interior de Minas Gerais. Seu nome: Itacarambi. Nome trazido de nossos ancestrais. Cidade título, provinciana até que provem o contrário. “Pedra de Duas Faces”, montanha azul como é azul a cor do mar, infinito no horizonte e trazendo a paz de se sentar na calçada em frente a sua casa, recostar o seu corpo mole depois da labuta diária e se aprazer com as conversas do povo, gostosas como o café preto que nossas velhas faziam em tempos não muito remotos. Vivi a minha infância ali, entre a imaginação e a liberdade de voar nas asas de um papagaio de seda.

A história que vou contar não é a de um menino livre entre o verde dos quintais e a rua apinhada de moleques fazendo algazarra nem a de uma criança descobrindo pela primeira vez as drogas do amor e seus efeitos colaterais. Conto com um menino de 11 anos nascendo para a vida, descobrindo as feridas de ser adulto. Uma lagarta na condição de casulo, virando borboleta para voar contra o vento, contra o tempo, e tendo as cores do arrebol para preencherem o pôr do sol com sua poesia de morte. Uma criança que descobrirá a fatura a pagar diante da vida.

Os sinos pincelam o quarto com seus badalos. A criança dorme sonhando com seus cavalos de papel sendo montados por soldados de chumbo. O pai a arranca da fantasia e a engatilha na realidade.

– Acorde, meu filho. Vamos, acorde. Deixa de ser preguiçoso. Já são dez horas da manhã. Está ouvindo o barulho do sino? Sabe o que significa isso? Não? Ouça só.

Silêncio no quarto. Só se ouvem o ritmo estridente da passarada e os badalos do sino.

– Bléim…Bléim…Bléim…

– Ouça só… uma badalada atrás da outra entrecortadas por uma pausa. Ouça só. O Tempo está mantendo o curso normal das coisas. Os mais jovens ficam e os mais velhos se vão pela hora que se chega. Já ouvi esse sino várias vezes, nunca me acostumo com o seu barulho. Ele pode ser tocado em vários ritmos. Esse está anunciando a morte de uma senhora idosa. E nós vamos em seu velório. Não faça essa cara. Você não quer ser escritor? Pois bem. Está aí uma ótima oportunidade de você conhecer as coisas, tomar notas. Isso pode dar até um belo conto.

– Mas pai…

– Nada de “mas”. Você não quer acompanhar o seu velho pai? Nós vamos mais tarde, depois do almoço. Portanto, acorde.

Acordar. Essa era a sentença. Acordar para a vida, também para a morte. Morrer. Para uma criança, morre-se de rir, morre sem razão, morre de bala imaginária alojada nos chumbos dos soldados.

– Pai, o que é um velório?

– Você vai ver, meu filho. Logo você vai ver.

Almoço em família. A criança cuspindo dúvidas e mais dúvidas, ingerindo badalos, sacudida pela noção da realidade. A surpresa em vista do passeio fúnebre. A barriga em digestão e seus sucos em processo gradual de decomposição. A vida prossegue em seu curso. Assim como houve a digestão alimentícia, haverá a digestão de humanos, a cupidez dos vermes e sua fome pela barriga, por tudo que se come, o ventre de outrora virando carbono, esterco, esqueleto. A terra se mistura ao morto. O arroto anunciando a vida e seu processo gradual.

– Deixa de ser porco! a mãe resguarda o filho de seu pai cotidiano, deixando-o o herói de cada dia, de cada fantasia.

A criança sorri para o pai. É um sorriso amarelo. Amarelo como a manga em que se trepa no pé para ir buscá-la. As suas fibras grudadas nos dentes. O caroço entre as mãos, futura vida no palmo da terra, fincando raízes, crescendo e sendo produtor também do que não se come, do que se perde no pé e apodrece no solo úmido e sombroso. A vida prosseguindo.

– Vamos, já é hora.

A sentença paterna. A hora do desterro. O momento do enterro do que ainda vai quente. Como que saído da boca de uma criança como a manga que se tira do pé e perde o seu cordão umbilical. A mesma terra que afaga o gérmen também cobre a folha extinta, seca de vida, cheia de fibras crestadas pelo sol e quebradas facilmente ao toque sutil de um vento feliz de outubro.

O pai chega à casa da finada acompanhado pela criança. A casa está cheia de gente. A rua está formigando. Não há como entrar. A velha morta era muito querida. O garoto presente acompanha tudo.

– Está vendo, meu filho? Isso aqui é um ambiente e tanto para se produzir um conto. Repare nas pessoas, no burburinho, nos risos que se escondem, nas dores e agonias dos parentes, no consolo fiel e cristão dos amigos, nas sutilezas dos inimigos que trazem flores murchas e roubadas, nas velas que ameaçam se extinguir a cada minuto ao som sutil e pecaminoso do vento. Tudo isso dá um conto fabuloso.

Ele afagava a cabeça do menino com um medo receoso de sorrir. Dizia a ele que era bom se manter sério, circunspecto diante de tal situação. Dizia que velório era aquilo mesmo, um misto de agonia e prazer. Agonia pelos que vão e prazer por não ser você a ir desta vez. De repente um grito seco ecoa no ar, todos se voltam. A filha desesperada diante do caixão suspenso no ar, fechado em seu afazer mortuário. Os gritos cada vez mais fortes, o choro agonizante de uma perda incontornável. A filha gritando pela mãe, a mãe suspensa no ar, jogada na escuridão. E o povo esperando. A ladainha em marcha pelas tormentas da rua. Começava ali o funeral, o último instante célebre antes de padecer do esquecimento nas gavetas das lembranças e das fotos envelhecidas. O povo em marcha seguindo o curso da morte.

– Veja, meu filho. Anote tudo nessa sua cabecinha. Que conto fabuloso!

Nós caminhávamos lentamente, seguindo o ritmo da vida e seu processo gradual. Um senhor, amigo de meu pai, troca alguns dedos de prosa com ele. Eu, vendo tudo aquilo, me encarrego de anotar.

– Doutor, o senhor viu como o pessoal que carregou o caixão na porta da casa de Madalena parecia que não estava fazendo força nenhuma? E o senhor sabe que a mãe dela, antes de morrer, vinha engordando muito. Ela era muito gorda, doutor.

Então, como que é isso Rubão?

– Ah, doutor, diz-que quando uma pessoa morre, se ela for muito boa aqui na Terra, ajudar o próximo, ser fiel a Deus, essa pessoa morta irá pesar quase nada, mesmo se tiver sido gorda e pesada antes de morrer. Mas se não, se ela for má, se desprezar o carecer dos outros, aí, doutor, ela pesa que nem chumbo, não há quem possa levantar. Pelo que eu vi, a mãe de Madalena alcançou a graça da leveza. Ela está salva, doutor. O contrário eu vi há umas duas semanas atrás num enterro lá em Manga. Um senhor muito rico morreu por lá, dono de terra, de boi, tinha dinheiro a rodo. No entanto, pra colocar o danado do homem dentro do caixão precisou de mais de dez homens. E mesmo assim porque tombaram o caixão e fizeram o defunto rolar até chegar nele. E depois, foi um custo, doutor, imagina vinte homens pra carregar o caixão. Pois é. Foi isso que aconteceu. Esse homem devia ter sido é ruim, mas ruim mesmo, doutor. Imagina só. Vinte homens!

Meu pai olhava para mim e sorria como que dizendo: “Anote aí, vai, anote tudo”. Lentamente chegamos ao cemitério. Quatro homens tiraram o caixão do carro e o colocaram no chão. Não vi sequer uma gota de suor, uma contração dos músculos do braço, do pescoço ou de onde quer que seja, nem mesmo um resfolegar das alças que sustentam o caixão no ar. Assim, a velha merecia os badalos do sino da igreja. Dois coveiros estavam de pé com pás nas mãos. Havia uma cova funda, não tanto para cobrir as lamúrias e os gritos secos entrecortados de choro da filha da velha. Duas cordas grossas se dispunham em cima do buraco. Ao redor, o silêncio das gentes, o ranger mudo dos dentes da filha, os latidos dos cachorros da vizinhança, as velas suspensas na escuridão e o caixão flanando no ar. Logo após, a cova e seu preenchimento, as cordas em sintonia de lesmas descendo para o furor noturno dos vermes. A cal alimentando a ociosidade da morte, rabiscando o preto em branco para a inutilidade da plantação. O crepitar das pás em ação. O último grito badalado da filha da morta. O sino e seus badalos intermitentes ao longe. O consolo do pulso pulsando e seu processo gradual. A última pá de terra cobrindo o leito da vida banida. Uns nascem, outros vivem, todos morrem.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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