As histórias e legados dos surtos e pandemias

A humanidade, de tempos em tempos, convive com surtos epidemiológicos que cumprem ciclos desastrosos em números de doentes e vidas humanas perdidas. Alguns, inclusive, vêm e vão com uma mesma doença, causados por novas mutações nos microorganismos que a causam. Até hoje, ao menos cinco grandes pandemias já tomaram o mundo (algumas continentais, mas aqui adapta-se o termo atual “pandemia” ao contexto do que era “o mundo”, quando do ocorrido): a peste bubônica, a cólera, a influenza, a varíola e a AIDS. E em todas elas a humanidade saiu-se melhor do que era antes.

A mais recente e que se encontra no imaginário das pessoas é a AIDS, que aí está, ainda sem cura, mas tratável em longo prazo como um diabetes. Quando surgiu, no final dos anos 70, disseminou-se pelos países desenvolvidos e vitimou sobretudo os mais ricos, chegando à Europa e aos Estados Unidos, ao Brasil, a dezenas de países nos cinco continentes onde se conta diversos casos em que uma pessoa morreu de AIDS. Na África e na Ásia, até os anos 1990, foi, pelo contrário, uma doença dos miseráveis, que a adquiriam por meio de qualquer contato com secreções (sangue em hospitais precários, por exemplo), ao invés do que ocorria nos países ocidentais, onde os doentes contraíam o vírus HIV, seu causador, em grande parte nas relações sexuais. Com anos de estudos e conscientização, hoje ela encontra-se controlada e a sociedade mais responsável e tolerante em relação às práticas sexuais.

Mas, voltando no tempo, a peste bubônica jamais será superada como a maior tragédia sanitária da humanidade, tendo tomado de assalto a Europa em 1348, trazida pelos ratos que vinham juntos com as cargas que faziam a Rota da Seda, do Oriente até a Europa. O que para os asiáticos era corriqueiro, visto já terem os anticorpos para a bacteria yersina pestis, para os europeus era a devastação. A pulga que vinha com o rato picava o ser humano e infectava os trabalhadores dos portos no Mediterrâneo. Assim que deixou de ser um problema portuário e passou a ser um caso de transmissão comunitária, passando de pessoa para pessoa por meio do contato próximo, viajou a Europa e levou 75 milhões de vidas em seis meses. Na época, isso era um terço da população mundial, que só voltou aos níveis populacionais anteriores no século XVII, ou seja, mais de 300 anos. 

A yersina pestis obstruía os vasos linfáticos e causava a formação de bulbos de sangue nas regiões onde mais eles mais se concentram, como axilas e pescoço. Duas soluções eram simples: desinfetar as cidades e acabar com os ratos, como prevenção, e cortar os bulbos para deixar escorrer o sangue, em seguida tratá-lo com desinfecção e curativo, esperando o organismo reagir (morreriam, ainda, muitos, mas aumentaria as chances de cura de quase zero para metade, vá lá). Incapaz de conceber a peste fora do ponto de vista religioso, a sociedade europeia não se deu conta de que o problema eram os ratos e não permitia a intervenção nas feridas, acreditando que elas transmitiam a peste, sempre mesclando parca ciência com alguma ideia de forças demoníacas, etc. A saída da peste foi, depois, fundamental para que a ciência se tornasse independente da religião, pavimentando o caminho para o renascimento.

A influenza é hoje a nossa gripe. Agora que todos somos especialistas em virologia, afinal, em tempos de internet, somos todos especialistas no assunto da moda (e, sem ninguém sair de casa, nem mesmo os que colocam assuntos em pauta, não haverá tão cedo concorrência), já começamos a ouvir sobre a “cepa”. Ou, a mutação pela qual o vírus passa quando atinge determinado lugar, ou clima, ou conjunto de organismos, para continuar se espalhando. É leviano, por exemplo, afirmar se a cepa do coronavírus na Itália seria diferenciada em relação a outras regiões, estando na origem da tragédia do país latino. Porém, caso se descubra que foi, têm-se aí o exemplo da cepa, e em 1918 a cepa do vírus influenza que chegou à Europa, vindo do interior dos Estados Unidos, devastou o continente logo em seguida à Primeira Guerra Mundial, espalhando-se depois por todo o mundo. Sem quaisquer conhecimentos epidemiológicos, o mundo desabou, com 100 milhões de mortos (proporcionalmente menos que a peste). Anos mais tarde, os países mais atingidos tomariam a iniciativa de desenvolver sistemas coletivos de saúde, estruturas sanitárias e estudos epidemiológicos, de modo que a chamada Gripe Espanhola não se repetisse.

O desenvolvimento da saúde preventiva a partir de medidas sanitárias foi tão grande que, no final do século XX, houve as primeiras “extinções” de doenças. Duas delas eram o terror dos países subdesenvolvidos, ou das colônias do século XIX e primeiras décadas do século XX. A cólera, infecção intestinal causada pelas bactérias vibrio cholerae, matou milhares e pessoas no século XIX, desde as colônias até as cidades europeias, em menor quantidade, por meio da contaminação pela água, àquela época consumida sem preocupações com contaminação. Quando a medicina sanitária começou a identificar tais problemas, a doença foi gradativamente desaparecendo, até que hoje se tornou um problema raríssimo, restrito a algumas regiões do Sudeste Asiático. A varíola, por sua vez, é ainda hoje a doença que mais matou na história. Seu “paciente zero”, mais por tradição que por precisão, é o faraó Ramsés V, que reinou em mais ou menos 1150 antes de Cristo e tem em seu corpo mumificado as marcas da doença, que causava bolhas na pele. Estima-se que ela matou 400 mil pessoas ao ano, entre os séculos XVIII e XIX, e 400 milhões de pessoas no século XX, isto é, dois “Brasis”.

E nesse contexto veio a vacina. Não apenas a da varíola. A primeira vacina. O pesquisador britânico Edward Jenner percebeu, no século XVIII, que as vacas eram acometidas por uma sepa mais suave do vírus variola major, o vaccinia, e, estudando o fato de que as pessoas que trabalhavam na ordenha das vacas não registravam casos de varíola em toda a Europa e por muitas gerações, Jenner resolveu investigar se a causa não estava no contato constante com uma versão mais amena do vírus. E, assim, (temerariamente, pensando com os padrões éticos atuais) foi testando o vírus em crianças para avaliar a imunidade futura ao variola major. Ele percebeu que as crianças inoculadas controladamente com o vaccinia já não o contraíam naturalmente, quando ele as punha em contato com sangue de feridas da varíola (deus!). Chamado à atenção pela Real Academia de Ciências do Reino Unido, por seus métodos antiéticos, resolveu aplicar seus estudos no próprio filho (só piora!), e obteve resultados excelentes (tecnicamente falando).

Estava criada a vacina, inicialmente aplicada à varíola. Jenner não foi reconhecido em seu tempo, por razões óbvias, mas seus estudos foram aproveitados no século XX até que em 1980 a doença foi declarada erradicada. Hoje, é bom que se diga, vacinas são desenvolvidas e testadas em laboratório, não sendo o desenvolvimento de uma vacina a aventura sanitária do dr. Jenner. Aquele experiento foi perigoso, mas, uma vez realizados, seu legado aperfeiçoado não é.

Portanto, da peste veio a liberdade do estudo científico, da cólera e da Gripe Espanhola veio a medicina sanitarista, da varíola veio a vacina, da AIDS veio o maior cuidado com a troca de líquidos corporais e novas discussões, ainda em processo, sobre a sexualidade. 

O que virá da Covid-19? Como afirma um pesquisador com quem muitas vezes converso, “o vírus vai contar sua narrativa”, e só saberemos ao final. Por hora, talvez se possa afirmar que ele trabalha em duas frentes: a insuficiência dos sistemas de saúde liberais (e a comparação com o sistema de Estado chinês) e a condição individual de isolamento em que vivíamos quando não estávamos isolados, agora revertida pela solidariedade em que buscamos viver, ainda que distantes. Mas é palpite. Só o tempo dirá.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.


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